25 de setembro de 2013

Gleason L. Archer - Livro de Juízes: Contribuições Arqueológicas à Compreensão desta Época

Já foi suficientemente debatido o assunto da relevância das
cartas de Tell el-Amarna ao período de conquistas que se seguiu à
época do General Josué. Pode ser dito com justiça que os dados
fornecidos por estas cartas revelam que a Conquista hebréia, de-
pois dos sucessos originais oriundos do esforço combinado, começou
a adotar um passo mais lento. Muitas cidades-estados derrotadas
nas batalhas com Josué conseguiam reocupar suas capitais, conti-
nuando sua luta pela sobrevivência. Laquis, por exemplo, fora re-
dondamente derrotada por Josué entre 1400 e 1390 a.C. (cf. Josué
10:32), mas parece que a cidade não foi destruída totalmente pelo
fogo até cerca de 1230 a.C. Escavações nas ruínas revelaram frag-
mentos de cerâmica com anotações em letras hieráticas egípcias,
registrando a entrega de trigo até ao “ano 4” de algum Faraó,
que, de acordo com as séries do tipo de cerâmica, segundo Albright
e alguns outros, seria Merneptá. Vestígios da Idade de Bronze

Posterior em Debir indicam que não foi destruída antes de cerca
de 1200 a.C. Os arqueólogos datam a queda de Megido entre 1150 e
1050. É claro que não seria necessário que os hebreus tivessem
destruído todas as cidades que originalmente tomaram por assalto,
mas, no decurso do tempo, enquanto crescia a população dos he-
breus, conseguiram controlar mais eficazmente o território que o
Senhor lhes tinha concedido.

Outro aspecto importante deste período foi a persistência da
autoridade do Egito, pelo menos até o século doze a.C. Já foi dito
que Josué e Juizes não mencionam a continuação do poderio egíp-
cio ao longo das rotas comerciais através da Palestina. Confor-
me já foi mencionado, este silêncio não se explica de maneira
satisfatória pela teoria duma data avançada para o Êxodo, sendo
que o relatório dos hebreus não menciona a invasão vitoriosa de 
Merneptá em 1229 a. C. nem a presença de autoridades egípcias
em centros importantes tais como Megido e Bete-Seã, onde foram
descobertas inscrições com o nome Ramsés III (1198-1167). Um
sincronismo cuidadoso foi calculado por John Garstang, entre os
vários períodos de “descanso” mencionados em Juizes e o estabe-
lecimento de controle eficaz na Palestina, da parte dos egípcios. O
policiamento das vias principais de comércio pelas tropas egípcias
serviria naturalmente como uma inibição contra a agressividade
das nações eananitas sem necessariamente afetar de maneira drás-
tica a vida dos próprios israelitas, que se conservaram, em geral, nos
altos montes (cf. Jz 1:19), durante o estágio inicial da sua ocupa-
ção. Conseqüentemente, não haveria muitos motivos de se men-
cionar nominalmente os egípcios, e pode ser que houvesse uma
certa relutância em se fazer qualquer referência a eles.

Quanto aos filisteus, considerável debate tem sido dedicado
à questão de quando começaram a formar colônias ao longo da
costa sudoeste da Palestina. Por causa duma inscrição de Ramsés
III em Medinet Habu registrando uma vitória naval contra os
filisteus, cerca de 1195 a.C., muitos críticos têm suposto que foi
esta derrota que sofreram nas mãos dos egípcios que os forçou a
estabelecer-se ao longo da costa que depois recebeu seu nome.
Concluem, portanto, que qualquer alusão aos filisteus antes de
1195 a.C. seria necessariamente um anacronismo, seja em Gênesis
21, seja em Josué 13 ou Juizes 3. Segundo esta interpretação, nem
Abraão nem Isaque poderiam ter achado filisteus em Gerar, que é
o que a narrativa declara (cf. Gn 21:32,34; 26:1,8,14,15,18). Mas
o fato que atacantes filisteus tivessem sido repelidos por Ramsés
III, recuando depois para o litoral da Palestina, não constitui ne-
nhuma prova de que não tivesse havido filisteus ali antes daquela
época. As referências bíblicas mostram que eram povos heterogê-
neos incluindo vários grupos distintos de caftorins, queftins, que-
reteus e peleteus. A probabilidade é que vários grupos tenham vin-
do em ondas sucessivas de migrações, da ilha de Creta. Mesmo na
época minoana, os habitantes de Creta eram comerciantes ativos
muito antes da época de Abraão. Como tais, teriam todos os incen-
tivos para estabelecer centros de negócios ao longo do litoral da
Palestina visando seu comércio internacional.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.