17 de setembro de 2013

Roland de Vaux - Os Filhos: O nome

Dava-se o nome ao recém-nascido imediatamente depois de nascer. A mãe geralmente escolhia o nome, Gn 29.31 -30.24; 35.18; I Sm 1.20, às vezes o pai, Gn 16.15; 17.19; Êx 2.22; cf. Gn 35.18. A prática de adiar a atribuição do nome até a circuncisão, ao oitavo dia, não é atestada antes do Novo Testamen¬to, Lc 1.59; 2.21.

Como entre os povos primitivos, o nome em todo antigo Oriente define a essência de uma coisa: nomeá-la é conhecê-la e, portanto, ter poder sobre ela. Se no paraíso terrestre Deus deixa o primeiro homem nomear os animais, Gn 2.19-20, é porque assim o põe sob seu domínio, cf. o relato paralelo, Gn 1.28. Se se trata de uma pessoa, conhecer seu nome é poder prejudicá-la: daí os nomes tabu entre os primitivos, os nomes secretos entre os egípcios; ou beneficiá-la, como Moisés que Deus conhece pelo nome, Êx 33.12,17. Daí provém também a importância para o fiel de conhecer o verdadeiro nome de seu Deus, Êx 3.13-15; cf. Gn 32.30, e esse traço se encontra em todas as religiões orientais.

 
Finalmente, como o nome define a essência, revela o cará¬ter e o destino daquele que o tem. O nome vem a ser a expressão de uma esperança, ou um símbolo que se procura decifrar com etimologias afins.


Alguns nomes são inspirados por uma circunstância particular do nasci¬mento. Essa circunstância pode relacionar-se à mãe que dá à luz: Eva chama seu primogênito Caim (Qain) porque ela “adquiriu” (qanah) um homem, Gn 4.1; o mesmo ocorre com os nomes dos filhos de Jacó, Gn 29.31-30.24; Raquel, que vai morrer no parto, chama seu filho Benoni, “filho de minha dor”, mas Jacó muda esse nome de mal augúrio para Benjamim, “filho da direita”, Gn 35.18. Mais raro é a circunstância referir-se ao pai: Moisés cha¬ma seu filho Gérson, porque o teve quando era ger, residente em terra estran¬geira, Êx 2.22. A circunstância pode se referir à própria criança. Jacó é cha¬mado assim porque no seio de sua mãe segurou o calcanhar, ‘aqeb, de seu gêmeo, Gn 25.26, e porque suplantou a este, 'aqab, Gn 27.36; Os 12.4. Perez nasceu abrindo-se uma brecha, perets, Gn 38.29. Pode, por fim, ser uma circunstância exterior contemporânea do nascimento: a esposa de Finéias, sabendo da captura da arca pelos filisteus, dá à luz um menino e o chama Icabode, que significa “Onde está a glória?”, I Sm 4.21. Podem-se comparar com isso os nomes simbólicos que Oséias e Isaías dão a seus filhos, Os 1.4,6,9; ls 7.3; 8.3.

Nas explicações que a Bíblia dá desses nomes, se vê com freqüência uma etimologia popular, que foi criada posteriormente e justificada com algum traço inventado. Isso é, sem dúvida, exato em certo número de casos, mas não sempre. Efetivamente, esse costume de chamar uma criança segundo as cir¬cunstâncias de seu nascimento é atestado em muitos povos e também entre os arabes modernos. Assim, uma mulher que somente dava à luz meninas cha¬mou à quarta, Za‘ulé, “irritante”, e à oitava Tamâm, “já basta”. Assim, um homem cuja filha havia nascido em uma manhã de muito orvalho, a chamou Endeyeh, “cheia de orvalho”.

São muito raros os nomes dados de acordo com o aspecto físico da crian¬ça: Nahor, “o que ronca”; Qareah, “o calvo”; Paseah, “o coxo”. Pode-se rela¬cionar com isso um traço moderno: uma mulher dos arredores de Jerusa¬lém, ao ver seu filho gritou: “Mas ele é um negro, habas,\” E ele chamou-se Habas.

Os nomes de animais são freqüentes, sobretudo na época antiga: Raquel, “ovelha”; Débora, “abelha”; Yona, “pomba”; Ayyah, “abutre”; Sefufán, “víbora”; Calebe, “cachorro”; Nahas, “serpente”; Egla, “novilha”; Akbor, “rato" etc. Nesses nomes quis-se reconhecer originariamente nomes de clãs e um vestí¬gio de totemismo primitivo. Mas os que os levam são indivíduos, e na época em que aparecem não se encontra nenhum outro indício de totemismo. Além disso, tais nomes eram comuns entre os antigos árabes e hoje em dia encon¬tram-se também entre os beduínos. Alguns desses nomes são descritivos ou optativos: uma moça chamada Débora será diligente como uma abelha, um moço chamado Calebe, Sefufán ou Ayyah será forte e terrível com os inimi¬gos, como um cachorro, uma víbora ou um abutre. Ou então, como entre os beduínos modernos, o nome pode ser o do primeiro animal que foi visto no momento do nascimento.

