18 de novembro de 2013

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Obadias

OBADIAS
Este Livro, o mais curto do Antigo Testamento, consistindo
apenas de 21 versículos, tem a distinção de ser a mais difícil de
todas as profecias quanto à data. Até os estudiosos conservadores
têm oferecido conjecturas conflitantes, desde uma data no reinado
de Jeorão filho de Josafá (848 — 841 a.C.), até 585, logo depois da
destruição de Jerusalém pelos Caldeus (data preferida por Lutero).
A maioria dos estudiosos liberais preferem 585 como sendo a data
da composição, conquanto alguns poucos, como Pfeiffer, dividam
a obra em duas fontes distintas, a segunda tendo sido composta
durante o Exílio ou pouco depois da queda da Babilônia em 539 a.C.

Esboço de Obadias


A. A Futura Destruição de Edom, vv. 1-9.
A. A queda da cidade inexpugnável de Sela, 1-4.
B. A cidade será saqueada, devastada e abandonada, 5-9.
II. A Causa do Julgamento de Edom: Sua Malícia Contra Israel,
10-14.
III. O Futuro Dia do Senhor, 15-21.
A. Julgamento iminente contra Edom e os demais pagãos,
15,16.
B. Futura Libertação de Israel, 17-20.
C. O reino messiânico, depois de tudo, 21.

Epoca da Composição

Conforme ficou indicado, certos estudiosos atribuem a autoria
desse pequeno livro a uma data que se segue imediatamente após a
queda de Jerusalém. Outros, tais como J., H. Raven e J. D. Davis,
preferem uma data no reinado de Acaz 743-728 a.C.), interpre-
tando suas alusões históricas como se referindo às suas derrotas 
pelos edomitas e filisteus. (II Cr 28:17,18 registra que estas duas
nações atacaram Judá pelo sul e pelo oeste, pouco depois da coa-
lizão de Israel e Damasco, atacando pelo norte, ter derrotado seria-
mente os exércitos de Acaz). Uma dificuldade séria, para este
ponto de vista, se acha no fato de que não havia nenhuma captura
e saque de Jerusalém nos registros bíblicos destas campanhas, que
se harmonizaria com aquilo que Obadias 11 dá a entender.

Uma boa maioria dos estudiosos evangélicos do século 19 e do
começo do século 20, se inclina a uma data bem mais recuada, a
de Jeorão, 848-841. Este é o ponto de vista de Delitzsch, Keil, Klei-
nert, Orelli e Kirkpatrick. II Reis 8:20 declara acerca de Jeorão:
“Nos dias de Jeorão se revoltaram os edomitas contra o poder de
Judá, e constituíram o seu próprio rei”. Os versículos seguintes
descrevem a fracassada campanha contra eles, na qual lhes impõem
muitos danos sem, porém, conseguir reduzi-los à posição de súditos
de Judá. II Crônicas 21:16,17 acrescenta estes detalhes: “Desper-
tou, pois, o SENHOR, contra Jeorão o ânimo dos filisteus, e dos
arábios que estão da banda dos etíopes. Estes subiram a Judá, deram
contra eles e levaram todos os bens que acharam na casa do rei,
como também a seus filhos e as suas mulheres; de modo que não
lhes deixaram filho algum, senão a Jeoacaz, o mais moço deles”.
Somando estas informações, aparece a probabilidade que os edo-
mitas tenham cooperado com a invasão dos árabes e filisteus, como
aliados subordinados, repartindo na distribuição dos bens saquea-
dos quando aquela capital caiu perante seus esforços combinados.

