27 de setembro de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia de Deuteronômio: A revelação do Concerto (Parte 2)


As Estipulações Específicas. As estipulações específicas ocupam grande
parte do restante de Deuteronômio (12.1-26.15). Os propósitos são claramente
para elucidar mais o princípio básico do concerto dos capítulos 5 a 11 e defi-
nir precisamente os termos do concerto pertinentes às relações morais, sociais/
interpessoais/inter-raciais e de culto. A razão para o atual arranjo canônico do
material é difícil de se compreender," mas as considerações apresentadas a se-
guir honram, razoavelmente bem, as exigências literárias e teológicas.


(1) A exclusividade do Senhor e a sua adoração (12.1-16.17). O conjunto
de regulamentos expresso nesta seção começa com a atenção a um santuário
central (12.1-14), um lugar separado em contraposição a santuários oponentes
que não só tinham de ser evitados, mas destruídos, porque representavam a
suposta propriedade da terra por soberanos oponentes (w. 4,5,13,14).

Em relação ao santuário estão as ofertas e os sacrifícios. Particularmente
significativo é o sangue (w. 15-28), cuja sacralidade coloca-se em contraste ra-
dical com as noções pagãs de vida, sua fonte e seu sustento. A vida é comum aos
homens e animais; o seu meio — o sangue — é comum a todos. Para cada ser é
uma dádiva do próprio Deus (cf. Gn 9.4-7; Lv 17.10-14).

Os deuses pagãos (quer verdadeiramente existissem ou fossem apenas ima-
ginários) eram uma abominação (Dt 12.29-31), porque eles constituíam uma
reivindicação rival à soberania do Senhor. Os seus profetas eram igualmente
maus (13.1-19). Professavam ouvir a comunicação de outros deuses e, por isso,
tinham de ser mortos por ajudar e promover sedição e traição.

O Grande Rei, o Senhor, exige homenagem e tributo do povo. Estes,
porém, não podiam ser prestados a contragosto, mas tinham de ser feitos de
acordo com o princípio profundo e obrigatório. Em primeiro lugar, os animais
a serem oferecidos em sacrifício tinham de ser limpos (14.1-21). Isto foi esta-
belecido nem tanto por princípios higiênicos, mas pelo fato de que “filhos sois
do SENHOR, VOSSO Deus” (v. 1) e um povo santo e propriedade peculiar (v. 2; cf.
Ex 19.5,6). Quer dizer, a distinção arbitrária entre animais fala de Deus eleger
arbitrariamente Israel dentre todas as nações da terra.  

Mais um aspecto importante do tributo é o dízimo (Dt 14.22-29), cujo
propósito era atestar o fato de que o Deus era o Senhor da Terra e que os servos
do seu reino, particularmente os levitas, tinham de ser sustentados pela abun-
dância da terra. Outros cidadãos do reino também tinham de ser protegidos e
sustentados. Daí a ordem para a libertação de escravos a cada sete anos (15.1-
18). Isto assumia diversas formas: perdão da dívida entre irmãos (w. 1-6), uma
ilustração da graça perdoadora do Senhor e sua compaixão pelos pobres (v. 2);
consideração constante pelos pobres até mesmo entre os anos de liberação (w.
7-11), pois a pobreza entre os vassalos do Senhor era uma desgraça; e a conces-
são de liberdade a um servo ligado por contrato de ligação, caso desejasse ser
liberto (w. 12-18), era um rememorativo libertador da graciosa libertação feita
pelo Senhor no êxodo (v. 15).

