23 de outubro de 2013

Gleason L. Archer - 1 e 2 Reis: Esboço

Conforme ficou dito, estes dois livros contavam originalmente
como um só no cânon hebraico. O título é totalmente apropriado,
tendo em vista que o conteúdo dos livros é um relatório das car-
reiras dos reis de Israel e Judá desde a época de Salomão até a
queda da monarquia judaica perante os exércitos de Nabucodo-
nosor em 587 a.C. Conforme já foi indicado, a Septuaginta atribui
aos dois Livros o nome de III e IV Reinos (Basileiõn).

O tema destes dois Livros é demonstrar, na base da história
de Israel, que o bem-estar da nação depende, em última análise,
da sinceridade da sua fidelidade à Aliança com o Senhor, e que
o sucesso de qualquer soberano deve ser medido pelo grau da sua
adesão à constituição mosaica e pela qualidade do seu testemu-
nho perante os pagãos, de pureza e de honra a Deus. O propó-

sito da narrativa é descrever aqueles eventos que eram importantes
do ponto de vista de Deus e do Seu programa de redenção. O autor
não tinha nenhuma intenção de glorificar os heróis de Israel por
motivos nacionalistas; por este motivo, até passou em branco certas
façanhas que teriam assumido grande importância aos olhos dum
historiador secular. Sua principal preocupação era demonstrar a
atitude de cada soberano sucessivo para com Deus e em suas res-
ponsabilidades dentro da aliaça.

Esboço de I e II Reis

I. O Reinado de Salomão, I Reis 1:1 — 11:43.
A. Disposições finais de Davi, e a supressão de Adonias,
1:1 — 2:11.
B. Começo do reino de Salomão, 2:12-46.
C. Salomão ora pedindo sabedoria, depois do seu casamento
com a filha do Faraó, 3:1-28.
D. Salomão administra seu reino, 4:1-34.
E. Salomão edifica o templo, 5:1 — 7:51.
F. A Dedicação do templo, e a promessa de Deus, 8:1-66.
G. A riqueza e a glória de Salomão; a Rainha de Sabá,
9:1 — 10:29.
H. A apostasia e declínio de Salomão, 11:1-43.

II. Os Primeiros Heis da Monarquia Dividida, 12:1 — 16:28.
A. A tolice de Reoboão; a revolta sob Jeroboão, 12:1 — 14:31.
B. Abias e Asa de Judá, 15:1-24.
C. Nadabe, Baasa e Elá de Israel, 15:25 — 16:14.
D. Zinri e Onri de Israel, 16:15-28.

III. O Período da Aliança entre Judá e Israel, I Reis 16:29 —
I Reis 9:37.
A. Acabe e Elias, no teste do monte Carmelo, I Reis 16:29
18:46.
B. Acabe e Elias, até a morte de Acabe em Ramote-Gileade,
19:1 — 22:53.
C. Acazias de Israel, II Reis 1:1-8.
D. Eliseu ungido, a morte de Elias, 2:1-25
E. Jeorão e Josafá contra os moabitas, 3:1-27
F. Milagres de Eliseu; a cura de Naamã, 4:1 — 5:27.
G. Guerras de Ben-Hadade e a libertação de Samaria, 6:1
7:20.

B. A missão de Eliseu a Hazael e Jeú; morte de Jezebel,
8:1 — 9:37.
C. A doença de Ezequias; demonstra suas riquezas aos em-
baixadores caldeus, 20:1-21.
D. O mau rei Manassés; seu filho Amom, 21:1-26.
E. As reformas de Josias, 22:1 — 23:30.
F. Os últimos reis, e a queda de Jerusalém, 23:31 — 25:21.
G. Gedalias assassinado; Joaquim recebe favores, 25:22-30.

