10 de outubro de 2013

Roland de Vaux - A morte e os ritos fúnebres: Os cuidados com o cadáver

A distinção entre alma e corpo é estranha à mentalidade hebraica e, por conseqüência, a morte não é considerada como separação desses dois elemen¬tos. Uma pessoa viva é uma “alma (nepesh) vivente”, um morto é uma “alma (,nepesh) morta” Nm 6.6; Lv 21.11; cf. Nm 19.13. A morte não é um aniquila¬mento: enquanto subsiste o corpo, ou pelo menos enquanto dura a ossada, subsiste a alma, em um estado de debilidade extrema, como uma sombra na morada subterrânea do sheol, Jó 26.5,6; Is 14.9-10; Ez 32.17-32.

Essas idéias justificam os cuidados com o cadáver e a importância de um enterro conveniente, pois a alma continua sentindo o que se faz ao corpo. Por isso, ficar abandonado sem sepultura, como presa das aves e dos animais sel¬vagens, era a pior das maldições, I Rs 14.11; Jr 16.4;22; 19; Ez 29.5. Contudo, o cadáver que é entregue à corrupção e à tumba que o contém são considerados impuros e ficam impuros aqueles que os tocam, Lv 21.1-4; 22.4; Nm 19.11-16; Ag 2.13; cf. Ez 43.7.


OS CUIDADOS COM O CADÁVER

Em Gn 46.4, há uma alusão ao costume de fechar os olhos do falecido. Esse costume, praticamente universal, se explica talvez simplesmente pela comparação da morte a um sono. Os parentes próximos beijam o cadáver, Gn 50.1. É provável que depois ele fosse preparado para o enterro, mas não temos informações anteriores ao Novo Testamento, Ml 27.59 e paralelos; Jo 11.44; 19.39-40. Os alfinetes e adornos descobertos nas escavações de tum¬bas indicam que se enterravam os defuntos vestidos, e, assim, Samuel regres¬sa do sheol envolto em seu manto, I Sm 28.14. Os guerreiros eram enterrados com suas armas, a espada sob a cabeça e o escudo sob o corpo, segundo Ez 32.27.

O embalsamamento nunca foi praticado em Israel; os dois casos mencio¬nados, o de Jacó e o de José, Gn 50.2,3;25, são expressamente relacionados aos costumes do Egito. Não se colocava o cadáver em um caixão, cf. II Rs 13.21, exceto no caso de José, em que se seguiu a forma egípcia, Gn 50.26; ele era então levado em uma padiola, II Sm 3.31; cf. Lc 7.14.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.