13 de setembro de 2013

Eugene H. Merrill - A revelação divina: seus meios

Um dos principais meios pelos quais Deus se revelou é nos acontecimen-
tos históricos, quer dizer, por atos que a comunidade de fé pudesse reconhecer
como divinos.  Para os filhos de Israel nas planícies de Moabe, estes atos com-
punham a constelação de ações poderosas que o Senhor exibira diante deles e a
favor deles desde os dias dos patriarcas até o presente momento. Foi com base
em tais intervenções históricas que o Senhor poderia reivindicar ser Soberano.

Em outros textos do Antigo Testamento, o ato fundamental de Deus é a
própria criação, mas aqui o assunto é menos cósmico. O foco de Deuteronômio
não está nos interesses universais de Deus, mas nos propósitos especiais para
o seu povo. Isto significa que o primeiro ato envolveu a seleção e chamada dos
antepassados patriarcais, uma chamada que o Senhor estabeleceu na função de

seletor (Dt 26.5-9; 10.22; 32.15-18).

A eleição de um povo, acompanhada pelas promessas quanto à imple-
mentação bem-sucedida, se expressou séculos depois no evento do grandioso
êxodo que, junto com a subsequente experiência do deserto, estabeleceu o Se-
nhor como Redentor do seu povo (Dt 3.24; 4.3,20,34-39; 5.6; 6.12,21-23 e
alhures).  Aquele que os chamara pela graça eletiva endossou a chamada his-
toricamente pelo ato de libertá-los de um soberano opressivo para que o povo
entendesse a fidelidade e o poder incomparável de Deus.

Esse poder esteve particularmente evidente para os israelitas quando o Se-
nhor revelou o braço a favor deles como guerreiro. Ele derrotara Seom e Ogue
(Dt 1.4) e humilhara faraó (1.30). Ele continuaria obtendo vitória sobre os
inimigos nos dias vindouros (7.1,2,20-24; 9.3-5; 20.4,13; 21.10; 23.14; 31.4),
provando a todos que Ele realmente é digno de obediência e louvor. A luta
trans-histórica com os domínios do mal e das trevas achou, e acharia, expressão
histórica no sucesso de Israel no campo de batalha.

As intervenções do Senhor a favor dos israelitas mostram que Ele é um benfei-
tor, um protetor, cujo cuidado evidenciou-se na concessão da graça multiplicando-
lhes os habitantes (Dt 1.10; 10.22) e concedendo-lhes prosperidade física e material
(32.15-18). Ser chamado e liberto pelo Senhor é entrar em uma vida de bênçãos. A
vassalagem exige compromisso, mas também traz consigo segurança e prosperidade
que só um Senhor beneficente e inesgotavelmente rico pode prover.

Além disso, as promessas de Deus não terminaram com a atual experiência
de redenção, pois um prospecto glorioso jazia à frente. Ele levaria o povo a uma
terra que mana leite e mel, onde eles participariam de bênçãos que nenhuma
nação jamais experimentara (Dt 7.12-16; 11.13-15; 12.20,29; 19.1,8; 28.1-14;
30.3- 9; 31.3; 33.2-29). Por outro lado, a desobediência aos mandatos do concerto invalidaria estas bênçãos e atrairia o castigo do Senhor. Aquele que fora
Salvador e Benfeitor tornar-se-ia Juiz (4.27; 28.15-68; 31.17; 32.19-43).

Além da auto-revelação nos acontecimentos, na história, o Senhor revelou-se
como soberano na teofania. Desta maneira, o esplendor glorioso do Rei contribui
para a aura de majestade e poder e, assim, é convincente da dignidade e autoridade.
Quase sem exceção, a revelação teofânica deu-se na forma de fogo e, do oposto, es-
curidão (Dt 1.33; 4.11,12,33,36; 5.4,22-26; 9.10,15; 10.4; 33.2; cf. SI 50.2; 80.2;
94.1). O Senhor é Deus absconditus (Deus absconso), aquEle que continuamente se
retira na auto-revelação. A escuridão fala da sua transcendência, seu mysterium, sua
inacessibilidade. Por outro lado, o fogo representa a imanência, a possibilidade de
ser conhecido mesmo que de modo limitado (cf. Ez 1.4,27,28; Dn 7.9; Ap 1.14). 

A relação do concerto indicava a existência real de ambas as partes no acordo: o
Senhor e Israel. Mas o Senhor era diferente de todo rei humano por mais remoto e
majestoso que este fosse. O Senhor é Deus e, como Deus, sempre tem de ser inefável e inalcançável. Como parceiro do concerto, essa distância entre Ele e o povo tinha de ser atravessada para que a relação tivesse de ter algum tipo de realidade epistemológica e ontológica. A teofania era o meio de tratar desta necessidade nos tempos do Antigo Testamento, um meio que se sobrepujou somente no Novo Testamento com a encarnação da deidade no homem, o Deus-Homem Cristo Jesus.

O terceiro meio da auto-revelação divina no contexto do concerto deute-
ronômico foi através da palavra. E importante observar que no antigo Oriente
Próximo e no Antigo Testamento não há distinção essencial entre ato e palavra,
pois o ato é produzido pela palavra e a palavra nunca é sem propósito efetivo. E
dinâmica, entélica,  propositada, criativa, poderosa (cf. Gn 1.3, etc.). Não exis-
te (como na filosofia grega, por exemplo) como abstração teórica ou neutra. Em
termos de revelação, e especialmente em Deuteronômio, é necessário vermos
a palavra poderosa como instrumento do concerto; a palavra do Soberano co-
manda e comunica, mas também efetua, capacita e cria. Elaboraremos este pon-
to mais tarde quando discutirmos Deuteronômio como o texto do concerto.

EUGENE H. MERRILL

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009