22 de novembro de 2013

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Joel

O nome Joel quer dizer “O SENHOR é Deus” (hebraico Yõ’êl).
O tema deste profeta era uma solene advertência do julgamento
divino que seria pronunciado contra Israel no Dia do Senhor. Este
dia de julgamento é tipificado pela praga devastadora de gafanhotos
que causou uma perda financeira estonteante na nação. Mas esta
praga, por sua vez, prenuncia uma época de destruição final que
será o quinhão de todas as forças da descrença.

Esboço de Joel

I. A Praga de Gafanhotos Tipifica o Dia do Senhor, 1:1 — 2:11.
A. A tremenda devastação causada pelas hordas de gafa-
nhotos, 1:1-7..
B. Esta invasão prefigurava os invasores humanos do fu-
turo (assírios e caldeus), 1:8-20.
C. O dia do Senhor, um dia de prestação de contas, 2:1-11.

II. Chamada ao Arrependimento, 2:12-19.

A. As formas externas de contrição, juntamente com o sin-
cero arrependimento, do fundo do coração, 2:12-15.
B. O arrependimento em escala nacional, atingindo todas
as classes e todas as idades, 2:16,17.
C. Promessa da volta da miserieórda do Senhor (cumprida
no reinado de Joás, segundo parece), 2:18-19.

III. A Promessa das Chuvas de Bênçãos, 2:20-32.
A. A terrível derrota dos invasores de Israel, vindos do nor-
te, 2:20.
1. Senaqueribe.
2. A potência mundial, nos últimos dias.
B. Chuvas do Senhor, depois da praga de gafanhotos e a
fome, 2:21-27.
C. Estas chuvas prefiguram o derramamento do Espírito
Santo nos últimos dias (começando no Pentecoste),
2:28-32.
Sinais meteóricos na fase final dos últimos dias (cf.
Mt 24:29).

IV. O Triunfo Final de Deus no Dia do Senhor, 3:1-21.
A. A matança final dos infiéis; julgamento divino do dita-
dor final, 3:1-16. 
1. Prenúncios do julgamento da Fenícia e da Filístia,
que estavam oprimindo Judá, 3:1-13.
2. Prenúncios dos triunfos da época dos macabeus,
3:14-16.
B . Triunfo milenar e paz para Jerusalém, inclusive para a
família toda dos redimidos, 3:17-21.

Data da Composição

À profecia de Joel têm sido atribuídas datas desde o século
nono até o século quarto a.C., pelas várias escolas de crítica, conser-
vadoras e liberais. Mas, na base da evidência interna, a estimativa
mais razoável é a época da menoridade do rei Joás, durante a
regência de Jeoiada, o sumo sacerdote, cerca de 830 a.C. Há uma
excelente apresentação dos argumentos em prol duma data recuada
no livro The Doctrine of the Prophets (“A Doutrina dos Profetas”),
de A. F. Kirkpatrick (1890). Estas evidências podem ser alistadas
em três categorias:

1. O tipo de governo subentendido nestas profecias condiz
melhor com um um período de regência. Não se menciona nenhum
rei; são os anciãos e sacerdotes que parecem ser responsáveis pela
liderança nacional. Isto daria a entender que o rei era menor de
idade, e que havia regentes para tomar seu lugar. Segundo II Reis
11:4, Joás foi coroado com a idade de sete anos, e seu tio, Jeoiada,
exerceu uma influência controladora até o dia da sua morte.

2. Há evidências distintas de empréstimos entre Amós e Joel.
Por exemplo, tanto Joel 3:18 como Amós 9:13 contêm a promessa
“Os montes destilarão mosto”. Embora seja possível que Joel tivesse
citado de Amós, o oposto é indicado pelo contexto. Outro exemplo
se acha em Joel 3:16, quando, no meio dum discurso profético,
diz: “O SENHOR brama de Sião, e se fará ouvir de Jerusalém”.