A consagração do primogênito dos animais machos também era um ato
de tributo ao Senhor (Dt 15.19-23). Se fossem adequados, tinham de ser sa-
crificados e comidos diante do Senhor como flarnim, ou ofertas de comunhão
(cf. Lv 7.15-18). Caso contrário, podiam ser mortos e comidos pelos donos em
sua própria casa. Esta separação dos primogênitos era símbolo da libertação do
Senhor dos primogênitos de Israel na décima praga no Egito (Ex 13.2,11-16).
As principais ocasiões para a apresentação do tributo eram as três peregri-
nações festivas anuais ao santuário central, onde o Senhor recebia as ofertas (Dt
16.1- 17). A primeira ocasião, o conjunto da festa dos Pães Asmos e da Festa da
Páscoa (w. 1-8), era para celebrar a graça redentora de Deus em libertar o povo
da escravidão opressiva. A Festa das Semanas (w. 9-12) servia para lembrar
Israel do trabalho penoso no Egito (v. 12). A Festa das Cabanas (w. 13-17) co-
memorava a bênção de Deus na terra que Israel estava a ponto de possuir. Sua
significação original, com respeito à maravilhosa provisão de abrigo no deserto
onde Israel habitava em tendas, seria substituída pela Festa das Colheitas ates-
tando a abundância de uma vida estabelecida em Canaã. 

(2) A identificação e função dos oficiais do reino (Dt 16.18-18.22). Tendo
sido estabelecida a regência do Senhor e o protocolo apropriado pelo qual o
povo tinha de aproximar-se dEle, o texto do concerto passa a tratar dos líderes
humanos que o servem e exercem autoridade sobre a nação em geral. 

O primeiro destes líderes, os juizes e os sôfrim (“oficiais”), tinham de ser,
acima de tudo, justos e imparciais de acordo com o caráter do próprio Sobera- 
no (Dt 16.18-20). A base e a autoridade do julgamento deles eram o texto do
concerto, e o certo e o errado eram determinados pelo grau no qual havia fide-
lidade aos princípios do concerto (16.21-17.1). Em assuntos de fácil solução,
os juizes não precisavam ser envolvidos; os próprios cidadãos podiam tratar de
tais assuntos no tribunal da aldeia local (17.2-7). Em casos complicados que ex-
cedessem a jurisdição local, o apelo tinha de ser feito ao tribunal supremo onde
o sacerdote (o representante de Deus?) e o juiz (o representante do homem?)
julgariam de acordo com a tôrah e a mispat (17.11; cf. 2 Cr 19.5-11).

Quanto aos reis (Dt 17.14-20), tinham de ser israelitas escolhidos pelo
Senhor. O rei jamais tinha de confiar nos recursos humanos, mas sempre tinha
de observar a Torá (w. 18-20), porque ele era somente um vice-regente do Rei
dos reis e tinha de implementar a política do seu Soberano (cf. 2 Rs 11.12).
A liderança religiosa tinha de estar nas mãos dos sacerdotes levitas (Dt
18.1- 8), cuja tribo seria sustentada pelas ofertas do povo nas aldeias locais e no
santuário central. Como servos escolhidos do Rei, tinham o direito ao sustento
do erário público.

O último desses líderes tratados nesta subseção, os profetas, surgiriam no
futuro, mas as diretrizes para a sua natureza e função estão apresentadas no tex-
to do concerto na expectativa do tão esperado encontro com os falsos profetas
de Canaã (Dt 18.9-22). Os pagãos empregavam técnicas manipuladoras para
determinar a vontade dos deuses, por isso tais métodos eram proibidos para Is-
rael. O verdadeiro profeta e a sucessão profética falariam com autoridade divina
(“em meu nome”) e a mensagem podia ser comprovada pela semelhança com
Moisés e pelo cumprimento da palavra profetizada.

(3) O estabelecimento do direito civil (Dt 19.1-22.4). Básico a qualquer
sociedade (teocrática ou não), é um sistema de leis pelo qual seus integrantes se
governam e se protejam. Poderíamos dizer que esta é a lei na dimensão horizon-
tal em contraposição à lei relacionada ao culto que regulava a relação vertical
(entre Deus e o homem).

A primeira categoria do direito civil no código deuteronômico diz respeito
ao mais odioso dos crimes humanos, a tomada da vida humana (Dt 19.1-13).
Pelo fato de todo homicídio culposo resultar na morte de um vassalo compa-
nheiro (particularmente se ele for israelita), há a exigência de punição apropria-
da bem como de proteção apropriada para o acusado. Casos não premeditados
permitiam a proteção do vingador do clã e a exoneração eventual das acusações
de assassinato (cf. Nm 35.9-34). A premeditação requeria que o vingador execu-
tasse o assassino com a permissão dos anciãos locais (Dt 19.12,13).

