4 de outubro de 2013

Gleason L. Archer - Rute: Data e Composição

Este Livro tem como título o nome da personalidade principal
cuja biografia é narrada nas suas páginas. A etimologia do nome é duvidosa; algumas pessoas sugeriram uma modificação moabita
da palavra hebraica re’ut, “amizade, associação”. O propósito do
Livro é narrar um episódio entre os ascendentes do Rei Davi que
explicava a introdução de sangue não-israelita na linhagem da
sua família. Ensina também o grande alcance da graça de Deus,
pronto a dar as boas-vindas aos convertidos de entre os gentios,
na comunhão do Seu povo redimido. Talvez o aspecto de maior
importância desta curta narrativa é exibir a função do gõèl ou
“parente-redentor”.

Esboço de Rute

i. Migração e Permanência em Moabe, 1:1-15.
II. Rute resolve Voltar com Noemi para Judá, 1:6-18.
III. A Triste Volta para Belém, 1:19-22.
IV. Boaz, Amigo na Hora Difícil, 2:1-23.
V. Apela-se para a Lei da Redenção, 3:1-18..
VI. Boaz Aceita Sua Responsabilidade, como Goel, 4:1-16
VII. A Promessa e a Posteridade, 4:17-22.

Data da Composição

A base histórica deste pequeno Livro pertence à época dos
Juizes (Rute 1:1), e parece que foi composto perto da época da
composição da obra maior. Não pode ter sido escrito antes da
época do rei Davi, sendo que ele é nominalmente mencionado no
Livro (4:22). Se o Livro tivesse sido escrito na época de Salomão,
é bem possível que o famoso filho de Davi tivesse sido mencionado
entre os descendentes de Rute.

Críticos da escola liberal insistem numa data posterior ao
reinado de Josias, pois parece que o Livro de Rute revela algum
conhecimento de Deuteronômio 25, e, segundo esta escola, Deute-
ronômio foi composto pouco antes da reforma de Josias. A maioria
dos críticos atribui ao Livro a data de 550 a.C., durante a época
do Exílio, mas outros pensaram no período de um século mais
tarde, sentindo que pretendia ser um contragolpe ante a severidade
de Neemias em impor as leis contrárias aos casamentos com mu-
lheres estrangeiras. É interessante notar que W. F. Albright expressa preferência por uma data anterior à época de Josias, sem
levar em conta qualquer possível dependência de Deuteronômio.
No Comentário ao Antigo Testamento de Alleman e Flack (p. 147),
faz-se referência à demonstração feita por Millar Burrows de que
os costumes legais no que diz respeito ao casamento de Boaz e Rute
representam um estágio muito mais primitivo do que as leis do
Pentateuco acerca do casamento de levirato. Nesta base duvidosa,
porém, Albright declara: “Não podemos atribuir à maior parte do
Livro de Rute uma data depois do sétimo século, e uma data que
remonta até ao nono século, quanto à poesia subjacente ao livro, é
bem possível”.

Em prol da data posterior, alguns críticos têm indicado certos
alegados aramaísmos, tais como lãhên em 1:13 e mãrã’ em 1:20.
É verdade que lãhên existe em aramaico como sendo uma palavra
que significa “portanto”, mas como palavra hebraica pode ser tra-
duzida “para elas”, no sentido de “para estas (coisas)”. Embora
seja verdade que mara’ “amarga” tenha sido soletrada pela
maneira aramaica, o equivalente hebraico, com som idêntico, só
tem uma leve diferença de ortografia. Além disto, têm surgido a
lume inscrições que remontam até o nono século a.C., evidenciando
ortografias hebraicas e aramaicas no mesmíssimo texto, e por esta
razão pode-se dizer que estas duas palavras constituem motivos
tênues para se estabelecer uma data avançada para o Livro.

Quanto à historicidade da narrativa, Rute parece dar uma
impressão exata dos costumes durante aquele período antigo. Era
perfeitamente natural naquela época (antes de os moabitas terem-
se amargurado por causa do domínio dos israelitas sobre eles)
uma família judia refugiar-se em Moabe durante um período de
seca e de fome. Nestas condições, seria também natural que os
jovens tivessem se apaixonado por moças da região, casando-se com
elas. O fato de Davi ser descendente duma moabita seria uma ex-
plicação razoável por ter procurado refúgio com o rei de Moabe
durante o período em que foi perseguido pelo rei Saul. Conforme
Young diz (IAT 355), “O próprio fato de Rute, ancestral de Davi,
ser uma moabita, já de si mesmo é um forte argumento em prol
da historicidade do livro”.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.