11 de setembro de 2013

Gleason L. Archer - Juízes: A data da composição

As evidências internas indicam algum período na monarquia
primitiva, antes da tomada de Jerusalém por Davi (cerca de 990
a.C.). A expressão que ocorre em 18:1 e 19:1, “Naqueles dias não
havia rei em Israel”, parece indicar que o Livro foi composto du-
rante o primeiro período da monarquia, antes da triste época do
reino dividido, quando, mais uma vez, aborrecimentos e desastres
vieram afligir a nação. A maior probabilidade é de que o livro foi
completado no começo do reinado de Davi; mas Juizes 1:21 “os
jebuseus habitam com os filhos de Benjamim em Jerusalém, até
ao dia de hoje” é interpretado de maneira mais razoável se enten-
demos que se refere ao período antes de Davi tomar Jerusalém,
escolhendo-a para ser a capital do reino hebreu. Juizes 1:29 de-
clara que os cananitas ainda estavam morando em Gezer para não
se submeterem à soberania israelita. Isto certamente indica um
período antes do rei do Egito ter tomado a cidade de Gezer, dan-
do-a a Salomão como dote para sua filha (cerca de 970). Alguns
trechos do Livro demonstram um ponto de vista que pertence a
uma data anterior à época de Davi, sendo que 3:3 refere-se a

Sidônia como sendo a cidade principal da Fenícia, e não Tiro (que
começou a sobrepujar a Sidônia pouco depois do século doze a.C.).
Uma dificuldade aparente, quanto a uma data recuada de
composição, aparece em Juizes 18:30: “Jônatas, filho de Gérson,
o filho de Manassés, ele e seus filhos foram sacerdotes da tribo
dos danitas, até ao dia do cativeiro da terra”. Se esta expressão
se refere à conquista assíria em 732 quando Tiglate-Pileser III
anexou o território do norte do reino de Samaria, este versículo pa-
receria pertencer ao fim do oitavo século, se não depois.

Unger (IGOT 292) sugere que este versículo possa ter sido
um acréscimo da parte de algum redator — uma proposição um
pouco duvidosa. Young e Steinmueller formularam a pergunta 
quanto à palavra “terra” (,ereç) pensando que talvez original-
mente seria “arca” (,ãrõn) que no hebraico, exigiria apenas a mu-
dança duma única letra (nün final, no lugar de tsadhe final) para
corrigir a diferença. A frase assim alterada seria então “até o dia
do cativeiro da arca”, uma referência ao desastre sofrido pelos
israelitas na batalha de Siló no ano da morte de Eli. Não é porém
muito fácil perceber qual relação isto teria com o que aconte-
cia na divisa do extremo norte do território de Israel, na tribo de
Dã. Apesar disto, Moeller (GATE 150) indicou o estreito relacio-
namento entre Juizes 18:30 e I Samuel 4:21 (“Foi-se a glória de
Israel... porque a arca de Deus foi tomada...”). Em ambos os
versículos há o mesmo verbo galafo (“ir ao cativeiro”) sendo empre-
gado, de maneira que a forma verbal aparece em Samuel e o subs-
tantivo em Juizes. Além disto, há uma estreita conexão em Juizes
18:31 entre a instituição do culto idólatra em Dã e a existência do
culto legítimo em Siló. A luz destes dados, pode talvez ser justifi-
cada a sugestão de que “terra” seria originalmente “arca”.

Mas uma terceira sugestão mais simples, seria que “o cati-
veiro da terra” fosse alguma esmagadora derrota militar, seguida
por uma deportação, que acontecera nalgum período posterior aos
Juizes, no decurso de guerras sangrentas das fronteiras. Situados
nos últimos limites setentrionais, os habitantes da cidade de Dã
poderiam tão facilmente ser conquistados por invasores estrangei-
ros, da mesma forma como eles mesmos tinham tomado a área dos
habitantes anteriores (cf. Juizes 18:27,28). Interpretado assim, Jui-
zes 18:30 refere-se simplesmente à terra de Dã, e não indica neces-
sariamente um período de composição posterior ao reinado de Davi.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.