A lei concernente à remoção das pedras de limite (Dt 19.14) era mais im-
portante que parece à primeira vista, pois era proteção contra a violação da dis-
tribuição territorial estabelecida pelo grande Rei.  Aquele que designou toda a 
Canaã para Israel designou cada uma das suas partes para os clãs e famílias que
têm de ocupá-la para sempre em nome do Senhor.

A acusação de injustiça ou prejuízo em qualquer caso, tinha de dar prote-
ção ao acusado para que ele não fosse vítima de mera disposição para vingança
ou capricho (Dt 19.15-21). O acusado tinha de ter sido visto no ato por pelo
menos duas testemunhas, não deveria ser condenado sem procedimento legal
adequado e tinha de ser castigado com justiça, se e quando a culpa fosse esta-
belecida.

A guerra, um mal necessário para a defesa dos interesses do Soberano,
tinha seu próprio conjunto de regulamentos (Dt 20.1-20).  Porque o Senhor
era Deus não só de Israel, mas também de toda a Terra, estes interesses esten-
diam-se além dos estreitos interesses de Israel. Ele era o Deus de Israel de modo
especial, e como tal, chefiaria o povo na batalha como Guerreiro divino (20.4).
Os assuntos locais do povo, como propriedades, responsabilidades familiares
e até timidez tinham de ser respeitados quando a convocação para a guerra
soasse. O inimigo “comum” tinha de ser permitido, por razões humanitárias,
que se rendesse e ficasse tributário. Com a recusa desta proposta, os homens
seriam mortos. Todos os povos da terra da herança (ou seja, Canaã) tinham de
ser postos sob herem, porque em termos do reino eles eram desesperadamente
impenitentes e representavam subversão em potencial.

Morte por assassinato, o homicídio culposo e a guerra, obvialmente não
esvaziavam as possibilidades. Ocasionalmente, haveria violenta morte humana
por causas desconhecidas (Dt 21.1-9). Neste caso, o populacho da aldeia mais
próxima da cena do crime tinha de matar uma bezerra em recompensa. Desta
maneira, como entidade coletiva, a aldeia seria absolvida da responsabilidade.
Finalmente, o direito civil tinha de lidar com relações interpessoais mistas:
a tomada de esposa dentre as prisioneiras de guerra (Dt 21.10-14); a proteção
de discriminação para com esposas “secundárias”, particularmente em termos do
direito de herança dos filhos (w. 15-17); o tratamento de filhos incorrigíveis e
rebeldes (w. 18-21); a disposição apropriada do cadáver de um indivíduo que fora
executado e publicamente exibido (w. 22,23; cf. Js 8.29; 10.26,27; Jo 19.31); e o
cuidado da propriedade perdida ou desabilitada do irmão (Dt 22.1-4).

(4) O estabelecimento da lei relacionada a culto (22.5-23.18).  Como
indicado acima, a relação de concerto entre o Senhor e Israel pressupunha uma
lei no plano vertical, um conjunto de diretrizes para regular precisamente a 
torma e a maneira de acesso do homem ao Deus santo. A arena na qual isto
ocorre formalmente é a adoração, mas porque não havia distinção básica entre o sagrado e o profano em Israel, todas as ações da comunidade e seus cidadãos
tinham de ser expressos em termos de pureza e retidão. Tudo o que podemos
fazer aqui é listar os exemplos que ilustram o que acarretava a lei no reino da
relação entre Deus e Israel.

