26 de setembro de 2013

Roland de Vaux - Os filhos: A educação

Durante seus primeiros anos, a criança, mesmo depois de desmamada, era deixada aos cuidados de sua mãe ou da ama de leite, II Sm 4.4, aprendia a andar, Os 11 ;3. O pequeno israelita passava a maior parte de seu tempo brin¬cando nas ruas ou na praça com os meninos e meninas de sua idade, Jr 6.11; 9.20; Zc 8.5; Mt 11.16. Cantavam, dançavam, se divertiam com figuras de barro cozido, das quais foram encontradas amostras nas escavações; as meni¬nas brincavam sempre de bonecas.

A mãe dava aos pequenos os primeiros elementos de uma instrução sobretudo moral, Pv 1.8; 6.20. Esses conselhos maternais podiam se estender também aos adolescentes, cf. Pv 31.1. Entretanto, os moços, ao saírem da infância, eram principalmente confiados aos seus pais. Um dos deveres mais sagrados destes era ensinar seus filhos, quer se tratasse de ensinamento religio¬so, Êx 10.2; 12.26; 13.8;Dt4.9; 6.7,20s; 32.7,46, ou da educação em si,Pv 1.8; 6.20, e, sobretudo, Eclo 30.1-13. O açoite e a vara ajudavam nessa formação, Pv 13.24; 22.15; 29.15,17; cf. Dt 8.5; II Sm 7.14; Pv 3.12; Eclo 30.1.


O uso da escrita já era comum em uma época antiga. Além dos escribas profissionais, como os da administração real, II Sm 8.17; 20.25; I Rs 4.3 etc., ou secretários particulares, como Baruque, Jr 36.4, os membros das classes dirigentes sabiam escrever, a julgar pelos exemplos de Jezabel, I Rs 21.8, e do profeta Isafas, Is 8.1. Mas o conhecimento da escrita não era limitado a esses ambientes privilegiados: um jovem de Sucote pode dar por escrito a Gideão os nomes de todos os chefes de seu clã, Jz 8.14, e a prescrição de Dt 6.9; 1J .20 supõe que todo chefe de família sabia escrever.

Não obstante, o ensinamento dava-se sobretudo oralmente. O mestre nar¬rava, explicava, interrogava, e o discípulo repetia, fazia perguntas ou as res¬pondia, Êx 13.8; Dt 6.7,20s; SI 78.3-4 etc. Essa será ainda a forma de ensina¬mento dos rabinos e das escolas modernas do Corão.

O conteúdo do ensino era muito geral: o pai transmitia as tradições nacio¬nais a seu filho, que eram também tradições religiosas, e as prescrições divinas dadas aos antepassados, Ex 10.2 e outros textos que acabamos de citar. Ensinavam-se também às crianças fragmentos de literatura, como a elegia de Davi sobre Saul e Jônalas, II Sm 1.18, que era recitada ainda na época dos macabeus, I Mb 9.20-21.

O pai dava também ao filho uma educação profissional; efetivamente, os ofícios eram em geral hereditários e as técnicas se transmitiam na oficina familiar. Um rabino dirá: “Quem não ensina a seu filho um ofício útil, o cria para ser ladrão.”

Essa função educativa do pai explica que o sacerdote, que tem a missão de ensinar, seja chamado de pai, Jz 17.10; 18.19, que José, tornando-se conse¬lheiro do faraó, seja como seu “pai”, Gn 45.8, que Hamã, vizir de Assuero, seja seu “segundo pai”, Et 3.13/; 8.12/ (Bíblia de Jerusalém). Da mesma maneira a relação entre mestre e discípulo se expressa pelos termos “pai” e “filho”, II Rs 2.12, comparado com II Rs 2.3; cf. as expressões “meu filho”, “meus filhos”, “Escuta, meu filho’*, tão freqüentes nos Provérbios.

Além desse ensinamento em família, o jovem israelita tinha muitas oca¬siões para instruir-se. Nas caravanas e junto aos poços ouvia cantar as “justi¬ças de Iahvé”, Jz 5.10-11. À porta da aldeia assistia aos debates dos Anciãos, aos julgamentos de litígios, às transações comerciais. A criança ia com seus pais aos santuários, I Sm 1.4,21, ou ao templo de Jerusalém, cf. Lc 2.41 s, onde ouvia cantar os salmos e narrar as recordações históricas que se ligavam a cada uma das grandes festas: a liturgia, como na Idade Média, era um podero¬so meio de instrução religiosa.

Alguns homens tinham especialmente a missão de ensinar o povo. Eram, em primeiro lugar, os sacerdotes, guardiães e instrutores da Lei, a tôrah, que significa etimologicamente “diretriz, ensinamento”. É provável que, muito cedo, se desse um ensinamento didático nos lugares de culto; o jovem Samuel  é confiado ao sacerdote Eli, I Sm 2.21,26; Joás é instruído pelo sacerdote Joiada, II Rs 12.3.

Os profetas também tinham a missão de instruir o povo, pelo menos tan¬to quanto a de predizer o futuro; a inspiração profética dava à sua pregação a autoridade de uma palavra de Deus. É certo que, durante o período monárquico, os profetas foram os mestres de religião e de moral do povo, os melhores, mesmo que nem sempre fossem os mais escutados. Ao lado deles, encontra¬vam-se os sábios, que ensinavam a arte de viver bem e cuja influência aumen¬tou a partir do Exílio, quando os sábios se confundiram com os escribas, e a educação moral combinou-se com o estudo da Lei. Seu ensinamento era comunicado nas reuniões dos Anciãos, Eclo 6.34, nas conversas dos comen¬sais, Eclo 9.16, mas também ao ar livre, à porta das cidades, nas ruas e nas esquinas, Pv 1.20s; 8.2s. Expressavam-se em sentenças bem forjadas, que se conservavam por tradição oral antes de compor coleções, Pv 10.1; 22.17; 25.1 etc.

Fora esse ensino, que ocorria quando havia oportunidade e todo mundo podia aproveitar, os profetas e os mestres de sabedoria reuniam ao seu redor discípulos, que recebiam uma formação mais constante, Pv 8.32; Is 8.16; 50.4. Também é provável que, como no Egito, na Mesopolâmia e entre os hititas existissem desde muito cedo, nas duas capitais, escolas de escribas onde se formavam os funcionários reais. Entretanto, um ensino escolar organizado apenas é atestado em uma época tardia. A palavra “escola”, bêt-midrash, se encontra pela primeira vez no texto hebraico de Eclo 51.23. Segundo uma tradição judaica, só no ano de 63 d.C. o sumo sacerdote Josué ben Guimla decretou que cada cidade e cada aldeia deveriam ter uma escola que as crian¬ças deviam freqüentar obrigatoriamente, a partir dos 6 ou 7 anos. Essa tradi¬ção é contestada por alguns eruditos que fazem remontar a instituição da ins¬trução pública à época de João Hircano, por volta de 130 a.C.

Tudo isso se refere unicamente à educação dos meninos. As meninas ficavam sob a direção de sua mãe, que as ensinava o que deviam saber para seu ofício de mulher e para o cuidado de uma casa.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.