17 de outubro de 2013

Gleason L. Archer - 1 e 2 Samuel: Data e Composição

A julgar pelas evidências internas, os Livros de Samuel difi-
cilmente poderiam ter sido escritos antes da morte de Salomão.

Em I Samuel 27:6 percebemos que a monarquia dividida já tinha
começado (“Ziclague pertence aos reis de Judá até ao dia de hoje”).
Apesar de não constar nenhum obituário de Davi, o registro das
suas palavras finais parece implicar no conhecimento da sua morte.
Indicações dum terminus ad quem parecem estar em falta, e ne-
nhum dos escritores conservadores tais como Steinmueller, Young
ou Moeller podem chegar a uma conclusão mais definida do que
dizer que a composição foi feita entre 930 e 722. O autor parece
nada saber da queda de Samaría, portanto, parece razoável datar
o Livro no período antes do cativeiro das dez tribos.

Segundo a análise dos críticos racionalistas, a maior parte do
Livro é composto de dois documentos (Pfeiffer), ou então possi-
velmente três (Eissfeldt — que separa L, J, e E). Declaram que
certas partes pertencem ao período de Salomão, com outros acrés-

cimos paulatinamente adicionados até cerca de 550 a.C., por um
redator da escola deuteronômica. É digno de nota que há tantas
evidências duma data recuada em certas seções de Samuel que
até um crítico divisor como R. H. Pfeiffer podia atribuir o estrato
mais antigo do Livro a um autor do décimo século tal como Aimaz,
o sacerdote.  Outras porções, porém, são consideradas como sendo
duma data avançada, da época do Exílio, por causa das referências
aos levitas que se acham em I Samuel 6 e 7.  A mesma técnica
geral de análise que se aplica à crítica do Pentateuco é empregada
também aqui, com a tentativa de isolar narrativas paralelas ou
duplicatas, que demonstrem inconsistências entre si, indicando
assim uma diferença de autoria durante períodos diferentes da
história de Israel. Por exemplo, alega-se que há duas atitudes to-
talmente opostas à fundação da monarquia em Israel: a de I Sa-
muel 7 e 8 (a condenação divina da vontade do povo de ter um rei, 
revelando uma falta de fé em Deus), e a de I Samuel 9, especial-
mente o v. 16, com suas graciosas promessas e bênçãos para o rei
que Samuel haverá de ungir.

O que os críticos não conseguem perceber é que a condenação
de motivos não-teocráticos da parte da nação não impede a bênção
de Deus sobre o instrumento humano que Ele mesmo escolheu para
liderar Seu povo através da nova forma de governo que o povo erro-
neamente preferiu. Há numerosos exemplos deste tipo de resposta
divina perante o erro humano, no decurso da história dos he-
breus. Por exemplo, apesar do crime perpetrado por Davi ao to-
mar Bate-Seba, Deus graciosamente escolheu seu segundo filho,
Salomão, para ser sucessor de Davi, o mais glorioso dos seus
descendentes. A artificialidade da estratificação da alta crítica
se percebe pela ocorrência de alusões em partes posteriores da nar-
rativa a partes anteriores, sendo que muitas destas alusões cortam
diretamente as linhas divisórias estabelecidas pelos críticos, for-
mando um entrelaçamento de narrativa. Certas frases caracte-
rísticas das fontes que supostamente eram tão distintivas, ocorrem
com tal freqüência que transformam numa grande dúvida a tota-
lidade da técnica analítica. 

Apesar da falta de sucesso em formar divisões em estratos
pós-davídicos, não há dúvida que o compilador dos Livros de Samuel
tivesse empregado fontes escritas anteriores, como por exemplo o
Livro dos Justos mencionado em II Samuel 1:18. Apesar de não
haver citações nominais de outros registros escritos, é bem possível
que os arquivos oficiais tenham sido consultados, inclusive os “Atos
de Davi” compostos por Samuel, Natã e Gade (segundo a decla-
ração em I Crônicas 29:29).

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.