29 de outubro de 2013

Thomas L. Constable - Uma teologia de Josué, Juízes e Rute: Concertos


Os concertos (promessas formais) é outro tema principal em Josué, Juízes
e Rute. São os compromissos que ligam Deus e o homem em uma relação. Nos
livros em consideração, dois concertos estão constantemente em vista: o abraâ-
mico e o mosaico.

As promessas que Deus deu para Abraão em Gênesis 12.1-3 são a base
para o concerto abraâmico. Deus prometeu para Abraão semente, bênção e
terra.  Estas promessas foram formalizadas em um concerto em Gênesis 15.

Este capítulo deixa claro que o que Deus prometeu a Abraão não dependia de

nada que Abraão fosse obrigado a fazer. Era incondicional neste sentido. Nada
no concerto indica limitação de tempo sobre o que foi prometido. Deus com-
prometeu-se a fazer estas coisas, mas Ele não disse quando seria o cumprimento
completo. A relação que Deus estabeleceu com os descendentes de Abraão neste
concerto era de Pai para filho primogênito.

O outro concerto pressente em Josué, Juízes e Rute é o concerto mosaico.
Este foi feito com a nação de Israel no monte Sinai depois da libertação da
escravidão egípcia (Êx 2 - Nm 10). No Êxodo, Ele comprou a nação para si 
mesmo. No Sinai, Ele revelou como esse povo poderia desfrutar uma relação
espiritual íntima com Ele. O concerto mosaico esclareceu como Israel poderia
desfrutar as mais plenas bênçãos prometidas no concerto abraâmico. Os israe-
litas poderiam tê-las obedecendo às prescrições de Deus. A analogia que Deus
usa para descrever a sua relação com Israel no concerto mosaico era de um Rei
(suserano) sobre os seus súditos (vassalos). 

É também importante distinguirmos a relação destes dois concertos um
com o outro. Embora os dois concertos fossem feitos com os israelitas, tinham
diferenças significativas. A mais óbvia é o fato de que o cumprimento do que foi
prometido no concerto abraâmico não estava condicionado pelas ações de Israel,
ao passo que o cumprimento das bênçãos prometidas no concerto mosaico de-
pendia da obediência de Israel. A Bíblia revela mais tarde que o concerto mosaico
foi terminado na cruz de Cristo (Rm 7.6; 10.4; 2 Co 3.7-11; G15.1; Hb 7.11,12).
Mas não há indicação de que o concerto abraâmico já esteja terminado. Por con-
seguinte, o concerto mosaico não é uma redeclaração ou ampliação do concerto
abraâmico. O arranjo mosaico, por assim dizer, foi colocado ao lado do concerto
abraâmico para dar orientação aos israelitas a fim de poderem entrar no que foi
prometido a Abraão tão logo e tão completamente quanto possível.

As analogias do relacionamento de Deus com Israel como pai para filho
e como rei para súdito são a base de Josué, Juízes e Rute, como também do
restante do Antigo Testamento. Como previamente mencionado, da criação
em diante, o propósito de Deus tem sido abençoar a humanidade com um re-
lacionamento íntimo com Ele.  Esta é a maior bênção que os seres humanos
podem experimentar.

Em Josué 24, Josué se referiu ao fato de Deus eleger Abraão e os seus descen-
dentes para abençoar; no mesmo capítulo, ele conclama Israel a rededicar-se ao concerto mosaico. As analogias de relacionamento não são temas principais em Josué,
Juízes e Rute no sentido em que habitualmente são citados. Mas são fundamentais
para entendermos a relação de Deus com Israel nestes livros. Os temas que recebem
destaque são as grandes realidades prometidas a Abraão: semente, bênção e terra.
Em Josué, os israelitas são a semente (os descendentes) prometida de
Abraão. Os seus integrantes aumentaram em número, como Deus prometera a
Abraão, embora não tanto quanto poderiam ter sido, em virtude da rebelião em
Cades-Barnéia. Durante a conquista, a semente de Abraão adquiriu um lugar
para estabelecer-se e multiplicar-se pelos anos seguintes. A terra foi dividida
entre as tribos com base no número de israelitas de cada tribo a fim de ajustar-se
ao crescimento futuro. Em Juízes, a semente continuou aumentando em nú-
mero. Por 265 anos, Israel cresceu e se estabeleceu na sua pátria. Em Rute, a
promessa de semente é primária. Aqui é identificado um descendente específico 
de Abraão, que viria por Judá e reinaria sobre Israel (Gn 49.10). Esta semente
seria o instrumento de Deus para solidificar a posse de Israel de Canaã e trazer
bênçãos de muitos tipos para Israel e para o mundo.

