20 de setembro de 2013

Roland de Vaux - Os Filhos: A circuncisão

A circuncisão consiste na extirpação do prepúcio. Devia ser feita ao oitavo dia depois do nascimento, segundo a lei de Lv 12.3 e o relato sacerdotal da aliança com Abraão, Gn 17.12. Segundo a mesma tradição, Isaque foi circuncidado efetivamente ao oitavo dia, Gn 21.4. Segundo Êx 4.25 e Js 5.2-3, utilizavam-se facas de pedra, o que indica a antiguidade do costume; depois empregaram-se instrumentos de metal.

A operação era realizada pelo pai, Gn 21.4, pela mãe no caso sumamente particular de Êx 4.25, e, mais tarde, por um médico ou um especialista. I Mb 1.61.

O lugar era indiferente. Em todo caso a circuncisão não foi nunca realizada no santuário nem por sacerdotes. O ferimento sarava apenas depois de vários dias de repouso, Gn 34.25; Js 5.8; esses dois textos referem-se à circuncisão de adultos.


Os israelitas deviam circuncidar não só a seus filhos, mas também a seus servos, israelitas ou estrangeiros, Gn 17.12-13. Era uma condição requerida para que os estrangeiros, servos ou residentes, pudessem tomar parte na Páscoa, festa da comunidade israelita, Ex 12.43-49.

Segundo os relatos bíblicos, a circuncisão começou a ser praticada pelo clã de Abraão, depois de sua entrada em Canaã e foi prescrita por Deus como sinal da aliança estabelecida com Abraão, Gn 17.9-14, 23-27. O costume con¬tinuou sendo observado pelos patriarcas, Gn 34.13-24, e também no Egito, segundo Js 5.4-5. Entretanto, segundo o relato de Ex 4.24-26, parece que Moisés não foi circuncidado. A circuncisão, esquecida no deserto, foi restabelecida na entrada na terra prometida, Js 5.4-9.

É difícil definir a extensão dessa prática no Oriente antigo, por causa da incerteza e da contradição dos testemunhos. No Egito, os baixos-relevos com¬provam-na desde o III milênio a.C.; os textos a mencionam, Heródoto fala dela, mas certas múmias não estão circuncidadas. Parece, pelo menos, que a circuncisão era obrigatória para o sacerdote. Contudo, Js 5.9 parece designar a incircuncisão como “a desonra do Egito”. Pelo contrário, Jr 9.24-25 enume¬ra os egípcios juntamente com Judá, Edom, Amom, Moabe e os árabes, como circuncisos na carne, mas incircuncisos de coração. Ez 32.21-30 envia o faraó e seu exército ao sheol, juntamente com os incircuncisos, com os assírios, os elamitas, as tropas de Meseque e de Tubal, os edomitas, todos os príncipes do norte e todos os sidônios. Flávio Josefo diz que os idumeus (edomitas) foram obrigados por João Hircano a circuncidar-se. Mas segundo Heródoto, todos os fenícios e sírios da Palestina eram circuncidados: Aristófanes diz o mesmo dos fenícios. Segundo os poetas pré-islâmicos, os antigos árabes se circunci¬davam e, segundo o Pseudo-Bardesanes, os romanos tentaram proibir essa prática na Arábia.

Se considerarmos os povos com os quais os israelitas estiveram em con¬tato imediato na Palestina, os filisteus são incircuncisos, I Sm 18.25-27; cf. Jz 14.3; 1 Sm 17.26,36, e o termo “incircunciso” basta, às vezes, para designá-los, Jz 15.18; I Sm 14.6; 31.4. Isso os distingue dos cananeus, que nunca são chamados assim e que, por conseguinte, deviam ser circuncisos. Há, sem dúvida, o episó¬dio dos siquemitas, que foram obrigados a circuncidar-se para tomar por esposas as filhas de Israel, Gn 34.13-24, mas os siquemitas são “heveus”, segundo (in 34.2 (horitas, no texto grego), isto é, um reduto de população não semita.

