8 de outubro de 2013

Thomas L. Constable - Uma teologia de Josué, Juízes e Rute: A culminação da revelação prévia

Deus criou o gênero humano para glorificá-Lo, dando aos homens a opor-
tunidade e o privilégio de desfrutar uma relação íntima com Ele. O Criador pro-
duziu um ambiente perfeito para o ser humano viver (Gn 1). Depois, formou o
homem com amor e cuidado a partir de um material humilde e compartilhou a
própria vida com o homem criado (Gn 2).  Este duvidou da bondade de Deus,
negou a Palavra, desobedeceu à sua vontade e, por conseguinte, sofreu o afasta-
mento do Criador (Gn 3). Deus passou a buscar o homem em graça para dar-
lhe o que ele não podia produzir por si mesmo, tornando possível a renovação
da comunhão (3.21).


À medida que a história se desdobrava, a humanidade em sua maioria
escolheu repelir a iniciativa de Deus e viver independentemente dEle, ao invés
de segui-Lo para experimentar as bênçãos máximas. Mas Deus sempre buscou
os rebeldes, oferecendo um relacionamento com Ele mesmo e abençoando-os.
Quando a recusa do homem foi total, Deus trouxe maldição e morte como
castigo.

No Dilúvio, Deus julgou a raça de rebeldes, mas por graça, Ele preservou
um remanescente de adoradores em Noé e sua família. Em Babel, Deus julgou

novamente a desobediência do gênero humano (cf. Gn 1.28) e espalhou a po-
pulação por toda a Terra (que foi tanto uma maldição quanto uma bênção).
Estes primeiros incidentes na história humana demonstram o desejo de Deus
em abençoar o homem com um relacionamento consigo e, demonstra também
a recusa do gênero humano em andar com Deus e ser abençoado. O homem
escolheu buscar os seus próprios caminhos sem Deus.

O Senhor, então, ofereceu bênçãos à humanidade pela mediação de um
homem, Abraão, e dos seus descendentes. Deus quis fazer de Abraão o canal das
bênçãos divinas para o restante do gênero humano (Gn 12.1-3). No processo,
o próprio Abraão foi santificado. Os meios que Deus estipulou para usar a fim
de mediar as bênçãos foram os descendentes de Abraão e uma terra geográfica
específica.

Com o passar do tempo, em consequência da graça de Deus por Abraão,
a sua família ficou numerosa. Foi protegida da aniquilação e assimilação no
Egito, mas depois seus descendentes, os israelitas, foram escravizados naquela
mesma terra, onde Deus os protegera. Para julgar os opressores como também
para libertar o povo escolhido, Deus tirou Israel do Egito com grande demons-
tração da soberania sobre todos os supostos “deuses” daquela terra. No monte
Sinai, Ele adotou a jovem nação como “primogênito” (cf. Ex 19.5,6). No con-
certo que Ele estabeleceu com os israelitas havia uma provisão por meio da qual
eles podiam maximizar as bênçãos prometidas aos antepassados entrando em
comunhão com Deus. A lei mosaica era a revelação de Deus sobre como eles
tinham de expressar a obediência; o Tabernáculo e seu ritual eram a revelação
divina sobre como eles tinham de expressar a adoração — adoração e obediência
sendo expressões de confiança em Deus, uma em relação a Deus e a outra em
relação ao homem.

Em Gênesis, Moisés pôs a fundamentação para a confiança de Israel em
Deus, demonstrando o seu poder infinito e a sua fidelidade completa. Este livro
da Torá foi produzido sob inspiração divina para encorajar o povo de Deus a
exercer a fé nEle.  Gênesis demonstra que só as pessoas que confiam e obedecem
a Deus experimentam as bênçãos.

A revelação de Deus na lei mosaica ajudou os israelitas a perceberem duas
coisas: o que significava para eles o fato de estarem associados com um Deus
que é santo, e o quanto eles eram pecadores. Esta revelação tinha a finalidade de
levá-los em comunhão íntima com Deus de forma que se tornassem instrumen-
tos para ensinar a todo o gênero humano como é glorioso viver em comunhão
com o Senhor e em submissão à sua autoridade. 

