18 de setembro de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia de Deuteronômio: A revelação do homem

O Antigo Testamento é consistente em descrever o homem como a glória
culminante da atividade criativa e redentora de Deus e, do concerto abraâmico
em diante, Israel é visto como o “povo-propriedade” especial, a quem Deus
elegeu para servir a Ele e redentoramente ao mundo. Estes fatos tornam desne-
cessárias outras justificações para considerarmos a revelação do homem como
um tema teológico fundamental do Antigo Testamento. Levando em conta a
estrutura e conteúdo óbvios do concerto do Deuteronômio, é evidente que o
Fazedor divino do concerto, o próprio Senhor, tem de estar em concerto com
alguém. Claro que este alguém é Israel, mas porque a eleição de Israel é tenden-
te a um resultado e serve a um propósito mais alto — proclamar os propósitos

redentores do Soberano — temos de fazer mais considerações sobre o gênero
humano em sentido mais amplo e em sentido mais especificado que apenas
Israel. A discussão pode lógica e teologicamente emanar de análise da revelação
deuteronômica relativa ao gênero humano, às nações, a Israel e ao indivíduo.

A revelação concernente ao gênero humano. Em Deuteronômio, há somente
quatro ocorrências de ’adam, a palavra hebraica habitual para aludir à raça hu-
mana (Dt 4.28,32; 8.3; 32.8). A primeira destas ocorrências refere-se aos ídolos
como trabalho das mãos dos homens, ao passo que as duas seguintes falam de
Deus criar os homens e distribuí-los pela Terra. Em Deuteronômio 32.8, ’adam é
paralelo a goyim, palavra que em geral significa categorias políticas e territoriais. 
Outros usos de ’adam em Deuteronômio conotam algo diferente de gênero hu-
mano gentílico (5.21; 20.19), provavelmente o indivíduo. Deuteronômio 8.3 en-
sina que a humanidade tem de viver por mais do que comida, tem também de ter
a Palavra divina. Com isto, há pouca atenção à raça humana em si.

A revelação concernente às nações. Deuteronômio descreve as nações pelos
termos hebraicos gôy e ‘am além dos nomes próprios. A primeira ocorrência da
palavra gôy está em Deuteronômio 4.6-8, onde Israel é diferenciado das nações
por ter uma revelação e lei superior. Deuteronômio 4.34 descreve Israel como
“povo do meio de outro povo” (Egito), enfatizando novamente o caráter eletivo
e separativo do povo de Deus (cf. 26.5,19). Na seção de maldição, há a predição
de uma nação castigadora (Assíria), que levará Israel ao exílio e não lhe mostrará
misericórdia (4.27; 28.36,49,50,65; cf. 30.1; 32.21). Moisés diz que o Senhor
destruirá Israel e fará de Moisés outra nação (9.14).

As nações cananéias têm de ser expulsas da terra, porque são más e para
que Israel pudesse habitá-la (Dt 4.38; 7.1,17,22; 9.1,4,5; 11.23; 12.2,29,30;
19.1; 20.15; 31.5). Israel também permanecerá para dominar estas e outras
nações (15.6,28) e será uma fonte de bênçãos para elas (28.12). Na era escato-
lógica, eles se alegrarão com Israel na salvação de Deus (32.43). As nações não devem ser imitadas na sua idolatria (12.29,30; 18.19,14) nem nas estruturas
políticas (17.14), pois o Senhor é o Soberano de Israel. Se Israel pecasse, seria
castigado do mesmo modo que o Senhor castiga as nações (8.20).

O segundo principal termo, 'am, é paralelo de gôy em Deuteronômio
(como em outros textos), mas tem mais o significado técnico de afiliação étnica.
Onde é paralelo a gôy ou justaposto de modo a conotar sinonímia, são desne-
cessários mais comentários. Exemplos notáveis do conteúdo étnico de 'am são
os anaquins, uma raça de gigantes (Dt 9.2, ARA), e as hordas invasoras que o
Senhor permitirá infestar a terra como castigo para Israel (28.33).

