18 de outubro de 2013

Gleason L. Archer - 1 e 2 Samuel: Preservação do texto e alegadas inconsistências internas

A Preservação do Texto

Por algum motivo, parece que o texto de I e II Samuel tem
sido conservado na recensão dos massoretas em piores condições
do que qualquer outro Livro da Bíblia. Uma explicação provável
é que o texto oficial para o templo, coligido no período intertes-
tamentário  dependia dum exemplar muito antigo do qual foi
copiado, contendo várias lacunas (talvez por causa da ação das
traças, ou por causa dos sinais de constante manuseio). Isto, por
exemplo, explicaria a ausência de qualquer número antes da palavra “anos” em I Samuel 13:1. Mas um estudo da versão da Sep-
tuaginta revela que o Vorlage (manuscrito usado como modelo)
estava em melhores condições do que aquele empregado na tra-
dução massorética, e, portanto, é muito útil para a crítica textual
destes dois livros. Vários fragmentos importantes têm sido desco-
bertos nas cavernas de Qumsistran, contendo um texto hebraico apre-
ciavelmente mais aproximado da Septuaginta do que do Texto Mas-

sorético.6 (Mas nem a Septuaginta oferece assistência em se
descobrir o número que falta de I Sm 13:1). Da mesma forma,
parece que em I Samuel 12:11, uma letra ’ayin caiu do nome Abdom,
um dos juizes do século doze a.C. (cf. Jz 12:13-15); o nome acaba
sendo B-D-N (e não ,-B-D-N), e é vocalizado pelos massoretas como
“Bedan”.

Alegadas Inconsistências da Narrativa

Muitas inconsistências que os críticos divisores alegam ter
achado na sua análise dos Livros de Samuel só podem ser perce-
bidas ao aplicar uma política deliberada de disseção artificial. Len-
do-se e aceitando-se o texto conforme consta, torna-se aparente
uma reconciliação perfeitamente óbvia. Há porém, algumas poucas
passagens nas quais uma explicação harmonizante não está tão
facilmente disponível.

Alguns têm insistido que o pano de fundo tribal do próprio
Samuel é descrito de forma diferente em I Samuel 1 e I Crônicas 6,
sendo que este último capítulo descreve Samuel como tendo sido
um levita da subtribo de Coate. I Samuel 1:1, porém, declara que
Elcana era um efraimita, sendo que seu lar ficava em Ramataim-
zofim. Mas realmente, este versículo nada declara acerca da filia-
ção tribal de Elcana, indicando apenas o local da sua residência.
Segundo a Torá os levitas não tinham nenhum território tribal da
sua propriedade, porém eles tinham de morar entre as quarenta
e oito cidades espalhadas pelas doze tribos (cf. Nm 35:6). Não há
nada que impeça que Ramataim ou Ramá pudesse ter sido uma
das cidades de Efraim reservadas para os levitas.

Outra dificuldade tem-se percebido na dupla apresentação do
jovem Davi ao Rei Saul. Em I Samuel 16:14-23 ele é apresentado
como um jovem tocador de harpa chamado para acalmar o espírito
perturbado de Saul. Em I Samuel 17:55-58 parece que as apre-
sentações têm que ser repetidas. Mas um estudo mais cuidadoso desta “segunda apresentação” indica que a única preocupação de
Saul nesta hora era aprender o nome do pai de Davi, ou melhor,
saber qual tipo de homem era este pai, tendo em vista a política
de Saul de vincular os guerreiros mais valorosos do seu reino à
sua guarda pessoal (I Sm 14:52). Era bem apropriado aproveitar
a oportunidade para descobrir as possibilidades de enquadrar Jessé
ou alguns outros filhos às melhores tropas da elite, tendo em vista
a demonstração da proeza do mais jovem dos seus filhos em matar
o gigante Golias. I Samuel 18:1 sugere uma longa conversa de-
pois de Saul ter feito aquela pergunta a Abner no que dizia respeito
a Davi, e razoavelmente se pode inferir que muita coisa além de
meros nomes foi discutida naquela hora.

Um problema interessante surge em conexão com o encontro
de Davi com Golias. Embora I Samuel 17 declare que Golias foi
morto por Davi, II Samuel 21:19 indica que o gigante foi morto
por Elanã. Apesar de a Septuaginta seguir a leitura do texto mas-
sorético neste versículo, parece óbvio que um erro de cópia estra-
gasse a transmissão do texto original. Felizmente, I Crônicas 20:5
ajuda consideravelmente a descobrir como surgiu o erro. O ver-
sículo em Crônicas declara: “E Elanã o filho de Jair matou Lami,
irmão de Golias o geteu”. O copista de II Samuel 21:19 decerto
considerou o sinal do objeto direto (,t) como sendo beyt (prova-
velmente por causa duma mancha ou corrosão do manuscrito antes
do t final), transformando Lami em “belemita” (hebraico: B-t-h-
l-h-m-y); então, por motivos semelhantes, confundiu a palavra
“irmão” (’h) com o sinal do objeto direto (’t), fazendo o próprio
Golias o objetivo deste ataque mortal, ao invés do irmão de Golias.
No quinto século a.C., a letra hebraica het (h) se assemelhava
muito à letra taw (t) e além disto, a letra yod chegara a ser muito
pequena. Evidência adicional de que o versículo tinha sido copiado
de maneira inferior em II Samuel 21 se vê pela introdução do
nome Oregim depois de Jaare. Conforme I Crônicas 20 demonstra,
esta palavra ’õregím, que significa “tecelões” devia vir depois da
palavra que significa “eixo”. O erro na transmissão deve ter sur-
gido numa época cuja letra het já tinha passado a ser seme-
lhante a taw, mas antes da tradução da Septuaginta; isto é, entre o quinto e o terceiro século a.C.

Outros casos de trechos alegadamente inconsistentes incluem
as duas ocasiões nas quais Davi tinha Saul à sua mercê, de ma-
neira que poderia ter assassinado o rei enquanto dormia. (Mas
nas condições peculiares da caça a fugitivos em terreno montanhoso é possível que isto pudesse ter ocorrido duas vezes). Ou, nos
vários episódios de reconciliação e alienação entre Saul e Davi, os
críticos estranham que o restabelecimento da amizade tenha sido
seguido por crises de ódio assassino. Mas, deve ser reconhecido
que, devido à demência de Saul, e à deterioração progressiva sob
a influência corrosiva duma inveja consumidora, e duma profunda
sensação de insegurança, esta seqüência de acontecimentos é com-
pletamente verossímil. Nem aqui, nem nos exemplos menos signi-
ficativos que os críticos têm levantado, pode ser achada qualquer
discrepância genuína.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.