No deserto, Israel conscientizou-se de como era teimoso e rebelde e tam-
bém como Deus trata graciosamente os pecadores. Para a geração mais antiga,
os anos de peregrinação foram anos de julgamento por falta de confiança e
obediência. Mas para a geração mais nova, foram anos de educação, um tempo
de preparação antes de entrar na vida que Deus graciosamente escolheu para os
israelitas desfrutarem como mediadores das bênçãos para o mundo. Os israeli-
tas aprenderam que tudo dependia de sua atitude para com Deus. A confiança
se expressaria em adoração e obediência e seria coroada com muitas formas de
bênçãos. Mas a incredulidade conduziria à maldição e morte dadas por Deus.
Os propósitos de Deus não seriam frustrados, embora os seus planos fossem
atrasados por falha dos seus instrumentos. No Egito, eles viram que os propósi-
tos de Deus não podiam ser detidos pelos inimigos.

No livro de Deuteronômio, Moisés discursa para a nova geração de israe-
litas prestes a entrar na Terra Prometida. Revisou a fidelidade divina apesar da
infidelidade de Israel. Reiterou as estipulações básicas do concerto mosaico com
ênfase nos princípios em que esses mandamentos se baseiam. E conclamou o
povo a se dedicar novamente ao Senhor e ao concerto mosaico, conscientizando-
se das consequências da obediência e da desobediência. Ao longo dos discursos,
Moisés acentuou a motivação. O amor de Deus pelo povo o levara a lidar com
eles da forma como lidou, e o amor do povo por Deus deveria movê-los a segui-
Lo fielmente no futuro. Só o compromisso amoroso do Senhor com Israel e de
Israel com o Senhor tornaria possível a bênção mais plena do gênero humano e
Israel. Este seria abençoado possuindo a Terra Prometida e sendo feito frutífero.
Os seus descendentes e posses multiplicar-se-iam.

O Pentateuco revela todos os princípios necessários para o homem desfru-
tar a relação íntima com Deus para a qual ele foi criado. Ele tem de confiar e
obedecer a Deus que é bastante forte e fiel para fazer acontecer o que prometeu.
Os que confiam e obedecem a Deus são abençoados, e do ponto de vista divino,
têm sucesso. Os que não confiam e obedecem são amaldiçoados e fracassam. A
fé em Deus manifesta-se em adoração e obediência. A motivação do governo
universal de Deus é o seu amor pelo homem, e a motivação da obediência do
homem a Deus tem de ser o seu amor por Deus.

Em Gênesis, vemos Deus como onipotente e fiel. Em Êxodo, a tônica está
na soberania; em Levítico, na santidade; em Números, na graça; e em Deutero-
nômio, no amor.

Em Gênesis, o homem é apresentado como feito à imagem de Deus, mas
rebelde, pecador e incapaz de ir a Deus por conta própria. Em Êxodo, vemos o
homem escravizado, precisando ser redimido, e o objeto da libertação e adoção
de Deus. Em Levítico, a pecaminosidade do homem se contrasta com a santi-
dade do Senhor. Aqui, ele aprende o que significa ser pecador. Em Números, a
natureza do homem redimido como desobediente, rebelde e queixoso se desta-
ca. E em Deuteronômio, vemos o homem como o objeto indigno do amor leal
de Deus. É o servo do Rei do universo, mas também é o filho de Deus. 

Em Josué, Juizes e Rute, os princípios básicos da relação humana com
Deus são trabalhados à medida que a história de Israel vai se desdobrando. Em
Josué, a história é primariamente positiva. Vitória e sucesso acompanham o
povo de Deus, enquanto o segue fielmente. O livro de Josué valida as afirmações
de Moisés exaradas em Deuteronômio 28.1-14, que diz que Deus abençoaria
os filhos de Israel enquanto eles permanecessem fiéis ao concerto mosaico. Em
Juízes, o curso dos acontecimentos é primariamente negativo. Quando o povo
de Deus faz o que é certo aos seus próprios olhos, ao invés de fazer o que é certo
aos olhos de Deus, sofrem derrota e fracasso. Juízes prova o aviso de Moisés
em Deuteronômio 28.15-68, que diz que Deus amaldiçoaria os filhos de Israel
quando eles se bandeassem do concerto. O livro de Rute demonstra que, mesmo
no meio de um ambiente apóstata, quando os indivíduos escolhem confiar em
Deus e dedicar-se a Ele, o Senhor os abençoa e media bênçãos através deles.
Josué, Juízes e Rute validam a revelação dada no Pentateuco. Assim, neste
sentido, eles são a culminação dos livros que os precedem. Também preparam
o terreno para a revelação posterior apresentada em Samuel, Reis e outros livros
históricos do Antigo Testamento.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.