As leis da pureza (Dt 22.5-23.18) lidam direta ou indiretamente com
Formas de separação e cuidam da segurança e dos indefesos (embora algumas
sejam difíceis de integrar, e testemunham da necessidade de Israel manter a
pureza e a separação relacionadas ao concerto: a proibição de usar roupa mista
22.5) ; a proteção dos pássaros progenitores (w. 6,7); a cerca da segurança em
telhados (v. 8); o uso de sementes, animais e tecidos misturados (w. 9-11); a
exigência de usar franjas na roupa por meio das quais se lembrar da Torá (v.
12; cf. Nm 15.37-41); as filhas da prostituição (Dt 22.13-21); o adultério (v.
22?; a infidelidade conjugal no noivado (w. 23,24); o estupro (w. 25-29); o
incesto (23.1); a disfunção sexual (v. 2); a negação dos direitos de comunidade
a filhos ilegítimos (v. 3); a negação de acesso de amonitas e moabitas à assem-
bléia (w. 8,9); a impureza de emissões e excrementos corporais (w. 10-15); o
refugio de escravos fugitivos (w. 16,17); e a proibição de prostituição sagrada
w. 18,19).

(5) O estabelecimento das leis das relações inter-pessoais (Dt 23.30-
25.19) . Esta categoria de estipulação é semelhante ao direito civil e sobrepõe-se
com este em certos pontos (cf. 21.10-22.4). Seu interesse principal era regular
a conduta apropriada entre os vassalos-cidadãos nas relações de um para um
em distinção às relações entre cidadãos e estrangeiros. O israelita não poderia
cobrar juros de empréstimos feitos a outro israelita, embora fosse permitido
cobrar de um estrangeiro (23.19,20). Os votos feitos a Jeová tinham de ser
cumpridos fielmente (w. 21-23). O fruto das plantações do vizinho podia ser
arrancado à mão sem penalidade (w. 24,25). O divórcio também foi cuidado-
samente regulado (24.1-4), como foi a liberação da responsabilidade outorgada
ao recém-casado (Dt 24.5).

Outras leis tratam de mós usadas como penhores (Dt 24.6), do seqüestro
׳v. 7), da lepra (w. 8,9), das garantias de empréstimos feitos aos pobres (w. 10-
13), do tratamento justo aos desamparados (w. 17,18), da respiga dos campos e
pomares (w. 19-22), da punição justa por crimes (25.1-3), do amordaçamento
do boi enquanto trabalha (v. 4), da lei do levirato (w. 5-10), do confronto cor-
poral injusto (w. 11,12), dos pesos e medidas justos (w. 13-16) e da destruição
de Amaleque (w. 17-19). Ao que parece, a última cláusula é resumo de toda a
legislação prévia concernente a elementos hostis e serve de preparação para a
próxima seção pertinente à conquista e à realização de festas na terra da pro-
messa.  

(6) O estabelecimento da lei da celebração e confirmação do concerto (Dt
26.1- 15). O documento da renovação do concerto, sinônimo do próprio Deute-
ronômio, não foi criado para o benefício da geração anterior à conquista. Tinha
de ser o fundamento para o pensamento e vida do concerto na terra da promes-
sa daquele dia em diante até ao fim da experiência do Antigo Testamento para
Israel. Regularmente e sem falta, a comunidade do concerto tinha de reunir-se
para recitar e celebrar o significado da tarefa como povo especial do Senhor.
Esta seção contém a ocasião para esta convocação anual, um evento teoló-
gico estreitamente associado com a Festa das Primícias (Dt 26.1-4). O ponto-
auge do ajuntamento era a recitação da relação histórica do concerto entre o
Senhor e Israel, uma associação que retrocedia a Abraão, passava pela curta
permanência egípcia e o êxodo, e chegava até o presente momento (w. 5-9). 
A colheita das primícias (os primeiros frutos) falava das promessas infalíveis
de Deus e incitava (ou deveria incitar) o povo ao compromisso renovado (w.
10,11).

Vemos outra evidência de compromisso (w. 10,11) na oferta do dízimo a
cada três anos para os levitas e os desamparados de Israel (w. 12-15). Com isto,
o benfeitor afirmaria perante o Senhor que ele fora fiel às exigências do concerto
e invocaria a intervenção continuada do Senhor na terra e no povo.
Exortação e Interlúdio Narrativo (Dt 26.16-27.10). Tendo exposto com-
pletamente as seções de estipulação, Moisés exorta o povo a cumpri-las de todo
o coração e alma. Isto conduziu a esta cerimônia de aceitação e afirmação do
concerto, parte indispensável do feitio do concerto para que tenha validez (cf.
Êx 24).