Quanto às fontes desta obra, é óbvio que o autor depen-
dia muito mais de documentos escritos anteriores do que o au-
tor de Juizes ou de Samuel. Três documentos deste tipo se
mencionam nominalmente: 1) “O Livro dos Atos de Salomão” (I
Reis 11:41); 2) “O Livro das Crônicas dos Reis de Judá” (passim);
3) “O Livro das Crônicas dos Reis de Israel” (passim). Não seria
injusto inferir que estas três obras consistam mormente das
anotações do secretário ou historiador oficial da corte, o mazkir
mencionado em II Samuel 8:16. Há uma fonte não citada, mas
obviamente empregada, que é Isaías caps. 36 — 39, da qual foram
copiadas grandes partes, quase palavra por palavra, em II Reis
caps. 18 — 20. (Sendo que o autor de II Reis leva a narrativa da
história dos hebreus até a queda de Jerusalém e ainda depois,
é óbvio que o Livro de Reis citou Isaías e não vice-versa. Alguns
críticos têm argumentado que os capítulos de Isaías foram copia-
dos de Reis, mas a evidência que empregam para isto aponta na
direção oposta).

Quanto à data da composição, parece óbvio pelo que foi dito
acima, que havia uma dependência de fontes escritas, remontando
a um período tão recuado como era o reinado de Salomão. A com-
posição final tem que ser datada depois da queda de Jerusalém,
provavelmente no começo do Exílio; mas é possível que só o capítulo
final pertença à época do Exílio, sendo que a frase, que freqüen-
temente ocorre, “até ao dia de hoje”, pelo Livro afora, indica in-
confundivelmente uma perspectiva pré-exílica. 

A tradição talmúdica assevera que Jeremias era o autor do
Livro dos Reis (Baba Bathra 15a), uma sugestão que se recomenda
a Steinmueller. Visto que o autor fala dum ponto de vista consis-
tentemente profético, e é um homem de considerável capacidade
literária, é possível que Jeremias tenha composto tudo menos o
capítulo final. Uma consideração que milita fortemente em favor
desta conjectura é que não há a mínima alusão ao próprio Jeremias
nos capítulos que tratam de Josias e dos seus sucessores. Se não se
tratasse dum caso de modéstia da parte do autor, não haveria outra explicação pela omissão duma referência ao ministério de Jeremias,
fator tão importante na história de Judá, tratando-se do seu úl•
timo grande profeta. Quanto ao capítulo final, parece ter sido
escrito por alguém que morava na Babilônia, e não no Egito, onde
Jeremias encontrou a morte.

A crítica liberal considera que os Livros dos Reis consistem
de dois estratos principais, um sendo uma fonte pré-exílica que
nada sabe da queda de Jerusalém, e que considera o culto nos lu-
gares altos fora de Jerusalém como sendo perfeitamente legítimo;
O segundo estrato pertence à obra da escola deuteronômica, que
florescia cerca de 550 a.C., segundo a teoria. Considera a queda
de Jerusalém e o julgamento do Exílio como sendo fatos consuma-
dos, explicando-os como sendo o resultado da não limitação do
culto a Deus ao templo de Jerusalém. Esta escola de pensamento,
segundo se alega, reinterpretou a história de Israel a tal ponto
que subentende uma condenação de Salomão por ter feito sacri'
fícios em Gibeá antes de ter sido construído o templo de Jerusalém.
Naturalmente, qualquer teoria sobre uma escola deuteronômica
depende de uma data dentro do reinado de Josias para o Livro de
Deuteronòmio, e reconhece-se mais e mais que a evidência é muito
limitada para se defender tal data. Que a atitude de Deuteronòmio
freqüentemente tenha causado os julgamentos morais emitidos em
I e II Reis pode-se admitir livremente, mas isto se explica admira-
velmente ao reconhecer-se que este livro tinha sido composto por
Moisés. (A mesma׳ coisa se pode dizer das influências deuteronô-
micas anotadas nos Livros de Samuel ou de Juizes. Obviamente,
os autores destas obras mais antigas estavam familiarizados com
Deuteronòmio e com os demais Livros da Torà, considerando-oS
autorizados pelo fato de serem da lavra do autor inspirado, Moisés).