30 de outubro de 2013

Gleason L. Archer - 1 e 2 Reis: Problemas de Cronologia

Nos primeiros dias de estudos do Antigo Testamento havia
considerável dificuldade em harmonizar os números citados nos
Livros dos Reis, dando as datas dos reinados dos vários reis do
norte e do sul. No caso dos reis de Judá, especialmente, quando
se somam todos os anos da duração dos reinados, produz-se um
total consideravelmente maior do que aquilo que seria o total de
tempo entre a morte de Salomão e a queda de Jerusalém. Pes-
quisas posteriores, porém, demonstraram o fato de que, em muitos
casos, o herdeiro do trono foi coroado formalmente antes da morte do seu pai, começando-se assim o seu reinado. No caso de Uzias,
para escolher um exemplo extremo, parece ter sido coroado como
rei auxiliar já em 790, quando seu pai, Amazias, só tinha reinado
durante seis anos. Tomou-se rei único em 767, quando Amazias
morreu. Em 751 foi acometido pela lepra, afastando-se das respon-
sabilidades do governo, pelo menos a maior parte delas. Seu filho
Jotão foi então coroado (em 751) e reinou até sua morte em 736;
antes de morrer, porém, já em 743 seu filho Acaz foi coroado co-

regente, e reinou até sua morte em 728. Assim aconteceu que entre
743 e 739, Judá tinha nada menos do que três reis ao mesmo tempo:
Uzias, Jotão e Acaz.

Muita luz tem sido lançada na cronologia das dinastias he-
bréias pelos sincronismos (ou datas simultâneas) contidos nos mo-
numentos assírios. De especial importância são as listas assírias de
epônimos que cobrem a história do império desde 893 até 666 a.C.
Há também o Cânone Grego de Ptolomeu (que viveu entre 70 e 161
d. C.), citando os reinados dos reis de Babilônia desde 747 a.C. até
o período greco-romano. A verificação astronômica dum eclipse
que Ptolomeu datou em 522 a.C. tem servido como uma valiosa
garantia da sua exatidão. Monumentos oficiais contemporâneos,
tais como a Estela Negra de Salmaneser III e o Cilindro Taylor de
Senaqueribe, ocasionalmente contêm referências datadas a reis is-
raelitas. A partir de tais dados, tem sido comprovado que havia
muitos períodos de co-regência tanto em Judá como em Israel, e
que os anos da co-regência foram calculados dentro da cifra total
do reinado citado de cada um dos reis.

Também tem sido estabelecido  que havia uma diferença na
maneira de calcular o calendário, entre o Reino do Sul e o Reino do
Norte. O sistema de datar, chamado “inclusivo do ano de suces-
são” contava o remanescente do ano no qual foi coroado o rei,
como sendo seu primeiro ano. Isto significa que mesmo que tivesse
sido coroado até o último dia do ano prévio, este dia contaria como
um ano no seu reinado, e o segundo ano começaria no próximo
dia, se este fosse o dia no qual começava o novo ano pelo calen-
dário. Segundo o sistema “exclusivo do ano de sucessão”, porém,
o ano no qual o rei foi coroado é descontado nos cálculos, e o pri-
meiro ano do seu reinado é contado desde o começo do ano se-
guinte. No caso de Judá, desde a época da Divisão em 930 a.C., até
cerca de 850, seguia-se o sistema exclusivo. Depois, desde o reinado de Jeorão filho de Acabe até o remado de Joás filho de Acazias,
seguia-se o sistema inclusivo do Reino do Norte. Finalmente, desde
a época de Amazias até a queda de Jerusalém (796 — 587 a.C.),
Judá voltou ao sistema exclusivo. Quanto ao Reino do Norte, co-
meçou com o sistema inclusivo em 930, continuando até cerca de
800 a.C. Desde a época de Jeoás filho de Jeoacaz, até a queda da
Samaria (798 — 722 a.C.) houve uma mudança, adotando-se o mé-
todo exclusivo de calcular. Assim é que poderia acontecer que o ano
que em Judá foi considerado o décimo de Josafá, seria contado em
Israel como seu nono ano.

Ainda outra complicação foi introduzida pelo fato que o Rei-
no do Norte começou seu novo ano em Nisã ou Abibe, o primeiro
mês do ano religioso. Com igual consistência, o Reino de Judá em-
pregou o mês de Tisri ou Etanim (o sétimo mês do ano religioso)
como o primeiro mês do seu ano secular, computando todas as
datas e todos os reinados a partir deste fato. Não se sabe como
surgiu esta distinção; só se pode dizer que isto precisa ser levado
em conta quando se trata dos casos onde parece haver um ano de
discrepância nas datas.

Neste ponto deve ser acrescentado que, visto como a cronolo-
gia é um ramo da ciência histórica, é sempre sujeita a revisão.
Até entre estudiosos conservadores há certas divergências. Thiele
calcula a época• da Divisão em 931 a.C., enquanto Payne calcula
930 a.C. Certa flexibilidade precisa sempre ser conservada, e ajus-
tes apropriados precisam ser feitos à medida que as novas evidên-
cias vão entrando.

