11 de outubro de 2013

Thomas L. Constable - Uma teologia de Josué, Juízes e Rute: A preparação para a revelação subsequente

Deus prometera levar o seu povo à Terra Prometida. Canaã seria a base de
operações para eles alcançarem o propósito determinado por Deus na história.
Josué registra o cumprimento dessa promessa divina. Israel entrou na terra, der-
rotou o poder militar das tribos cananéias nativas e começou a ocupar a terra.
Foi eficaz na medida em que confiou e obedeceu a Deus. Mas considerando que
a confiança e obediência eram apenas parciais, Israel não expulsou totalmente
os cananeus ou possuiu completamente a terra. Bolsões de resistência cananéia
permaneceram (em Jerusalém, Siquém, vale de Jezreel, planície litorânea e em
outros lugares). A presença continuada dos inimigos de Israel na terra mostrou-

se fonte de frustração constante ao longo do período dos juizes, até que Davi,
por fim, os subjugou (conforme está registrado em 2 Samuel). As promessas e
incentivos que Deus ofereceu a Josué enquanto esperava entrar na Terra Prome-
tida (Js 1.2-9) não foram inteiramente cumpridos na vida de Josué ou na vida
dos líderes que viveram mais que ele (24.1-28).

O livro de Josué preparou o terreno para a revelação posterior, registrando
a entrada dos israelitas na terra onde eles seriam luz para as outras nações do
mundo (Is 42.6) e prova de como é glorioso viver sob a mão diretiva do Senhor.
A entrada em Canaã era essencial aos planos e propósitos adicionais de Deus
referentes ao seu reino de sacerdotes (Ex 19.6), que receberam o privilégio de
levar outros povos ao verdadeiro Deus. Mas o fracasso de Israel em expulsar
totalmente os cananeus tornou-se a tarefa mais difícil de cumprir.

A terra ao oriente do rio Jordão foi dividida entre as tribos. Estas divisões
territoriais se tornaram terra natal para a maioria dos diversos grupos tribais 
dentro da nação até o cativeiro de Israel, o Reino do Norte, em 722 a.C., e o
cativeiro de Judá, o Reino do Sul, em 586 a.C.

O livro de Josué registra um período de cerca de 40 anos da história de
Israel.  O livro de Juizes, por outro lado, cobre aproximadamente 265 anos. 
Considerando que Josué faz um registro de vitórias e sucessos, Juizes documen-
ta as derrotas e fracassos espirituais, nacionais e sociais de Israel. Podemos visu-
alizar o período dos juizes como uma espiral descendente. Nos ciclos da história
registrada no livro, Israel foi se afastando cada vez mais de Deus.

Houve seis períodos de opressão dos inimigos de Israel durante os 265
anos abarcados pelo livro de Juizes. O primeiro período foi uma opressão de
oito anos dos mesopotâmios que foi descontinuada por Otniel (Jz 3.7-11).
A segunda longa opressão se deu pelos moabitas e durou 18 anos. Eúde foi
o juiz que terminou esta dominação (Jz 3.12-21). Depois, houve 20 anos de
opressão feita pelos cananeus principalmente no norte de Israel (Jz 4-5). Desta
vez, foram Baraque e Débora os libertadores enviados por Deus. Em seguida,
passaram-se sete anos de opressão feita pelos midianitas que Gideão terminou
(Jz 6.1-10.15). A quinta opressão veio dos amonitas, no leste, e dos filisteus, no
oeste (10.6-12.15).

O libertador mais importante que livrou Israel dos inimigos amonitas foi
Jefité. Depois que Jefté derrotou os amonitas, os filisteus continuaram oprimin-
do Israel no oeste (a sexta opressão), e Sansão passou a libertar Israel destes ini-
migos (Jz 13-16). O conflito com os filisteus continuou ao longo do ministério
de Samuel, atravessou o reinado de Saul, que morreu em luta com eles, e entrou
no reinado de Davi que, por fim, os subjugou. O registro da opressão de Israel
pelos seus inimigos começa no livro de Juizes e continua até 2 Samuel 10.  O
livro de Juizes prepara o terreno para as revelações futuras documentando o
curso descendente dos assuntos nacionais de Israel, que acabaram fazendo com
que o povo ficasse frustrado com governantes tipo juizes e exigisse um rei como
as outras nações tinham (1 Sm 8.5). 

Juizes 2.6 a 3.6 dão razões claras para o declínio de Israel durante o pe-
ríodo dos juizes. Começando da posição de desfrute das bênçãos de Deus, os
israelitas se afastaram de dEle e se voltaram aos deuses e práticas cananéias.
Para trazê-los de volta, Deus disciplinou o povo permitindo que caíssem sob
dominação opressora dos inimigos. Quando chamavam a Ele por salvação, Ele
graciosamente os livrava levantando um juiz. Como resultado da libertação de
Deus, os israelitas se rededicavam ao Senhor. Isto os levava a desfrutar as bên-
çãos de Deus mais uma vez. Mas depois de certo tempo de bênçãos o povo
se apostatava de novo e o ciclo recomeçava. Os juizes registram seis ciclos de
experiências ocorridos durante os 265 anos de história relatadas no livro. A
apostasia espiritual conduzia à desorganização nacional e ao caos social, mas o
arrependimento resultava em libertação e bênçãos.