A revelação concernente a Israel. A identidade de Israel era mais que política, fato
acentuado na eleição como povo (Dt4.20; 7.6; 14.2,21; 26.18,19; 33.29) e nas carac-
terísticas inatas de obstinação (9.6,13) e tolice (32.6). Vemos a sua natureza apolítica
comumente nos discursos do Senhor e Moisés sobre “o povo” (2.4,16; 3.28; 4.10;
5.25; 9.13,27; 10.11; etc.). E muito significativa a declaração: “Neste dia, vieste a ser
por 'am ao SENHOR, teu Deus” (27.9). Esperaríamos aqui gôy, mas o conteúdo étnico
do conceito “Israel” é tão importante quanto o nacional. Na realidade, esta passagem
pode estar ensinando (oposto ao que postulam Noth  et al.) que havia mais para Israel
do que uma federação de tribos originalmente sem ligações. Israel era e sempre foi
“doze filhos de um pai”, quer dizer, um povo étnico e epônimo (cf. 29.13). Vemos o
caráter do povo do concerto na descrição como povo do Senhor (9.26,29; 21.8; 26.15;
32.9,36,43) e, de forma irônica, o Senhor falou furiosamente que eles são o povo de
Moisés (9.12).

A revelação concernente ao indivíduo. A antropologia do Antigo Testa-
mento encontra suas raízes pentatêuticas em Gênesis (como já vimos), mas o
restante da Torá se preocupa muito pouco com a doutrina do indivíduo. A ra-
zão é óbvia: começando com Abraão, o foco histórico e teológico está na nação
Israel, seu caráter e papel, e não no gênero humano em geral ou no ser humano
em particular. Até o israelita individual só era importante no que dizia respeito
à nação do concerto.

Em Deuteronômio, como também no restante do Antigo Testamento, a
palavra hebraica ´is é a habitual para denotar a pessoa individual ao invés do
gênero humano (genérico) ou povo (ou povos). Os sinônimos de ’is são ’enos,
geber, zakar e ba‘al, todos usados em Deuteronômio de modo especializado
ou com tom particular. Todos estes termos, inclusive 'is, não têm significado
teológico em Deuteronômio, mas invariavelmente são meramente usados para
ressaltar o indivíduo ou distinguir o macho da fêmea (22.5; 4.16).

Os termos hebraicos psicossomáticos habituais ocorrem em Deuteronô-
mio e com os significados habituais. Na maioria das vezes, nephes é a desig-
nação para a pessoa em si (4.9; 10.22; 13.7; 24.6,7; 27.25), mas às vezes indi-
ca, idiomaticamente, a personalidade vital, ou seja, o ser essencial (6.5, 12.28;
19.6; 19.11,21; 22.26; 30.6); o elemento emocional (24.15; 28.65); enfatica-
mente, a pessoa inteira (4.29; 10.12; 26.16; 30.2,10); ou a vontade ou desejo
(12.15,20,21; 14.26; 18.6; 23.25).

O termo hebraico leb (“coração”) descreve mais particularmente o aspecto
intelectual/mental do homem (Dt 4.39; 6.6; 8.5; 29.3,18; 30.11; 32.46), em-
bora seja frequentemente paralelo a nephes ou colocado junto com ele e outras
cláusulas semelhantes quanto a transmitir o significado de “pessoa” (4.9,29;
6.5; 10.12; 26.16; 28.65; 30.2,6,10). Há claramente uma qualidade emocional
também (15.7,9,10; 19.6; 20.3,8). Por fim, leb é sinônimo, como nephes, de
pessoa como pessoa, o indivíduo (2.30; 7.17; 8.17; 9.4; 10.16; 18.21).

A palavra hebraica rúah como conceito antropológico só ocorre uma vez
em Deuteronômio (2.30) e então em paralelo a leb. O Senhor “endurecera” o leb,
sugerindo que fala da disposição interior do homem, a sua psique essencial.
Em conclusão, como já declarado, não há antropologia distintiva em Deu-
teronômio, porque neste texto do concerto o indivíduo é de, relativamente,
pouca significação. É Israel, o vassalo, que é realçado no livro, cujo propósito é
mostrar as reivindicações redentoras e relativas ao concerto do Soberano e o re-
lacionamento com um povo por quem Ele manifestaria a sua vontade salvífica.

EUGENE H. MERRILL

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009