Uma obra mais recente sobre a história posterior de Judá tem
sido publicada por D. J. Wiseman, Chronicles of the Chaldean
Kings in the British Museum (“Crônicas dos Reis Caldeus no Mu-
seu Britânico”) (1956). As placas publicadas com esta obra dão
uma série de datas exatas entre 626 e 566 a.C. Indicam que Nabo-
polassar, pai de Nabucodonosor, foi coroado oficialmente no dia 23
de novembro de 626, depois de derrotar o exército da Assíria em Ba-
bilônia. Asurubalite n, que assumiu o trono da Assíria depois da
queda de Nínive em 612, foi forçado a abandonar suas defesas
em Harã no ano 610. A batalha de Megido, onde Josias morreu,
foi travada em 609, e no mesmo ano, ou no ano seguinte, 608, Jeoa-
quim começou a reinar sob a égide de Neco, passou então a oferecer
sua lealdade a Nabucodonosor, e morreu em 598. A batalha de
Carquemis, que marcou uma época, na qual Nabucodonosor venceu os exércitos aliados do Egito e da Assíria, foi travada em maio
ou junho, de 605. Nabopolassar morreu no dia 16 de agosto de
605, e no dia 7 de setembro Nabucodonosor foi coroado em Babi-
lônia como seu sucessor. Em 601 os exércitos da Babilônia sofreram
uma derrota temporária às mãos dos egípcios, na fronteira do
Egito, depois duma batalha feroz. (Este fato, que não era conhe-
cido anteriormente, ajuda a esclarecer por que Jeoaquim se arris-
cou numa rebelião contra Babilônia durante os últimos anos do
seu reinado). Jerusalém rendeu-se a Nabucodonosor pela primeira
vez em 15 de março (ou 16) de 597 a.C. Naquele mesmo mês,
Zedequias foi nomeado rei. Finalmente, Jerusalém caiu em ju-
lho, 587 a.C.

Estas placas esclarecem uma discrepância entre II Reis 24:12,
que coloca a queda de Jerusalém (em 597) no oitavo ano de Na-
bucodonosor, e Jeremias 52:28, que declara que foi no sétimo ano.
Aparentemente, na Batalha de Carquemis, Nabucodonosor estava
comandando sozinho as tropas caldéias, e pode ter sido reconhecido
no ocidente como rei pelo estado de direito; por isso, o historiador
judeu de II Reis considerou 605/604 como sendo seu primeiro ano
de reinado. Na Babilônia porém, onde segundo parece, emprega-
va-se o sistema inclusivo, seu reinado não começou oficialmente
até 604/603. Parece que Jeremias seguiu aqui a maneira babiló-
nica de calcular as datas.

Um problema muito difícil tem surgido em conexão com a
data da invasão da Palestina e o cerco de Jerusalém, levada adiante
por Senaqueribe, conforme se registra em Isaías caps. 36 e 37 e
I Reis caps. 18 e 19. Os monumentos de Senaqueribe indicam que
tal invasão ocorreu em 701 a.C., que usualmente tem sido conside-
rada a data da grande crise registrada na narrativa hebraica.
A publicação, porém, por M. F. L. Macdam de Esteia Kawa IV, foi interpretada por ele para significar que Tiraca somente teria nove anos de idade em 701, e,
portanto, dificilmente seria competente para dirigir o exército egípcio que, sem
sucesso, tentou derrotar Senaqueribe e levantar o cerco de Jerusalém. Na base
desta interpretação, muitos estudiosos (inclusive Albright) elaboraram uma teoria segundo a qual a confrontação com Tiraca deu a entender uma segunda invasão
de Judá por Senaqueribe, não registrada nos anais assírios atualmente existentes,
mas que deve ter ocorrido durante a década de 680. Todas estas especula-
ções, porém, foram reduzidas à insignificância por uma edição posterior da Esteia
Kawa IV, publicada por Leclant e Yoyette em 1952. Este segundo escrutínio do
texto egípcio mostra que Macadam deu uma interpretação errônea, e que, na rea-
lidade, foi o pai de Tiraca, Piankhy, que morreu em 713, no máximo, mas,
muito mais provavelmente, em 717 ou 716. Isto significa que Tiraca tinha muito mais do que nove anos em 701. Macadam supôs, erroneamente, que havia uma
co-regência de seis anos com Tiraca e seu irmão mais velho, Sebitku; errou,
outrossim, em consignar a idade de Tiraca quando fez vinte anos (referida na Este-
ia Kawa v. 17) ao ano 690/689 a. C. Na realidade, a referência dizia respeito ao
período imediatamente após a sucessão de Sebitku em 702. Estes textos, correta-
mente interpretados, portanto, nos informam que Tiraca tinha vinte anos em 701,
quando o irmão dele o convocou para assumir a liderança da campanha militar
em Judá. Assim, já tinha idade suficiente para desempenhar um papel de lideran-
ça embora ainda não fosse o rei entronizado (como veio a ser até a data em que
o episódio foi registrado em Is cap 36 e II Rs cap 18). A Esteia Kawa registra,
com respeito a Tiraca: “Sua Majestade estava em Núbia, como mancebo apresen-
tável . . . entre os mancebos apresentáveis que Sua Majestade o Rei Sebitku
conclamara da Núbia”. (Notemos que aqui, também o relatório posterior do
incidente se refere a Tiraca como “Sua Majestade”, embora que fosse, na oca-
sião referida, apenas o príncipe herdeiro.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.