Este mesmo versículo aparece no começo das profecias de Amós, e
pode ser inferido que Amós o empregava como um tipo de texto
do qual desenvolveu seu primeiro sermão. Neste caso pois, Joel
deve ter sido escrito antes de Amós, isto é, antes de 755 a.C.

3. Um argumento ainda mais conclusivo se acha no agrupa-
mento de inimigos que, segundo o autor, ameaçam Judá. Não há
referências aos assírios ou caldeus (e muito menos aos persas),
sendo que os inimigos citados são os fenícios, os filisteus, os egíp-
cios e os edomitas (cf. Joel 3:4,19). Isto indica um período no qual
a Assíria e a Babilônia não constituíam uma ameaça, mas no qual 
o Egito e as nações vizinhas ainda eram fortes e agressivas. Mesmo
na época de Joás, o poderio do Egito ainda era temível; na época
de Reoboão, Sisaque (identificado com Sesonque I, 947-925 a.C.)
devastou o reino e saqueou o templo de Jerusalém, e durante o rei-
nado de Asa, houve a terrível invasão de Zerá, o general enviado
por Osorcom I (925-829) da dinastia etíope (Novo Dicionário da
Bíblia, p. 1677). Na época do avó de Joás, Jeorão, e mesmo na
de Josafá, os edomitas e os filisteus fizeram incursões contra
Judá, com tanto sucesso que até invadiram a cidade de Jerusalém
(cf. II Reis 8:20-22; II Crônicas 21:16,17). Em nenhuma época
depois do reinado de Joás houve este mesmo agrupamento de ini-
migos do reino de Judá. Deve ser acrescentado que em nenhuma
época depois do período dos caldeus, o Egito poderia ser considerado
uma potência agressiva, já que estava envidando esforços para
conservar sua própria independência. Parece que isto eliminaria
a possibilidade duma data no período persa ou grego.

Entre os críticos não conservadores de tempos mais recentes,
há uma tendência de datar a profecia de Joel um pouco depois da
morte de Josias em 609 a.C. Este é o argumento de A. S. Kapelrud
(Joel Studies, 1948), que diz que o autor era um contemporâneo
de Jeremias e de Sofonias, e que compôs o Livro inteiro mais ou
menos conforme sobreviveu até nós. Comumente, porém, os críticos
colocam Joel depois do Exílio, por causa de ter prenunciado o cati-
veiro na Babilônia (2:32 — 3:1), mas, mais especialmente, por
causa de mencionar os gregos (Yãvãním) em 3:6. Supõem que os
gregos não poderiam ter sido mencionados até depois da época das
conquistas de Alexandre em 330 a.C. Deve ser notado, porém, que
neste contexto os gregos são mencionados como sendo um povo
muito distante, e a enormidade da culpa dos vendedores fenícios de
escravos é ressaltada pelo fato de que não tinham escrúpulos em
vender prisioneiros israelitas para regiões tão remotas como aquelas
onde habitavam os gregos. Não é de se supor que os povos helénicos
fossem desconhecidos a Israel no período pré-exílico, sendo que são
mencionados em inscrições assírias já no oitavo século a.C.  Tal
referência não é compatível com uma época na qual os gregos já
se tinham tornado dominadores do império persa inteiro, sendo
que então já não mais poderiam ser considerados povos remotos,
que é o que o texto dá a entender. (É por este motivo, em parte,
que Pfeiffer prefere datar Joel em cerca de 350 a.C., no tempo de
Filipe da Macedônia, pai de Alexandre). 

