9 de setembro de 2013

Roland de Vaux - Os Filhos: Estima dos Filhos

Hoje em dia, nos casamentos dos camponeses ou dos beduínos da Pales¬tina, às vezes, no umbral da porta dos recém-casados ou à entrada da tenda, esmaga-se uma romã cujos grãos simbolizam o grande número de filhos que lhes são desejados.

No antigo Israel, ter filhos, muitos filhos, era também uma honra deseja¬da e nesse sentido faziam-se votos por ocasião do casamento. Rebeca, ao dei¬xar sua família, é abençoada assim: “Você é nossa irmã: seja a mãe de milha¬res de milhares”, Gn 24.60. A Boaz, que toma por esposa Rute, se deseja que sua jovem esposa “seja semelhante a Raquel e a Lia que, as duas, edificaram a casa de Israel”, Rt 4.11-12. Abraão e, portanto, Isaque recebem a promessa de que sua posteridade será numerosa como as estrelas do céu, Gn 15.5; 22.17; 26.4. Deus promete a Hagar que ela terá uma descendência inumerável, Gn 16.10. Os filhos são “a coroa dos Anciãos”, Pv 17.6; os filhos são “reben¬tos de oliveira à roda da tua mesa”, SI 128.3, “uma recompensa, como flechas na mão do guerreiro: feliz o homem que enche deles a sua aljava”, SI 127.3-5.


Contrariamente, a esterilidade era considerada uma provação, Gn 16.2; 30.2; I Sm 1.5, ou um castigo da mão de Deus, Gn 20.18, uma vergonha, da qual Sara, Raquel e Lia procuram livrar-se adotando o filho que seu marido gerou com sua escrava, Gn 16.2; 30.3-9.

De todos esses textos deduz-se que se deseja sobretudo o nascimento de meninos, que perpetuarão a linhagem e o nome e preservarão o patrimônio. As filhas eram menos estimadas: elas deixam a família ao contrair matrimô¬nio; de forma que não era por seu número que se avaliava a força de uma casa.

Entre os filhos, o primogênito gozava de certas prerrogativas. Enquanto seu pai vivia, tinha a preferência entre os irmãos, Gn 43.33. A morte de seu pai, recebia uma dupla parte da herança, Dt 21.17, e tornava-se o cabeça da família. No caso de dois gêmeos, o primogênito era o que via primeiro a luz, Gn 25.24-26; 38.27-30: assim, mesmo que se tenha visto primeiro a mão de Zerú, Perez foi o primogênito, cf. I Cr 2.4, porque foi o primeiro a sair do seio materno. O primogênito podia perder seu direito de primogenitura como cas- ligo por uma falta grave, como foi o caso de Rúben depois de seu incesto, Gn 35.22; cf. 49.3 e 4; I Cr 5.1, ou ele podia abrir mão do direito, como Esaú, que vendeu seu direito de primogenitura a Jacó, Gn 25.29-34. Mas a lei protegia o primogênito contra uma escolha arbitrária por parte de seu pai, Dt 21.15-17.

Não obstante, há um tema que se repete com freqüência no Antigo Testa-mento, o caso do filho mais jovem que suplanta o primogênito. Fora os casos de Esaú e de Jacó, de Perez e de Zerá, que acabamos de mencionar, podem-se citar muitos outros: Isaque herda no lugar de Ismael, José é o preferido de seu pai, em seguida Benjamin, Efraim passa à frente de Manassés, Davi, caçula, é escolhido entre todos os seus irmãos e transmite o reino a seu filho mais jovem, Salomão. Nesses fatos tentou-se ver a indicação de um costume con¬trário ao direito de primogenitura, o de ultimogenitura, como se observa em alguns povos: a herança e os direitos do pai passam ao último dos filhos. Mas esses casos que fogem à lei comum manifestam antes o conflito entre o costu¬me jurídico e o sentimento que inclinava o coração do pai ao filho de seus últimos dias, cf. Gn 37.3; 44.20. Além disso, a Bíblia destaca explicitamente que esses casos expressam a arbitrariedade das escolhas de Deus, que havia aceitado a oferenda de Abel e rejeitado a de Caim, seu irmão mais velho, Gn 4.4-5, que “amou a Jacó e odiou a Esaú”, Ml 1.2-3; Rm 9.13; cf. Gn 25.23, que designou a Davi, I Sm 16.12, que deu o reino a Salomão, I Rs 2.15.

Como primícias do casamento, os primogênitos pertenciam a Deus, mas, ao contrário dos primogênitos do gado, que eram imolados, os do homem eram resgatados, Êx 13.11-15; 22.28; 34.20, porque o Deus de Israel abomi¬nava os sacrifícios de crianças, Lv 20.2-5 etc.; cf. o sacrifício de Isaque, Gn 22. Os levitas eram consagrados a Deus como substitutos dos primogênitos do povo, Nm 3.12-13; 8.16-18.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.