30 de setembro de 2013

Gleason L. Archer - Sacrifício da Filha de Jefté

Uma palavra final deve ser dita sobre um episódio em Juizes
que tem causado muita perplexidade e que freqüentemente tem levado a conclusões errôneas. Aparentemente, Jefté ofereceu sua
filha como sacrifício humano no altar, para cumprir sua promessa
“apressada” (11:30,31; cf. v. 39). O termo “holocausto” é ’õlah,
que em todos os outros trechos significa um sacrifício de sangue
totalmente consumido no altar pelo fogo. Mas, conforme Keil e
Delitzsch demonstram, a interpretação de ter havido um caso de
sacrifício humano não pode resistir à luz do próprio contexto.

1. O sacrifício humano sempre foi entendido, desde os dias
de Abraão (quando Deus substituiu um carneiro pelo filho de

Abraão, Isaque) como sendo uma ofensa e uma abominação perante
o Senhor, sendo expressamente denunciado e proibido em Levítico
18:21; 20:2-5; Deuteronômio 12:31; 18:10. Não existe nenhuma
evidência que qualquer israelita tenha oferecido um sacrifício hu-
mano antes da época de Acaz (743-728 a.C.). É inconcebível que o
piedoso Jefté pudesse ter suposto que teria agradado a Deus ao
perpetrar tal crime e abominação.

2. À sua filha permitiu-se um período de dois meses para la-
mentar, não a sua morte iminente, mas sua virgindade, (betülím)
(Juizes 11:37,38).

3. Declara-se no versículo 39 que depois de Jefté ter cumprido
seu voto, oferecendo-a como “holocausto”, ela “não conheceu ho-
mem algum”. Esta seria uma observação completamente sem razão
de ser se ela tivesse sido morta. Mas seria perfeitamente relevante
se ela tivesse sido dedicada ao serviço do Senhor à porta do taber-
náculo durante o restante da sua vida. (Quanto à referência às
mulheres devotas que faziam serviços em conexão com o culto na-
cional, cf. Êx. 38:8 e I Sm 2:22, semelhantemente, Ana, na época
de Jesus — Lucas 2:36,37). O patético nesta situação não está
no fato de a filha de Jefté se consagrar ao culto divino, mas sim,
na certa extinção da linhagem de Jefté, sendo ela sua única filha.
Tanto ele como ela choraram sua virgindade. Não houve aqui ne-
nhum caso de sacrifício humano. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.