1 de agosto de 2013

Roland de Vaux - Poligamia e Monogamia


O relato da criação do primeiro casal humano, Gn 2.21-24, apresenta o casamento monogâmico como de acordo com a vontade de Deus. Os patriar¬cas da linhagem de Sete são apresentados como monógamos, por exemplo, Noé, Gn 7.7, enquanto a poligamia aparece na linhagem reprovada de Caim: Lameque tomou duas mulheres, Gn 4.19. Essa é a idéia que se tinha das ori¬gens.

Na época patriarcal, Abraão tinha, a princípio, uma só mulher, Sara, mas como esta era estéril, Abraão tomou sua escrava Hagar, como lhe havia pro¬posto a própria Sara, Gn 16.1,2. Abraão tomou também a Quetura como espo¬sa, Gn 25.1, mas isto é contado depois da morte de Sara, Gn 23.1,2, e Quetura poderia ter sido a esposa titular. Contudo, Gn 25.6 fala no plural das
concubinas de Abraão e parece designar assim a Hagar e a Quetura. Naor, que teve filhos de sua mulher Milca, tem também uma concubina, Reumá, Gn 22.20-24. Do mesmo modo Elifaz, filho de Esaú, tem uma mulher e uma concubina, Gn 36.11,12.

Em tudo isto, os patriarcas seguem os costumes de seu ambiente. Segun¬do o Código de Hamurabi, por volta de 1700 antes de nossa era, o marido não pode tomar uma segunda esposa a não ser em caso de esterilidade da primeira. E mesmo desse direito se vê privado se sua própria esposa lhe fornece uma concubina escrava. Não obstante, o marido pode, mesmo sua mulher tendo filhos, tomar ele mesmo uma concubina, mas uma só - a menos que esta seja estéril -, e a concubina nunca tem os mesmos direitos que a esposa. Na região de Kerkuk, século XV a.C., os costumes são mais ou menos os mesmos. Pare¬ce, todavia, que a mulher estéril é obrigada a procurar uma concubina para seu marido.

Em todos esses casos observa-se uma monogamia relativa: nunca há mais que uma esposa titular. Mas há outros exemplos que ultrapassam esse limite. Jacó toma como esposas as duas irmãs Lia e Raquel, e cada uma delas lhe dá sua escrava, Gn 29.15-30; 30.1-9. Esaú tem três mulheres, as três considera¬das do mesmo nível, Gn 26.34; 28.9; 36.1-5. Assim, os costumes do período patriarcal mostram-se menos severos que os da Mesopotâmia, na mesma épo¬ca. Estes, aliás, não tardam em fazer-se mais brandos. Na compilação de direi¬to assírio, que data de fins do segundo milênio, há um lugar, entre a esposa e a concubina escrava, para a esirtu, a “dama do harém”; um homem pode ter várias esirtu, e uma esirtu pode ser elevada à dignidade de esposa.

Em Israel, sob os juizes e sob a monarquia, desaparecem as antigas restri¬ções. Gideão tinha “muitas mulheres” e, pelo menos, uma concubina, Jz 8.30,31. A bigamia é reconhecida como um ato legal por Dt 21.15-17, e os reis tinham um harém, às vezes numeroso .

Parece então que não havia limites. Muito mais tarde, e de forma com¬pletamente teórica, o Talmude estabelecerá o número de quatro esposas paia um homem comum, e de dezoito para um rei. Na realidade, somente os prínci¬pes podiam se permitir o luxo de um harém numeroso. As pessoas comuns deveriam contentar-se com uma ou duas mulheres. O pai de Samuel tinha duas esposas, uma das quais era estéril, I Sm 1.2. Conforme Tl Cr 24.3, o sacerdote Joiada escolheu duas mulheres para o rei Joás. Não é fácil dizer se tal bigamia, à que se refere também Dl 21.15-17, era muito freqüente. A situa¬ção era, sem dúvida, a mesma que a dos beduínos efelás da Palestina moder¬na, os quais, não obstante as facilidades que lhes dá a lei muçulmana, rara¬mente são polígamos. As vezes, o interesse é o que leva à procurara de uma segunda mulher, pois assim obtém-se uma criada; contudo, com mais freqüên¬cia há o desejo de ter numerosos filhos, principalmente quando a primeira mulher é estéril ou teve somente filhas. A isto acrescenta-se que a mulher oriental, que se casa muito jovem, perde logo seu vigor. Os mesmos motivos intervieram na antigüidade israelita.

A presença de várias esposas não contribuía para a paz no lar. A mulher estéril era menosprezada por sua companheira; assim, por exemplo, Ana por Penina, I Sm 1.6, mesmo sendo esta uma escrava; e Sara por Hagar, Gn 16.4,5. Por outro lado, a mulher estéril tinha ciúmes da esposa fecunda, como no caso de Raquel e Lia, Gn 30.1. A esses motivos de inimizade acrescentavam-se as preferências do marido por uma delas, Gn 29.30,31; I Sm 1.5; a lei de Dt 21.15-17 teve de intervir para que os filhos da mulher menos amada não fossem desapossados em favor dos filhos da esposa preferida. Esse traço dos costumes se reflete na língua, que chama “rivais” as mulheres de um mesmo homem, I Sm 1.6; cf. Eclo 37.11. 

Parece, entretanto, que a monogamia era o estado mais freqüente na famí¬lia israelita. É surpreendente que os livros de Samuel e dos Reis, que compre¬endem todo o período da monarquia, não mostrem enlre o povo comum mais casos de bigamia que o do pai de Samuel, bem no início. Da mesma forma os livros sapienciais, que apresentam um quadro da sociedade de sua época, não falam de poligamia. Salvo o texto de Eclo 37.11, que acabamos de citar e que, aliás, se poderia interpretarem sentido menos estrito, as numerosas passagens que concernem à mulher em família compreendem-se melhor no contexto de uma família estritamente monógama. Assim, por exemplo, Pv 5.15-19; Ec 9.9; Eclo 26.1-4, e o elogio da mulher perfeita, que fecha o livro dos Pro¬vérbios, 31.10-31. O livro de Tobias, que é uma história familiar, só põe em cena famílias monógamas, a do velho Tobit, a de Ragüel e a que o jovem Tobias funda com Sara. É com a imagem de um casamento monógamo que os profetas representam a Israel como a esposa única escolhida pelo Deus único, Os 2.4s; Jr 2.2; Is 50.1; 54.6,7; 62.4,5, e Ezequiel desenvolve a metáfora em uma alegoria, Ez 16. Se o mesmo profeta compara as relações de Iahvé com Samaria e Jerusalém a um casamento com duas irmãs, Ez 23, cf. também Jr 3.6-11, é para adaptar às condições da história posterior ao cisma político a alegoria que havia proposto no cap. 16.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.