Parece, pois, que a circuncisão não distinguia os israelitas da população semita que eles substituíram ou com a qual se misturaram na Palestina. Pelo contrário, parece que adotaram esse costume quando se instalaram em Canaã, cí. Gn 17.9-14, 23-27; Js 5.2-9. Mas essa prática assumiu entre eles um senti¬do religioso.

Primitivamente, e em geral, parece que a circuncisão era um rito de inicia- çao para o casamento e, por conseguinte, para a vida comum do clã. Isso é certo tratando-se das numerosas tribos da África que a praticam atualmente, e é muito provável tratando-se do antigo Egito, onde a circuncisão se realizava no momento da puberdade. Em Israel, o costume parece ter dito originaria¬mente o mesmo sentido: a história dos siquemitas a relaciona explicitamente com o casamento, Gn 34; o episódio obscuro de Êx 4.24-26 parece igualmente
referir-se a ele: a circuncisão simulada de Moisés faz dele um “esposo sangui¬nário”. A isso pode-se acrescentar que os termos que designam em hebraico o jovem esposo, o genro e o sogro, vêm da mesma raiz hatan, que em árabe significa “circuncidar”.

Os empregos metafóricos confirmam essa interpretação: o coração “incir- cunciso”, Jr 9.25, é um coração que não compreende, a que pode-se opor Dl 10.16; 30.6; Jr 4.4; o ouvido “incircunciso” é um ouvido que não escuta, Jr 6.10; os lábios “incircuncisos” são incapazes de falar, Êx 6.12,30. Estima- se, pois, que a circuncisão capacita para uma vida sexual normal e é, portanto, a iniciação para o casamento.

Mas esse significado se desvaneceu quando começou a fazer-se a operação depois do nascimento. Sobretudo, a religião deu ao rito um valor mais elevado. Indicava a agregação à vida do grupo, à comunidade de Israel, cf. Gn 34.14-16; Ex 12.47,48. Por isso ele é prescrito como uma obrigação e como sinal da aliança que Deus conclui com Abraão e seus descendentes, Gn 17.9-14 (tradi¬ção sacerdotal).

Entretanto, a importância religiosa da circuncisão foi afirmando-se len¬tamente. As leis do Pentateuco só a mencionam incidentalmente a propósito da participação na Páscoa, Êx 12.44,48, a propósito da purificação da mulher depois do parto, Lv 12.3, em comparação com os primeiros frutos das árvores, Lv 19.23. Somente depois do Exílio a circuncisão veio a ser o sinal distintivo da pertença a Israel e a Iahvé. E isto é explicável: os exilados viviam no meio de povos que não a praticavam e parece que, pela mesma época, os vizinhos próximos da Palestina haviam progressivamente abandonado o costume. Assim se justificariam certos testemunhos antigos: Ez 32.30 inclui todos os sidônios entre os incircuncisos; segundo Jt 14.10, os amonitas o eram também; segun¬do Flávio Josefo, João Hircano obrigou os idumeus a circuncidar-se. O mes¬mo Josefo diz também que em sua época, primeiro século de nossa era, os judeus eram os únicos habitantes da Palestina que se circuncidavam.

Então se afirmou com mais força a importância da circuncisão como sinal da aliança com Deus. Os prosélitos eram obrigados a ela, cf. as contro¬vérsias judeu-cristãs, At 15.5s; 16.3; Gl 2.3. As primeiras menções de pagãos que se circuncidam aceitando a fé judaica encontram-se em Jt 14.10 e em Et 8.17 (grego), que são dois escritos tardios. Na época do Novo Testamento, a obrigação da circuncisão era mais importante que a do sábado, Jo 7.22-23.

Esse costume que suscitava os escárnios dos pagãos (Marcial, Persio, I-Iorácio), teve que lutar contra a invasão dos costumes gregos, que não o admitiam. Antíoco Epífano o proibiu na Palestina e castigou cruelmente os recalcitrantes, I Mb 1.60-61; II Mb 6.10. Os judeus que cediam ao helenismo, procuravam dissimular o sinal de sua circuncisão, I Mb 1.15; cf. I Co 7.18.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.