Os nomes de plantas são muito mais raros: Elom, “carvalho”; Zeitán, “oliveira”; Qos, “espinho”; Tamar, “palmeira”. São explicados como os nomes de animais.

A categoria mais importante é a dos nomes teóforos, isto é, nomes em cuja composição entra um apelativo divino. Alguns nomes são formados com Baal, que pode ser, às vezes, um epíteto de Iahvé, pois baal significa dono ou senhor, mas com freqüência é o nome do deus cananeu. A proporção desses nomes é especialmente elevada nos óstracos de Samaria, que datam de uma época em que a religião do reino do Norte era fortemente adulterada. Desapa¬recem depois do período monárquico. Sob a influência do javismo, alguns destes nomes foram modificados nos textos, sendo Baal substituído por El ou por Iahvé, ou foram desfigurados para a leitura: Ishbaal mudou para Is-Boshete, Yerubaal em Yerubboshet, Meribbaal em Mefiboshete.

Mas muito mais freqüente são os nomes que se referem ao Deus nacional de Israel, designado com seus nomes de El ou de Iahvé (em formas abrevia¬das) ou com algum qualificativo ou atributo. Os nomes compõem-se desse elemento divino e de um verbo ou, mais raramente, de um substantivo ou adjetivo. Expressam uma idéia religiosa, o poder, a misericórdia de Deus, o auxílio que se espera dEle, o sentimento de parentesco com Ele. Sem dúvida, o uso habitual desses nomes podia atenuar seu significado, mas reaparecem com mais freqüência em circunstâncias de renovação religiosa, e alguns deles expressam a situação religiosa particular de uma época, como sucedeu duran¬te o Exílio ou no regresso deste, fatos que provam que se conservava o senti¬mento de seu valor.

Dá-se o caso de que esses nomes teóforos sejam abreviados, subenten¬dendo-se o elemento divino (nomes hipocorísticos): Natã, “Ele deu”, ao lado de Natanyahu, “Iahvé deu”, Mattán, “Dom”, ao lado de Mattanyahu, “Dom de Iahvé” etc. 

Em época tardia foi introduzido o costume do nome patronímico: dava- sr à criança o nome que havia tido seu avô, seu bisavô ou seu tio e, com menos frequencia, o de seu pai. Esse uso aparece primeiramente em Elefantina, a colônia judaica do Egito. Na Judéia ele é atestado no século III a.C., e parece ter sido comum no começo de nossa era, cf. Lc 1.59.

As vezes, israelitas ou judeus de nascimento têm nomes estrangeiros, só nas colônias estabelecidas fora da Palestina, mas também na própria Palestina. Os nomes aramaicos aparecem depois do Exílio e se multiplicam na época do Novo Testamento: Marta, Tabita, Bartolomeu etc.

Na época greco-romana, podia-se ter, ao mesmo tempo que um nome judeu, um nome grego ou latino: Salomé/Alessandra, João/Marcos, ou então sc traduzia o nome para o grego: Mataniya se converte em Theódotos, ou ainda dava-se forma grega a um nome semítico, como nos casos de Jesus, Maria etc.

Também pode ocorrer que uma pessoa mude de nome durante sua vida. Algumas dessas mudanças são explicadas na Bíblia como intervenção divina: Jacó recebe o nome de Israel durante sua luta com Deus, Gn 32.29; cf. 35.10; os nomes de Abrão e Sarai mudam-se para Abraão e Sara, Gn 17.5-15: são apenas outras formas dialetais dos mesmos nomes, mas, segundo as idéias sobre o valor do nome que antes expusemos, essa mudança marca uma mudança no destino, cf. Gn 17.6 e 16. Também dissemos que nomear um ser é afirmar certo poder sobre ele, o que explica as mudanças de nomes impostos por um chefe: o faraó dá a José o nome de Zafenate-Panéia, Gn 41.45; por vontade do chefe dos eunucos, Daniel, Hananias, Misael e Azarias vêm a ser Beltessazar, Sudraque, Mesaque e Abede-Nego, Dn 1.6,7. Quando o faraó constitui Eliaquim rei de Judá, impõe-lhe o nome de Jeoaquim, II Rs 23.34, como também Nabucodonosor muda para Zedequias o nome de Matanias, a quem estabelece no trono, II Rs 24.17. Esses dois últimos exemplos relacionam-se ao problema do nome de entronização em Israel, do que trataremos junto com as institui¬ções reais .

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.