Estes críticos argumentam também que Joel não menciona o
Reino do Norte, nem qualquer rei de Judá, nem os lugares altos idó-
latras (bãmõt). Deve, porém, ser lembrado que nada disto se men-
ciona em Naum ou Sofonias tampouco, apesar de os críticos atri-
buírem para estes Livros uma data do sétimo século, antes do Exílio
na Babilônia. Conforme ressalta Young (IAT 267), não havia mo-
tivo especial para Joel mencionar diretamente o Reino do Norte,
porque estes discursos proféticos foram dirigidos contra Judá
exclusivamente. Pode ser acrescentado que Joel ocasionalmente
emprega o nome Israel de tal maneira que não se pode demonstrar
de maneira conclusiva se a referência é às doze tribos em conjunto,
ou se se refere ao Reino do Norte; portanto, não se pode dizer com
certeza que Joel tivesse deixado por completo de mencioná-lo. Os
críticos citaram os versículos 1:9; 1:13 e 2:14 como sendo indicações
de que havia a prática de se trazer uma oferta contínua perante
o Senhor no templo (o assim-chamado tãmíd). Argumentam que,
pelo fato de o tãmíd não ser mencionado na Torá até que o do-
cumento P foi acrescentado depois do Exílio, define-se Joel também
como sendo um Livro pós-exílico. Mas, naturalmente, este tipo de
raciocínio não significa nada para os que não tinham adotado de
antemão a Teoria Documentária.

Apesar de muitos críticos considerarem Joel como uma unidade
literária completa em si mesma, há outros, tais como Oesterley e
Robinson, que sustentam a teoria de autoria dupla. Grandes por-
ções de Joel que podem ser chamadas apocalípticas foram atribuí-
das por eles a uma composição em 200 a.C., alegando que se asse-
melham às produções apocalípticas intertestamentárias. Assim,
interpretam a frase em 3:6 “filhos dos gregos” como sendo uma
referência à dinastia selêucida de Antíoco Epifânio. Tais interpre-
tações radicais são o fruto da teoria evolucionista, e não uma de-
dução legítima do próprio texto. Segundo este ponto de vista, foi
só num estágio avançado da religião de Israel que o gênero de lite-
ratura chamada “apocalíptica” veio a existir. (O termo “apocalíp-
tico” significa o tipo de revelação profética que prevê a intervenção
milagrosa de Deus na história futura, para libertar Seu povo de
todos os seus inimigos, fazendo-o supremo em toda a terra). A
teoria evolucionista considera este gênero de literatura como sendo
um produto do tipo de desespero que se apoderou do povo judeu de-
pois de ter sofrido fracassos na sua tentativa de galgar grandezas
políticas ou a própria independência, através dos seus próprios es-
forços. Só depois das decepções dos séculos cinco e quatro a.C. é
que os judeus poderiam ter chegado a se desesperar tanto assim, 
invocando Deus como sendo sua última e única esperança de galgar
seus destinos nacionais. Mas, uma vez mais, a força do argumento
depende de pressuposições evolucionistas e anti-supernaturalis-
tas. Seria necessária uma cirurgia extensa e radical para ex-
tirpar do texto dos profetas pré-exílicos todas as passagens desta
natureza.  Além disto, deve ser notado que nenhum vôo da imagi-
nação poderia sugerir que o estilo hebraico da profecia de Joel
pertencesse ao período helenístico ou persa. Sua pureza de dicção
e suas construções gramaticais indicam, pelo contrário, uma data
de composição recuada e pré-exílica.

Resumindo portanto, a evidência interna harmoniza-se muito
mais com o ano 835 a.C. como sendo a data da composição desta
profecia, do que com qualquer outra data. A falta de alusões a
qualquer rei no trono de Judá, a implicação de que a responsabili-
dade do governo dependia dos sacerdotes e dos anciãos, a alusão
aos inimigos de Judá como sendo as nações vizinhas (e não a Assíria,
a Babilónia ou a Pérsia) — todos estes fatores indicam conclusi-
vamente o período da menoridade de Joás. A evidência lingüística
condiz com esta data recuada, e faz totalmente insustentável a
teoria da composição pós-exílica. É razoável declarar que os argu-
mentos em prol duma data avançada dependem de suposições filo-
sóficas humanas e não de deduções tiradas dos dados fornecidos
pelo próprio texto.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.