Assim temos um pano de fundo histórico plausível para Oba-
dias 11: “No dia em que, estando tu presente, estranhos lhe levaram
os bens, e estrangeiros lhe entraram pelas portas, e deitaram sortes
sobre Jerusalém, tu mesmo eras um deles”. Este versículo dá a
entender que os inimigos de Judá forçaram caminho para dentro
de Jerusalém, para então saquear seus tesouros. Enquanto a cidade
estava sendo saqueada, os invasores reunidos estavam lançando
sortes para decidir qual setor da cidade seria entregue a cada con-
tingente de soldados, para ser saqueado. Tal descrição dificilmente
se enquadra dentro da destruição completa e permanente da cidade
feita por Nabucodonosor em 587-586. Além disto, o versículo 13
parece indicar outras ocasiões futuras quando a mesma cidade
seria atacada por inimigos invasores (apesar da tradução que co-
loca o primeiro verbo no passado): “Não devias ter entrado pela
porta do meu povo, no dia da sua calamidade; nem lançado
mão nos seus bens, no dia da sua calamidade”. Tais palavras 
seriam inapropriadas se Jerusalém tivesse sido reduzida a um monte
de ruínas, conforme seria o caso se a data fosse 585. Precisamos,
portanto, procurar o registro dalguma ação militar incluindo uma
tomada de Jerusalém sem envolver sua destruição total; uma luta
na qual os edomitas pudessem, com toda a probabilidade, ter tomado
parte (o que é improvável na época da destruição da cidade em
587). O único episódio registrado que se enquadra nas condições
certas, parece ser esta invasão ocorrida durante o reinado de Jeorão.
A data de 585 torna-se pouco provável pela forte evidência
que Jeremias tinha lido e adaptado para seus propósitos o trecho
de Obadias 1-9 (vd. Jr 49:7-22). A passagem em Jeremias é uma
entre uma coletânea de oráculos que se baseiam, na sua maior
parte, em profecias de anteriores mensageiros de Deus. (Cf. Jr 48
com Is 15 e 16, e Jr-49 com Amós 1:13 segs.; 8:1 e segs.) Não é
provável que Obadias tenha citado Jeremias, sendo que exprime
seus sentimentos de maneira mais breve e rápida do que Jeremias
e, até certo ponto, de maneira mais pesada e abrupta. Ao suavizar
os aspectos mais duros no estilo de Obadias, Jeremias demonstra
que foi ele quem fez a adaptação, não sendo, portanto, a fonte
original e, na sua adaptação, fez o oráculo mais lúcido e claro.

A data mais avançada se baseia mormente em Obadias 20,
“Os cativos [hebraico gãlüt — “cativeiro”] do exército dos filhos
de Israel possuirão os cananeus...” Fora do contexto, seria possí-
vel aplicar o versículo à deportação da população total de Judá
para a Babilônia, no Exílio, apoiando-se assim uma data de 585;
mas gãlüt também pode se referir à captura de indivíduos ou gru-
pos limitados de pessoas. Assim é que Amós 1:9 se refere à culpa
dos negociantes em escravos de Tiro, que entregaram “todos os ca-
tivos” (gãlüt shelêmah) aos edomitas para serem escravos nas mi-
nas de ferro, tratando-se de indivíduos seqüestrados. Neste caso,
“todos os cativos” não se refere à deportação da população inteira,
mas apenas indivíduos de comunidades isoladas, presos durante
súbitos assaltos em busca de escravos. O episódio referido em Amós
forçosamente aconteceu no oitavo século, muito tempo antes do
Cativeiro na Babilônia, em 586 a.C. Em Isaías 20:4, o mesmo termo
se׳ aplica à ação do rei da Assíria, ao levar prisioneiros egípcios e
etíopes depois da sua campanha no vale do Nilo — um incidente
que ocorreria no começo do sétimo século, no reinado de Esar-
Hadom. Desta forma, podemos concluir que o autor que escreveu
Obadias 20 pode ter vivido um ou dois séculos antes da época de
Nabucodonosor. O cumprimento deste versículo é outro assunto. 
e decerto não pode ser datado antes do segundo século a.C., du-
rante a dinastia dos hasmoneanos, e muito provavelmente pode
ser procurado entre os eventos dos últimos dias do reino milenar.

Há no versículo 20 uma referência obscura a uma localidade
distante chamada Sefarade, cuja identificação é muito debatida.
Uma antiga tradição rabínica relaciona-a à região da Espanha;
assim, os judeus da Espanha vieram a ser chamados “a comunhão
sefárdica”. Estudiosos há que a relacionam à capital de Sardes,
na Ásia Menor, citando inscrições em aramaico, recentemente des-
cobertas, que dão àquele distrito o nome S-p-r-d (que são as con-
soantes do nome Sefarade).  Mas, desde que não houve nenhuma
deportação ou migração dos judeus para Sardes, que se conheça
através de documentos antigos, esta não é uma identificação muito
plausível.  A identificação mais provável vincula Sefarade com um
distrito chamado Shaparda no sudoeste da Média, mencionado
numa inscrição do rei Sargom da Assíria. É bem conhecida a depor-
tação que membros das dez tribos sofreram para as “cidades dos
medos” (cf. II Reis 18:11). Esta localidade, portanto, seria muito
apropriada para ser mencionada na predição de Obadias.