Um dos propósitos dos registros constantes em Juizes é fornecer justifi-
cação apologética para a monarquia de Israel.  Durante o tempo dos juizes, o
povo não reconheceu ou não estava disposto a lidar com as verdadeiras causas
para o declínio, isto é, a falta de confiança e obediência a Deus. Puseram a
culpa na forma de governo e exigiram um rei e uma monarquia. O desejo não
era contra a vontade de Deus. Há muito que Deus prometera levantar um rei
em Israel (Gn 17.6; 49.10; etc.). E na lei mosaica fizera provisão para um rei
(Dt 17). Mas o argumento do povo em querer um rei estava errado e não era
o tempo. Deus desejava dar um rei, qual seja, Davi, que regeria na qualidade
de “filho”. Mas os israelitas insistiram prematuramente em um rei e ficaram
com alguém que se mostrou ser uma grande decepção. Juizes prepara o terre-
no para a monarquia.

Outro propósito para o qual Juizes foi escrito era mostrar a graça sobera-
na de Deus em preservar a nação de Israel apesar dela mesma.  Por que Israel
continuou como nação apesar das repetidas quedas e apostasias? Porque Deus o
escolhera como instrumento para levar bênçãos ao restante da humanidade (Gn
12.1- 3). Embora Israel falhasse (cf. Ex 19.5,6), Deus permaneceu fiel. A quebra
do concerto mosaico recíproco não destruiu o concerto abraâmico unilateral. O
livro de Juizes esclarece os procedimentos continuados de Deus com Israel que
estão desdobrados nos livros históricos posteriores.

A contribuição de Rute como fundamento para a revelação posterior tam-
bém é significativa. Rute fornece o plano de fundo para Davi, o rei ungido de
Deus. E um livro de raízes cuja genealogia liga Davi com Judá, a quem foi feita
a promessa de futuro regente de Deus (Gn 49.10). 

De acordo com o Talmude, a tradição judaica considerava o livro de Rute
como parte original do livro de Juizes.  Junto com os dois incidentes no apên-
dice do livro de Juizes (Jz 17-18 e Jz 19-21), Rute forma uma parte da “trilogia
de Belém”, assim chamada porque em cada história Belém figura significativa-
mente.

Na primeira história, o neto de Moisés, Jônatas de Belém, estabeleceu for-
malmente a idolatria em Dã.  Este fato colocou Belém sob um aspecto ruim.
Na segunda história, outro levita, a caminho de casa em Efraim, depois de per-
suadir a sua concubina a voltar com ele da casa da família dela em Belém, foi
atacado pelos moradores de Gibeá, cidade natal de Saul, que brutalizaram e
assassinaram a concubina. Ele cortou o corpo dela em doze pedaços e os enviou
por todo o Israel como convocação para as outras tribos levar a julgamento os
responsáveis pela atrocidade. Isto resultou em guerra civil e na quase extinção
da tribo de Benjamim. Novamente a conexão de Belém com esta tragédia pôs a
cidade sob um aspecto ruim. A terceira história é a história de Rute, que fala de
outro homem que saiu de Belém (Rt 1.1; cf. Jz 17.7,8; 19.10), isto é, Elimele-
que. Mas em contraste com os outros dois homens, este trouxe honra a Belém.
Os antepassados de Saul tinham humilhado Belém pelo modo em que trataram
a concubina de Belém. Em virtude desta fraqueza aparente, Belém não tinha
boa reputação. Mas Deus levantou de lá um rei que de longe era superior a Saul.
Esta escolha estava em harmonia com o método típico de Deus escolher usar e
abençoar pessoas menos promissoras, vistas naturalmente, como instrumentos
dEle. 

O livro de Rute testemunha brilhantemente a escolha que Deus fez de
Davi.  Embora Davi fosse de Belém, os seus antepassados imediatos eram
pessoas de caráter elevado e compromisso espiritual, como revela Rute. Con-
siderando que Juizes comprova a monarquia de Israel, mostrando a insuficiên-
cia da confederação tribal, que degradou em anarquia (Jz 21.25), Rute com-
prova a monarquia, mostrando como Davi se ajustava ao padrão dos servos
ungidos de Deus. Saul provou ser da mesma classe que os gibeonitas, os quais
desconsideraram a vontade de Deus para satisfazer as próprias ambições. Davi
provou ser um verdadeiro belemita encarado com desprezo pelos outros em 
Israel por causa da fraqueza aparente, mas na verdade de caráter forte e de
fibra espiritual.

Outro propósito do livro de Rute era ligar a dinastia davídica com as pro-
messas do concerto incondicional abraâmico em lugar do concerto mosaico
condicional.  Para isto, o escritor seguiu a genealogia de Davi até Perez, filho de
Judá (Rt 4.18). Era de Judá que surgiria um rei para Israel (Gn 49.10). Ele seria
o principal canal das bênçãos de Deus para Israel — e de Israel para o mundo.
A provisão deste rei não estava condicionada à obediência de Israel ao concerto
mosaico, mas estava garantida com base na fidelidade de Deus à sua promessa a
Judá. Quando Davi reinou, ele atuou tanto como sacerdote quanto como rei (1
Cr 15-17). Pôde atuar assim, porque o direito de reinar estava fundamentado
no concerto abraâmico e não no concerto mosaico. Estivesse fundamentado no
concerto mosaico, Davi não poderia ter servido como sacerdote, visto que ele
não era levita. Mas considerando que o seu direito de reger ia ao concerto abraâ-
mico, obviamente de data anterior ao concerto mosaico, ele podia servir como
sacerdote. Davi atuou de acordo com a ordem de Melquisedeque e não segundo
a ordem de Arão (cf. SI 2 e 110). O livro de Rute liga Davi com as promessas de
um rei que foram dadas aos patriarcas e prepara o registro do reinado davídico
que consta em 1 e 2 Samuel.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.