24 de outubro de 2013

Roland de Vaux - A morte e os ritos fúnebres: Ritos alimentares

Davi jejua um dia por Saul e Jônatas, II Sm 1.12, e também por Abner, II Sm 3.35, e estranhou-se que não jejuasse pela morte de seu filho, II Sm 12.20-21. Depois de sepultar os restos de Saul e de seus filhos, os habitantes de Jabes jejuam durante sete dias, I Sm 31.13, o que representa o tempo normal de luto estrito, Gn 50.10; Jt 16.24; Eclo 22.12 (mas cf. 38.17). Aponta-se como exce¬ção que Judite prolongasse seu jejum durante toda a sua viuvez, exceto nos dias de festa, Jt 8.5-6.

Os vizinhos e os amigos levavam aos parentes do falecido o pão do luto e o cálice da consolação, Jr 16.7; Ez 24: 17,22; cf. Os 9.4. A impureza que afetava a casa do falecido impedia que se preparassem alimentos nela.


Por outro lado, alguns textos mencionam, mesmo que ridicularizando-as, as oferendas alimentícias feitas ao falecido, Bar 6.26, ou depositadas sobre seu túmulo, Eclo 30.18 (texto grego; no hebraico: diante de um ídolo), e as escavações indicam que os israelitas seguiram, pelo menos durante algum tem¬po, a prática cananéia de depositar alimentos nos túmulos. Em Tb 4.17, o ancião Tobit aconselha a seu filho que distribua o pão e o vinho sobre o túmulo dos justos; mas esse preceito é do livro pagão da Sabedoria de Ahicar, e no contexto imediato do livro de Tobias poderia interpretar-se como esmolas feitas em um enterro. Seja como for, costumes semelhantes, que continuaram em vigor durante muito tempo ou que continuam ainda em ambientes cristãos, signi¬ficam apenas a crença na sobrevivência e um sentimento de afeto para com os mortos. Não são atos de culto aos mortos, que nunca existiu em Israel. A oração e o sacrifício expiatório pelos mortos  coisa também incompatível com o culto dos mortos - aparecem bem no fim do Antigo Testamento, em II Mb 12.38-46.

O texto discutido de Dt 26.14 pode ser explicado com relação aos mes¬mos costumes: nele o israelita declara que, do dízimo que é santo e é reserva¬do aos pobres, v. 13, ele não comeu nada como alimento de luto nem ofereceu nada a um morto, pois isto teria tornado todo o dízimo impuro.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.