Conforme foi mencionado, alguns críticos dividem Obadias em
duas fontes. Lanchester dá à Seção A, versículos 1-7, 10-14, uma
data logo após 586 a.C., e coloca B, versículos 8, 9, 15-21, num pe-
ríodo durante o Exílio, ou até mais tarde. R. H. Pfeiffer emprega
uma maneira diferente de dividir: coloca na Seção A os versículos
1-14, 15b e data sua composição em cerca de 460 a.C. (pouco antes
da época de Esdras). Sua Seção B, consistindo nos versículos 15a
e 16-21, pertence a um período posterior, que não define com mais
exatidão. Eissfeldt divide o capítulo de maneira semelhante, só
que dá uma data mais recuada à Seção A, talvez logo depois de
587 a.C. Parece surpreendente que uma obra tão curta tivesse sido
dividida entre vários autores pelos críticos das fontes, mas sua 
metodologia é essencialmente a mesma que empregam na disse-
cação dos livros maiores do Antigo Testamento. Este esforço
se faz na base de conhecimentos muito imperfeitos de aconteci-
mentos antigos, procurando vincular as mais vagas referências aos
acontecimentos contemporâneos às conhecidas condições históricas
de cada período sucessivo, operando segundo o princípio que não
existe a profecia verdadeira, mas apenas o vaticinium ex eventu
(uma predição depois do acontecimento). Em outras palavras, o
que se chama profecia previsível não seria mais do que um regis-
tro daquilo que já aconteceu.

Quanto à mensagem de Obadias acerca do futuro julgamento
de Deus sobre Edom, deve ser lembrado que os edomitas eram con-
siderados pelos profetas como sendo uma tipificação dos inimigos
malignos de Israel que odiavam e se opunham a tudo que Israel
representava ao testificar do único Deus verdadeiro. Assim, Edom
é considerado o tipo do mundo corrupto e cheio de ódio, pronto
para o julgamento apocalíptico (cf. Is 34). Mas aqui é feita a
predição que, apesar da oposição de Edom, virá um dia futuro
quando Israel terá mais uma vez a posse segura da Terra Prometi-
da, inclusive os territórios vizinhos de monte Seir, Filístia, Gileade,
e até a Fenícia, até a região de Zarefate. Este reino futuro de
Israel pertencerá ao Senhor.

Quanto ao cumprimento desta sentença contra Edom, pode-se
inferir de Malaquias 1:3-5, de maneira bastante razoável, que até
a época de Malaquias (430 a.C.) os edomitas já tinham sido ex-
pulsos do monte Seir pelas forças superiores dos árabes nabateus.

Fontes seculares nos informam que já no reinado de Dario I (521-
485), os nabateus tinham forçado os edomitas fora do seu território
ancestral, até as regiões desérticas da Judéia do sul. Os nabateus
vieram originalmente de Nabaiote na região de Quedar, no norte
da Arábia. Inscrições assírias do sétimo século lhes atribuem o
nome de Nabaitai. No decorrer do tempo, o poder deste reino dos
nabateus se estendia pela região da Transjordânia, subindo até
Damasco. Até o período do Novo Testamento, Damasco tinha caído
nas mãos do rei Aretas, da dinastia nabatéia, pelo menos por um
pouco de tempo (cf. II Co 11:32). Quanto aos edomitas expulsos,
colonizaram a nova região que veio a ser chamada Iduméia, onde
mantinham uma existência independente até serem conquistados
pelo rei judaico João Hircano, 135-105 a.C., sendo forçados a se con-
verter à fé judaica. No século seguinte, a dinastia de Herodes o
Grande, de descendência iduméia, chegou a controlar o reino da
Judéia.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.