Embora devesse ter ocorrido tal cerimônia até mesmo em Moabe, não há
registro disso. Moisés exortou a multidão reunida a gravar os textos do concerto
em pedras caiadas quando entrassem na terra e levassem essas pedras consigo
para Siquém (Dt 27.4). Lá eles construiriam um altar no local exato do antigo
santuário de Abraão, e ofereceriam ofertas de flamim (comunhão), as mesmas
associadas com o feitio do concerto (v. 7; cf. Ex 24.5).

Em uma declaração notável, Moisés e os sacerdotes levitas clamaram para
o povo: “Vieste a ser por povo ao Senhor, teu Deus” (Dt 27.9). Em virtude de
terem se comprometido com as condições e reivindicações deste texto do con-
certo (renovação), eles se tornaram tanto o povo do Senhor como os seus pais se
tornaram na primeira entrega do concerto no monte Sinai. Claro que era esta a
razão da renovação do concerto.

As Maldições e as Bênçãos (Dt 27.11-28.68). Continuando a olhar para o
futuro, para a cerimônia de renovação do concerto em Siquém, Moisés tratou
do próximo elemento importante do conteúdo do concerto — as maldições e as
bênçãos. Com seis tribos no monte Ebal, seis no monte Gerizim e os levitas no 
entre eles, as maldições por violação do concerto e as bênçãos por obediên-
cia seriam solenemente recitadas e afirmadas pela nação.

Primeiro, vêm as maldições por desobediência às estipulações específicas
do concerto (Dt 27.15-26). Presumivelmente, bênçãos não-escritas comple-
mentariam essas e, assim, seriam bem entendidas. Depois, vêm as bênçãos por
obediência aos princípios básicos do concerto (28.1-14). Em seguida, constam
as maldições pertinentes à violação destas denominadas estipulações gerais (w.
15-68). E importante observar as cláusulas condicionais e motivacionais, es-
pecificamente as constantes nos versículos 15, 20, 45, 47 e 58. Estes dão a
entender que o julgamento vem por causa do descuido pelas grandes verdades
fundamentais das quais dependem as bênçãos do concerto do Senhor. Não há
lista de bênçãos de comprimento precisamente comparável aqui, porque as bên-
çãos estão implícitas na obediência à qual Deus chama o seu povo.

Exortação Final (Dt 29-30).  Depois de uma breve narrativa declaratoria
documentando a existência do concerto deuteronômico como o sucessor do
documento sinaítico (29.1), Moisés repetiu mais uma vez a história sagrada de
Israel (w. 2-9) e enfatizou a significação daquele momento presente no qual ele
se colocou diante de Deus para caucionar a vassalagem de Israel a Deus (w. 10-
13). O futuro, disse ele, seria repleto de oportunidades para servir o Senhor. Se
os israelitas falhassem, era certo que haveria o castigo de Deus, a ponto de serem
expulsos da terra da promessa (w. 14-29). Mas nem sequer isto frustraria a pro-
messa e a esperança do concerto, pois eles poderiam (e iriam) se arrepender e ser
restaurados à terra, voltando à posição de privilégio do concerto (30.1-10).

A seguir, em certo tipo de apelo às testemunhas (os céus e a terra - Dt
30.19) o Senhor convocou o povo para confirmar o compromisso e escolher a
vida e o bem em lugar da morte e do mal (v. 15). Fazer o primeiro era receber a bênção do Senhor, a bênção de “longura [de] dias [na] terra que o SENHOR
jurou a teus pais, a Abraão, a Isaque e a Jacó, que lhes havia de dar” (v. 20).
Testemunho e Continuidade do Concerto (Dt 31). Obviamente os do-
cumentos do concerto não retinham valor permanente se não fossem regular-
mente conservados para referência ou conforme exigisse a necessidade. Medidas
foram tomadas para a guarda e proteção nos arquivos do palácio ou outros
depósitos do registro público.

