3 de outubro de 2013

Norman Geisler - O uso veterotestamentário das palavras Sinal, Maravilha e Poder

Cada uma das palavras utilizadas para descrever um “milagre” carrega consigo uma conotação peculiar. Quando o significado de cada uma delas é combinado, vislumbramos um quadro completo dos milagres bíblicos.

O Uso Veterotestamentário da Palavra Sinal

Embora a palavra hebraica para “sinal” (otti) seja, às vezes, utilizada para se referir a coisas naturais, tais como as estrelas (Gn 1.14), ou o dia de sábado (Ex 31.13), ela normalmente leva consigo um significado sobrenatural, ou seja, algo que foi designado por Deus que tem um significado especial atribuído.


O primeiro uso da palavra sinal pode ser encontrado na previsão divina entregue a Moisés a respeito da libertação de Israel do jugo egípcio, para que este servisse a Deus, a qual ocorreu no monte Horebe. Deus prometeu: “Certamente eu serei contigo; e isto te será por sinal de que eu te enviei” (Ex 3.12). Quando Moisés perguntou a Deus: “Mas eis que me não crerão, nem ouvirão a minha voz, porque dirão: O SENHOR não te apareceu” (Ex 4.1), o Senhor concedeu a Moisés dois “sinais”: a sua vara se transformou em uma serpente (Ex 4.3), e a sua mão contraiu lepra, de forma instantânea (Ex 4.6,7). 

Estes sinais foram dados “para que creiam que te apareceu o SENHOR, o Deus de seus pais” (Ex 4.5).

Deus disse: “se eles te não crerem, nem ouvirem a voz do primeiro sinal, crerão a voz do derradeiro [segundo] sinal” (Ex 4.8). Moisés “fez os sinais perante os olhos do povo. E o povo creu; e ouviram que o SENHOR visitava aos filhos de Israel e que via a sua aflição; e inclinaram-se e adoraram” (Ex 4.30,31). De fato, Deus assegurou a Moisés: “Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó, e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas [...] Então, os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando estender a mão sobre o Egito e tirar os filhos de Israel do meio deles” (Ex 7.3,5; cf. 11.9).

Repetidas vezes, lemos que o propósito destes sinais e maravilhas é duplo: “Nisto saberás que eu sou o SENHOR” (Ex 7.17; cf. 9.29,30; 10.1,2) e que vós sois o “meu povo” Ex3.10; cf. 5.1; 6.7; 11.7). Quanto mais o Senhor multiplicava os sinais, mais endurecido o coração de Faraó se tornava (Ex 7.3; 9.35; cf. 11.9). Mas mesmo diante desta incredulidade teimosa Deus recebia “glória” (Nm 14.22).

Ao longo do restante do Antigo Testamento, encontramos várias referências a "sinais” miraculosos que Deus realizou a fim de libertar o seu povo do Egito. Ele reclamou com Moisés no deserto, nas seguintes palavras: “Até quando me provocará este povo? E até quando me não crerão por todos os sinais que fiz no meio deles?” \m 14.11; cf. v. 22). Moisés desafiou Israel, perguntando se algum deus, alguma vez, já havia tomado para si “um povo do meio de outro povo, com provas, com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão forte, e com braço estendido, e com grandes espantos, conforme tudo quanto o SENHOR, vosso Deus, vos fez no Egito, aos vossos olhos” (Dt 4.34). Mais tarde, Moisés fez lembrar ao povo: “O SENHOR fez sinais grandes e penosas maravilhas no Egito, a Faraó e a toda a sua casa, aos nossos olhos” (Dt 6.22). “E o SENHOR nos tirou do Egito com mão forte, e com Draço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres” (Dt 26.8; cf. Dt 29.2,3; Js 24.17; Nm 9.10; SI 105.27; Jr 32.20,21).

