2 de setembro de 2013

Eugene H. Merrill - Uma teologia de Números: da peregrinação à possessão

Um componente principal da promessa do concerto aos pais e à nação de Israel
era, como já mencionado, a herança e ocupação de uma terra. Esta terra era represen-tativa da Terra inteira. Como o homem foi colocado no jardim do Éden para cuidar e
dominar sobre ela, assim Israel seria colocado em Canaã para cuidar e dominar sobre
ele como terras feudais do grande Rei. Afinal, quando os propósitos salvíficos do Se-
nhor tiverem sido cumpridos, toda a Terra — na verdade, toda a criação — ficará sob o governo do gênero humano, que dominará sobre todas as coisas.

Temos de ver a ocupação de Israel sobre Canaã como uma fase neste pro-
cesso de reivindicar toda a criação para o Criador. Canaã é um microcosmo
da Terra, uma parte pelo todo (pars pro toto) que fica sob o controle de forças

ímpias e anti-deus que têm de ser derrotadas antes de Israel poder entrar no des-
canso. O ato da eleição e redenção, pelo qual o Senhor tirou os filhos de Israel
do Egito, e o encontro no Sinai, pelo qual eles se tornaram servos sacerdotais,
requeriam, para o cumprimento, uma estrutura geográfica na qual eles pudes-
sem exibir o significado do status do concerto e do qual eles pudessem engajar
as nações do mundo no ministério de reconciliação. Como Tabernáculo, Canaã
seria o foco da residência do Senhor entre os homens, o lugar onde a sua sobera-
nia acharia expressão histórica através do povo especialmente escolhido.

A entrada na terra exigia peregrinação e conquista. Entre a promessa do con-
certo e a posse do concerto está em vigor um processo de viagem rigorosa através
de oposição hostil de terreno e terror. Israel tinha de entender que a ocupação da
terra só seria alcançada através de muito esforço e trabalho árduo, pois Canaã,
como a própria criação, estava debaixo do domínio estrangeiro e tinha de ser ar-
rancada à força, pelo braço forte do Senhor que lutaria em prol do seu povo.
A teologia da peregrinação e conquista se expressa nas narrativas de Nú-
meros.  Em termos claramente militares, Moisés registrou o censo das tribos
(Nm 1) e a organização posicional das tribos no acampamento (Nm 2) na ex-
pectativa de partirem do Sinai em direção a Canaã. Os levitas, os guardiões da
habitação do Senhor, tinham de estar em volta do Tabernáculo, cercando-o. Es-
tavam particularmente pertos, tanto geográfica quanto funcionalmente, porque
representavam os primogênitos de Israel que o Senhor poupou no Êxodo (Nm
3.12,13,44,45; 8.5-26). A sua responsabilidade era cuidar do santuário (Nm
4), pois o ministério do primogênito sempre é servir o pai e proteger-lhe os
interesses. As suas necessidades, como também as necessidades dos sacerdotes,
seriam atendidas pelas ofertas da comunidade a cujo favor eles empreendiam o
papel de mediação (Nm 18).

A peregrinação não implica em cessação de obrigação relacionada ao culto
ou de regulamento social. De fato, as circunstâncias peculiares do trânsito nô-
made no deserto exigiam a redeclaração de princípios e práticas já enunciados.
Por conseguinte, havia estipulações especiais concernentes a lepra (Nm 5.1-4),
as acusações de adultério (w. 11-31), o voto do nazireu (6.1-21), a Páscoa (9.1-
14), as ofertas (15.1-31,37-41; 28.1-29.40), a purificação (Nm 19), os votos (30.1-16) e a herança (36.1-12). Fundamentadas na declaração do concerto
original, estas estipulações refletem emendas e modificações essenciais ao povo
peregrino que aguardava ansiosamente a passagem de um estilo de vida nôma-
de, com toda a sua impermanência, para um estilo de vida de assentamento
sedentário em uma terra que seria seu lar para sempre.