A narrativa em Êxodo do concerto do Sinai deixa claro que pelo menos os
Dez Mandamentos tinham de ser colocados na Arca do Concerto (Ex 25.16).
O livro de Deuteronômio (e possivelmente a Torá) pode ter sido conservado
em algum lugar especial no último Templo como dá a entender a história da
reforma de Josias (2 Rs 22.8). Pistas quanto à disposição do texto do concerto
deuteronômico são escassas no próprio Deuteronômio, embora a declaração
que “Moisés escreveu esta Lei, e a deu aos sacerdotes, filhos de Levi, que leva- 
vam a arca do concerto do SENHOR” (Dt 31.9,26) apóie a noção de depósito do
texto, especificamente no Templo.

Relacionado ao depósito do documento do concerto estava a necessidade de
continuar a implementação de suas estipulações através das gerações a seguir. Era
incumbência de Moisés como mediador do concerto, designar um sucessor que
ficasse entre o Senhor e o povo até que eles estivessem seguros na terra da promes-
sa e uma nova ordem monárquica se estabelecesse. Josué preencheu esse papel (Dt
31.1- 8), um ministério tão temeroso e importante que ele, como Moisés, teve de
ser confrontado pelo Senhor em toda a sua glória para que ele entendesse quem
era o Soberano do céu e da terra a quem ele tinha de servir (w. 14,15).

O “Cântico de Moisés” como Testemunha (Dt 32). A declaração do texto
também seria acompanhada pelo juramento das partes contratantes. No caso
do Senhor, o juramento era a promessa de maldição e bênção, promessa a ser
lembrada por Israel em conexão ao “Cântico de Moisés” (Dt 32). Como eles
cantariam isso nos anos vindouros seria como uma testemunha do Senhor con-
tra eles (31.19,21), da mesma maneira que os céus e a terra testemunharam
naquele dia em que se reuniram (v. 28). 

O povo recebeu a prescrição do “Cântico de Moisés”, que celebra a glória do
Soberano, pois o cântico e a totalidade da mensagem do concerto não eram pala-
vras ociosas, mas, como acentuou Moisés, eram vida (Dt 32.47). Ironicamente, o
próprio Moisés não viveria. Ele interrompera a fé com o Senhor em Meribá e não
apoiara a santidade do Senhor entre os israelitas (v. 51). A sua própria experiência
testificava da importância de saber e fazer a vontade de Deus como servo carrega-
do do privilégio de representá-Lo na terra. O fato de Moisés não entrar na terra
falava enfaticamente sobre a necessidade de Israel, como povo, guardar fielmente
o concerto para entrar na plenitude das bênçãos de Deus.

A Bênção de Moisés (Dt 33). Na expectativa da morte, Moisés pronunciou
uma bênção para as doze tribos no papel de mediador do concerto. A bênção
tomou a forma de declaração profética do favor a ser esperado pelas tribos como
recebedoras da graça do Senhor. Claro que a intenção deste discurso é assegurar
à nação escolhida que ela continuaria, muito tempo depois da morte de Moisés,
a ser o canal do alcance salvifico do Senhor para as nações da Terra.

Epílogo Narrativo (Dt 34). Ainda que não tecnicamente um elemento do
texto do concerto, a narrativa da morte de Moisés é teologicamente significati-
va: documenta um portento da fidelidade de Deus à promessa aos pais (w. 1-4);
relata a morte e enterro de Moisés como o fim da era do feitio inicial do con-
certo (w. 4-8); e redeclara o fato de que Josué é o sucessor de Moisés (w. 9-12).
Embora Moisés fosse sem precedentes como profeta a quem o Senhor conheceu
“face a face”, Josué, profeta e porta-voz do concerto para a próxima geração,
estava cheio com o mesmo Espírito de Deus que capacitara Moisés a realizar o
ministério da mediação entre o grande Rei no céu e o povo vassalo na Terra. 