A promessa divina de abençoar Abraão era dupla. Deus abençoaria Israel, e
por sua causa, todas as nações da Terra seriam abençoadas (12.3). Quer dizer, as
nações seriam abençoadas em consequência do contato delas com Israel. Em Josué,
temos evidência de Israel ser abençoado por Deus. Recebeu a terra e as posses dos
cananeus. Alcançou status na comunidade das nações quando derrotou os povos da
terra e estabeleceu uma pátria e tudo que acompanha uma identidade nacional.
Em Josué, há também evidência de que Israel foi uma bênção para as
outras nações. Todas as nações que cooperaram com Israel prosperaram (por
exemplo, a cidade-estado gibeonita), como também prosperaram os indivíduos
(por exemplo, Raabe). Em Juízes, Israel foi abençoado pelo Espírito de Deus
para dar paz e prosperidade aos povos. Semelhantemente, Israel se tornou uma
bênção aos outros, como vemos no desejo de muitos estrangeiros casarem-se
com israelitas para tornarem-se parte do povo de Deus. Principal entre eles foi
Rute. Durante o período dos juízes, Israel não obedecia cuidadosamente ao
concerto mosaico. Por isso, a extensão da sua bênção pessoal e das suas bênçãos
missionárias era limitada. Em Rute, também, Deus abençoou Israel com ante-
passados piedosos de quem viria a sua maior bênção até aqui, isto é, Davi.

A maior evidência das bênçãos de Deus nestes livros, como em toda a
Bíblia, é a provisão divina de salvação. Em Josué, Deus salvou o seu povo dos
inimigos. Em Juízes, Ele fez o mesmo através de vários libertadores. Em Rute,
Ele deu a salvação para Rute, livrou Noemi da esterilidade sem herdeiros e li-
vrou Israel fornecendo um rei.

A promessa de terra recebe mais atenção em Josué, que contém o registro
de Deus dar a terra de Canaã a Israel, o seu filho e servo. Embora a ocupação
da terra não estivesse completa, começou nos dias de Josué. E por isto que
mais tarde, na sua vida, Josué pôde dizer que Deus cumprira a promessa de
terra para Abraão (Js 21.43) .2° Em Juízes, o pleno prazer de Israel estar na Ter-
ra Prometida e a sua total ocupação foram restritos pela obediência limitada
ao concerto mosaico. O concerto abraâmico prometeu incondicionalmente
posse da terra, mas o concerto mosaico advertiu que a ocupação da terra de-
pendia de obediência. Em Rute, a terra não figura tão fortemente quanto em
Josué e Juízes, salvo que é o lugar de bênçãos para Rute. A sua entrada em
Israel significou a entrada na Terra Prometida e em suas bênçãos.

Um aspecto do tema da terra merece atenção especial: o destaque no des-
canso refletido pela entrada de Israel na terra. Durante as peregrinações no deser-
to, Moisés prometera descanso na Terra Prometida (Dt 3.20; 12.8-11; 25.19; Js
1.13; cf. SI 95.11). A posse da terra deu aos israelitas descanso das vagueações pe-
regrinas e do molestamento dos inimigos (Js 1.14,15; 11.23; 18.1; 21.44; 23.1).
O acordo com os cananeus durante o período dos juízes interrompeu o descanso
dos israelitas na terra. Foram oprimidos e afligidos. Mas quando o povo de Deus
dedicava-se novamente a Ele, que trazia descanso à terra por períodos de tempo
bastante longos (Jz 3.11,30; 5.31; 8.28). A terra era um lugar onde os israeli-
tas podiam descansar, mas o prazer do descanso dependia da obediência a Deus.
Através de Josué, Canaã fez parte da herança que Deus passou para Israel, o filho
primogênito. Noemi estava interessada que Rute também entrasse no descanso
(Rt 1.9; 3.1). Foi o que ela fez quando foi redimida por Boaz.

O escritor aos Hebreus apanhou este tema do descanso e o aplicou ao
descanso destinado para os cristãos desfrutarem quando concluírem a viagem
de peregrinação e cessarem as batalhas espirituais e entrarem naquele lugar de
segurança que Deus prometeu como herança (Hb 4).

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.