A própria viagem é de significação teológica, pois serve de forma paradigmá-
tica como a experiência de todo peregrino que abre o seu caminho da promessa
para a possessão. Na véspera de iniciar a viagem — logo depois que o Tabernáculo
fora montado e investido com a plenitude da glória de Deus — os líderes das tri-
bos de Israel apresentaram enormes cargas de tributo para ser usado no serviço do
Tabernáculo (Nm 7.1,2,5). Desta maneira, eles ratificaram o compromisso, como
líderes das suas respectivas tribos, de apoiar o ministério contínuo dos sacerdotes
e levitas. A viagem estava a ponto de começar, um movimento sancionado e ates-
tado pela resposta generosa do povo do concerto. Foram dirigidos à terra da pro-
messa onde experimentariam as coisas boas das quais o Senhor falara (10.29).

Embora o Senhor tivesse comandado a marcha e ido diante do povo como guerreiro poderoso e conquistador (Nm 10.33-36; 14.8,9), eles, inúmeras vezes, não confiaram nEle para ajudá-los a completar a viagem com segurança. Murmuraram contra o Senhor (Nm 11; 20.1-13), rebelaram-se contra a liderança de Moisés (Nm 12-14; 16-17) e engajaram-se em denotada apostasia e repúdio ao concerto (Nm 25).
Apesar de tudo isso, o Senhor permaneceu fiel ao penhor do concerto. Ali-
viou o seu servo Moisés, fornecendo líderes cheios do Espírito (Nm 11.16-30;
13.30; 14.24), atendendo às necessidades físicas (11.31-35; 21.4-10) e derro-
tando os inimigos que se levantavam contra eles de todos os lados (21.1-3,21-
32,33-35; 22-24; 31.1-11). Constantemente, reafirmava o compromisso com
eles (11.23; 14.20; 15.41), até por intermédio do falso profeta Balaão (23.19-
24; 24.3-9,15-24). Israel poderia ser (e foi) infiel, mas Deus não pode negar a
si mesmo. Aquele que elegera e redimira, que fizera concerto e viera a habitar
entre o povo, lhes garantiria o sucesso na peregrinação até à terra de descanso.

Como garantia desta promessa, Deus ordenou que Moisés espiasse a terra
(Nm 13) para que o povo soubesse, em primeira mão, da beleza e abundância
que os aguardava (13.27). Embora a rejeição do relatório minoritário de Calebe
e Josué resultasse no adiamento do prazer da terra para todo o Israel, algumas
tribos — Rúben, Gade e parte de Manassés — tiveram um antegozo na forma
dos territórios transjordânicos ocupados pelos amorreus. A estas tribos, o Se-
nhor concedeu essas regiões que, ainda que estivessem fora das fronteiras da
Terra Prometida conforme foram descritas aos patriarcas, tornara-se pelo me-
nos por certo tempo uma porção da partilha de Israel.

Quanto ao restante da terra, a própria Canaã, Moisés designou sua distribui-
ção antes mesmo que se tornasse de Israel pela conquista. O princípio está claro: as
promessas de Deus já estão disponíveis para a apropriação. Mas até que a apropria-
ção seja realmente efetivada, a promessa só permanece em potencial. O Senhor or-
denou que os habitantes de Canaã fossem expulsos, que os ídolos fossem destruídos e que as terras fossem possuídas pelo povo escolhido (Nm 33.50-56). Isto tornaria
possível a divisão da terra por tribo e a designação em cada uma delas de cidades
para os levitas (35.1-8), cidades de refúgio (w. 9-28) e outra partilha (36.1-12).
O terreno estava preparado para a conquista e ocupação da terra que Deus
prometera aos patriarcas e ratificara para Moisés e Israel. Histórica e geografica-
mente, o povo do concerto chegara ao limiar do cumprimento deste elemento
crucial da relação do concerto. Restava apenas atravessar o rio Jordão, conquis-
tar e ocupar a terra, e dominá-la como a expressão do domínio divino na Terra.
Mas esse passo seria dado por uma nova geração que tem de elaborar as exigên-
cias do concerto em um ambiente novo e diferente, um ambiente de existência
permanente em uma situação urbanizada. Isso exigia que os sucessores do povo
do concerto original afirmassem uma declaração modificada do concerto.

EUGENE H. MERRILL

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009