CONCLUSÃO

Uma teologia do Pentateuco fundamentada e organizada em torno do
grande princípio do reino exarado em Gênesis 1.26-28 integra os materiais
multifacetados da revelação mosaica universal e patriarcal, de maneira eminen-
temente satisfatória. O mandato para o homem: “Frutificai, e multiplicai-vos, e
enchei a terra, e sujeitai-a” (Gn 1.28), embora expressivo dos propósitos funda-
mentais de Deus ter criado o homem, foi imediatamente frustrado pela rebelião
obstinada e queda do homem. Precisamos achar um meio de reparar esse lapso e
empreender mais uma vez e no final das contas cumprir as condições e objetivos
primitivos.

Esse meio tomou a forma de arranjo do concerto, pelo qual (1) a semente
da mulher esmagaria a cabeça do inimigo (Gn 3.15), (2) a raça pós-diluviana,
encabeçada por Noé, executaria o mandato original apesar da queda da hu-
manidade (9.1-7), e (3) Abraão e os seus descendentes constituiriam um povo
escolhido que demonstraria ao mundo das nações o que significa ser o povo do
Senhor e que também forneceria o canal da graça redentora por meio da qual
o mundo ouviria a mensagem de reconciliação e seria levado à comunhão do
concerto com o Senhor (12.1-3; 15.1-19; 17.1-14; 22.15-18).

Em outras palavras, a promessa e compromisso unilateral do concerto fei-
to aos patriarcas era que eles gerariam um povo que seria servo do Deus Sobe-
rano; um servo encarregado com o privilégio e responsabilidade de preencher
a lacuna entre esse Deus transcendente da criação e as criaturas feitas à sua
imagem, a quem Ele propôs restaurar aos propósitos para os quais Ele os levara
a existência. Essa promessa achou expressão final em Israel com o seu povo, a
terra e o ministério.

O elaborado concerto mosaico revelado no Sinai é o instrumento por meio
do qual este povo se tornou o cumprimento da promessa e o veículo da men-
sagem redentora. Posto que de um tipo de suserano-vassalo e, portanto, teori-
camente condicional, foi inaugurado pelo Deus imutável, que deixou claro que
as promessas para Israel eram eternas e irrefutáveis, pouco importando o que
Israel fizesse ou não nos dias vindouros. A eleição de Israel e a sua redenção do
Egito hostil foram atos da graça divina sem condição prévia e sem a possibili-
dade de retração (Êx 2.24,25; 3.15-17; 4.21-23; 6.2-8). A aceitação da servidão
com todas as bênçãos é que eram condicionais (19.4-6). A criação de Israel
como povo-servo era fato completo, um ato do Deus soberano de acordo com
as promessas eternas. A função de Israel nessa estrutura dependia de obedecer
aos termos da servidão detalhados na revelação do Sinai.

Grande parte de Êxodo-Deuteronômio é a explicação desses termos. As
formas dos grandes textos do concerto — Êxodo 20 a 23 e a totalidade de
Deuteronômio — estão nos moldes dos tratados entre soberano e vassalo co-
nhecidos no antigo Oriente Próximo. Só por essa forma eles revelam a função.
Estabelecem diante de Israel as diretrizes nas quais ele tem de portar-se para 
desempenhar adequadamente as responsabilidades dadas por Deus. A obedi-
ência resultaria em bênçãos; a desobediência ou violação do concerto resultaria
em julgamento.

Nem o fracasso de Israel colocaria em perigo os propósitos de Deus, pois,
como deixa clara a revelação do Novo Testamento, o Senhor Jesus Cristo — o
Servo sofredor de Isaías — é em si um “novo Israel”, como é o seu Corpo, a
Igreja. Até que finde esta era, a Igreja foi comissionada a transmitir a mensagem
de redenção — tarefa que Israel não fez. Mas louvado seja Deus, a promessa
para Israel não foi ab-rogada — não pela desobediência de Israel ao Antigo Tes-
tamento ou pelo papel subseqüente da Igreja. Ele regenerará o seu antigo povo
e os qualificará nas eras vindouras para realizar o desígnio principal para o qual
Ele os chamara e os elegera (Lv 26.40-45; Dt 30.1-10; Jr 31.27-34; 33.19-26;
Ez 36.22-38; Rm 11.25-32). Esta é a Teologia do Pentateuco. 

EUGENE H. MERRILL

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009