15 de outubro de 2013

Roland de Vaux - A morte e os ritos fúnebres: O sepultamento

Não sabemos quanto tempo separava a morte do enterro. O luto de setenta dias anterior à transferência do corpo de Jacó é excepcional: os egípcios Deram ao patriarca funerais reais. A prescrição de Dt 21.22,23 concerne unicamente aos corpos dos supliciados, que deviam ser retirados antes do anoite¬cer. É provável que o intervalo fosse muito curto, como ainda atualmente no Oriente, e que o morto fosse geralmente sepultado no mesmo dia.

A incineração dos corpos está documentada na Palestina apenas em uma época muito anterior à chegada dos israelitas ou entre agrupamentos de estrangeiros; os israelitas nunca a praticaram . Pelo contrário, queimar os cor¬pos era um ultraje que se infligia aos grandes culpados, Gn 38.24; Lv 20.14; 21.9, ou aos inimigos que se queria aniquilar definitivamente, Am 2.1. Resta um caso difícil: os habitantes de Jabes-Gileade queimam os corpos de Saul e de seus
filhos antes de enterrar suas ossadas, I Sm 31.12; isso parece ter sido uma infração do uso comum e o ato foi omitido no paralelo de I Cr 10.12. E parece ser diferente de Jr 34.5; II Cr 16.14; 21.19, que falam de um fogo que sc ascendia na ocasião da morte dos reis que faleciam em paz com Deus; não se trata certamente de incineração: queimavam-se incenso e perfume perto do corpo.

O tipo normal da tumba israelita é a câmara funerária escavada na rocha mole ou utilizando uma gruta natural. A entrada é por uma passagem estreita aberta em um dos lados; ao longo dos outros três lados há banquetas sobre as quais se depositam os cadáveres. Às vezes há uma cavidade onde eram colo¬cados os ossos descamados para dar lugar para novas inumações. Trata-se, efetivamente, de tumbas coletivas, utilizadas por uma família ou por um clã durante um tempo bastante longo. A posição do corpo na tumba não parece ter sido determinada por regras fixas. Ao lado do morto depositavam-se alguns objetos pessoais e cerâmica. Essas oferendas funerárias, destinadas às neces¬sidades do morto, são menos numerosas e menos ricas que nas tumbas do período cananeu, e, ao final do período israelita, se reduzem a alguns vasos ou algumas lamparinas. As idéias sobre a condição dos mortos haviam evoluído e as oferendas só tinham valor simbólico.

Na época helenística aparece um novo tipo, em que as banquetas são substituídas por nichos estreitos cavados perpendicularmente à parede e nos quais os cadáveres eram como que encaixados. Durante um período que cobre pelo menos o primeiro século antes e o primeiro de nossa era, as ossadas eram colocadas em pequenas caixas de calcário mole; esses ossuários foram encon¬trados em grande quantidade nos arredores de Jerusalém. Na Palestina, as outras formas de sepultura, cubas cavadas na rocha, sarcófagos de pedra, cai-xões de madeira ou de chumbo, são posteriores à época do Antigo Testamento.
Nem todas as famílias podiam permitir-se o luxo de possuir e cuidar de tais túmulos. Os pobres eram simplesmente enterrados no chão, e em Jerusalém, no vale do Cedrom, havia uma “sepultura dos filhos do povo”, uma vala comum onde eram jogados os apátridas e os condenados, Jr 26.23; cf. II Rs 23.6. Pelo contrário, os ricos preparavam, com tempo, uma sepultura digna de sua classe, Is 22.16; cf. Jó 3.14; assim, em Siloé, podem-se perceber os vestígios de túmulos bem cuidados que pertenceram a grandes personalidades de Jeru¬salém. A necrópole dos reis de Judá, onde foram enterrados Davi e seus suces¬sores até Acaz, encontrava-se no interior das muralhas, na antiga cidade de Davi, I Rs 2.10; 11.43; 14.31, até II Rs 16.20, mas cf. II Cr 28.27. As escava¬ções revelaram duas galerias na rocha, que são talvez os restos desses túmulos, diversas vezes violados e depois mutilados por trabalhos de pedreiras.

A localização do túmulo podia ser marcada por uma esteia; assim, Jacó erige uma esteia sobre o túmulo de Raquel, Gn 35.20. Absalão, que não tinha um filho que pudesse “celebrar seu nome”, preparou para si uma esteia perto de Jerusalém, II Sm 18.18.

O caráter funerário de certas esteias nos leva a examinar se os “lugares altos”, as bamôt, onde esteias eram erigidas, não eram, entre outras coisas, lugar de culto aos mortos. A hipótese pode se apoiar em alguns textos bíblicos que foram mal transmitidos ou mal compreendidos. Is 53.9 deve-se ler, segun¬do o grande manuscrito de Isaías de Qumran: “Designaram-lhe a sepultura com os perversos e seu bamah (aqui: sua localização fúnebre) com os ricos (ou os malfeitores).” Jó 27.15, com uma simples mudança de vocalização, pode significar: “Seus sobreviventes serão sepultados em bâmôt e suas viúvas não os chorarão”, e Ez 43.7 não precisa de correção: “Não contaminarão mais o meu nome santo com suas prostituições e com as esteias funerárias (peger), de seus reis nos seus bâmôt.” Mas a construção de um monumento sobre o túmulo ou em conexão com ele é uma prática tardia. A primeira menção literária é a do sepulcro dos Macabeus em Modin, I Mb 13.27,30. Em Jerusalém, os túmulos monumentais do vale do Cedrom, designados arbitrariamente como túmulos de Absalão, de Josafá, de Tiago e de Zacarias, são de fins da época grega ou de princípios da romana, segundo os diferentes pareceres dos especialistas.

Exceto pelos reis de Judá, não existem provas de que se enterrassem os mortos no interior das cidades. Os túmulos eram espalhados pelas encostas vizinhas ou se reuniam em lugares mais favoráveis pela natureza do solo. 

O túmulo era propriedade da família, tanto tivesse sido escavado na proprie¬dade familiar, Js 24.30,32; I Sm 25.1 ; I Rs 2.34, como se tivesse sido compra¬do para a sepultura um terreno, Gn 23. Assim se constituíam túmulos de famí¬lia: a gruta de Macpela, comprada por Abraão para enterrar Sara, Gn 23, serve depois também para a sepultura de Abraão, Gn 25.9-10, de Isaque e de Rebeca, de Jacó e de Lia, Gn 49.29-32; 50.13. Era normal que uma pessoa fosse sepultada no “túmulo de seu pai”, Jz 8.32; 16.31; II Sm 2.32; 17.23. É um desejo que se alimenta, II Sm 19.38, e Davi tributa essa última homenagem às ossadas de Saul e de seus descendentes, II Sm 21.12-14. Ficar alguém excluído do túmulo da família era castigo de Deus, I Rs 13.21-22. As expressões “deitar- se com seus pais” e “reunir-se com os seus” empregadas ao falar da morte de alguns grandes antepassados e dos reis de Judá e de Israel, se explicam talvez primitivamente pela prática do túmulo de família, mas logo receberam um sentido mais amplo; são uma forma solene de representar a morte e salientam a permanência dos vínculos de sangue para além do túmulo.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.