No relato bíblico, muitas vezes os “sinais” são dados aos profetas como forma de confirmação do seu chamado divino. Já vimos as credenciais miraculosas de Moisés (Ex 3 e 4). Gideão perguntou a Deus: “Dá-me um sinal de que és o que comigo falas” (Jz 6.17). Deus respondeu com um fogo miraculoso que consumiu a oferta de Gideão (v. 21). Deus também confirmou a sua presença para Eli ditando previsões miraculosas a respeito da morte dos seus filhos (1 Sm 2.34). De maneira similar, “sinais” preditivos foram feitos para confirmar a indicação divina do Rei Saul (1 Sm 10.7,9). Isaías fez previsões como "sinais” da sua mensagem divina (Is 7.14; 38.7,8).

Embora a palavra sinal não seja utilizada nestes casos, as confirmações miraculosas da escolha de Moisés para a liderança do povo diante do desafio de Corá (Nm 16) e da sua presença com Elias e contra os falsos profetas de Baal (1 Rs 18) ilustram o mesmo assunto. Em suma, os milagres foram utilizados para fornecer credenciais aos profetas verdadeiros. Da mesma forma, a ausência de poderes preditivos (a falsa profecia) era indício de que o profeta não era de Deus (Dt 18.22).

Outros eventos no Antigo Testamento são também chamados de “sinais” ou ' milagres”. Nisto, estão incluídas as pragas do Egito (Ex 7.3), as provisões no deserto, citadas em Jo 6.30,31), o fogo que surgiu de uma rocha (Jz 6.17-21), a vitória sobre s mimigos (1 Sm 14.10), a confirmação de curas (Is 38.7,22), e os juízos do Senhor r 44.29). 

O Uso Veterotestamentário da Palavra Maravilha

Normalmente, as palavras sinal e maravilha são utilizadas para descrever o mesmo evento (ou eventos) no mesmo versículo (Ex 7.3; cf. Dt 4.34; 7.19; 13.1,2; 26.8; 28.46; 29.3; 34.11; Nm 9.10; SI 135.9; Jr 32.20,21). Em outros lugares, a Bíblia descreve como “maravilhas” (heb. mopheth) os mesmos eventos que são, em outras partes, chamados de “sinais” (Êx 4.21; 11.9,10; SI 78.43; 105.27; J1 2.30). Obviamente, às vezes, a palavra sinal é utilizada para descrever uma “maravilha” natural, como o próprio profeta (Ez 24.24), ou algo singular que um profeta tenha realizado para fazer com que sua mensagem fosse ouvida (Is 20.3). Mas mesmo aqui a palavra maravilha tem um significado especial e sobrenatural (divino).

O Uso Veterotestamentário da Palavra Poder

Uma das palavras hebraicas para se referir a “poder” (koak) é, às vezes, utilizada para o poder humano, no Antigo Testamento (Gn 31.6; Dt 8.17; Na 2.1). Entretanto, é comum ver esta palavra associada ao poder de Deus, às vezes ao seu poder criador: “Ele fez a terra pelo seu poder; ele estabeleceu o mundo por sua sabedoria e com a sua inteligência estendeu os céus” 0r 10.12; cf. Jr 27.5; 32.17; 51.15). Em outros lugares, o “poder” de Deus expulsa os seus inimigos (Ex 15.6,7), liberta o seu povo do Egito (Nm 14.17; cf. v. 13), rege o universo (1 Cr 29.12), entrega ao povo de Israel a sua terra (SI 111.6), e inspira os seus profetas a proferirem as suas Palavras (Mq 3.8). O “poder” normalmente está diretamente ligado aos eventos chamados “sinais” ou “maravilhas”, ou a ambos (veja Ex 9.16; 32.11; Dt 4.37; 2 Rs 17.36; Nm 1.10). As vezes, outras palavras hebraicas para “poder” são utilizadas no mesmo versículo juntamente com “sinais e milagres”; Moisés fala da libertação do povo de Israel “com sinais, e com milagres [...] e com mão forte” (Dt 4.34; cf. Dt 7.19; 26.8; 34.12).

GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. CPAD, 2010. p. 40-42.