14 de agosto de 2013

Roland de Vaux - Os esponsais

Os esponsais são a promessa de casamento feita algum tempo antes da celebração das núpcias. Era um costume que existia em Israel e a língua hebraica tem um verbo especial para expressá-lo: é o verbo 'arás, empregado onze vezes na Bíblia.

Os livros históricos dão poucas informações sobre isto. O caso de Isaque e de Jacó são particulares: sem dúvida Rebeca foi prometida a Isaque na Mesopotâmia, mas o casamento foi celebrado quando ela chegou em Canaã, (Gn 24.67; Jacó espera sete anos antes de casar-se, mas tem um compromisso especial com Labão, Gn 29.15-21. O caso de Davi e das duas filhas de Saul é mais claro: Merabe lhe havia sido prometida, mas “quando chegou o momen¬to” foi dada a outro, I Sm 18.17-19; Mical foi prometida a Davi em troca de cem prepúcios de filisteus, que ele apresentou
“antes de vencido o prazo”, Sm 18.26-27. Em compensação, Tobias desposou Sara logo depois que o casamento foi acertado, Tb 7.9-16.

Mas os textos legislativos provam que os esponsais eram um costume reco¬nhecido e que tinham efeitos jurídicos. Segundo Dt 20.7, um homem que se comprometeu com uma moça, mas que ainda não tenha se casado com ela, está dispensado de ir à guerra. A lei de Dt 22.23-27 regulamenta o caso de uma virgem que está prometida e sofre violência por parte de um homem que não é o seu noivo. Se o estupro aconteceu na cidade, a noiva é apedrejada juntamente com seu sedutor, pois deveria ter pedido socorro; se foi assediada no campo, somente o homem deve ser morto, pois a moça pode ter gritado e não ter sido ouvida.
A glosa de I Sm 18.21 conserva provavelmente a fórmula que o pai da moça pronunciava e que garantia a validez do noivado: “Hoje tu serás meu genro.” O preço do mohar era discutido com os pais no momento do noivado c sem dúvida era entregue imediatamente se, como era o costume, fosse pago em dinheiro.

Os esponsais existiam igualmente na Mesopotâmia. Concluíam-se com o desembolso da tirhatu, equivalente do mohar, e acarretavam conseqüências jurídicas. Entre o noivado e o casamento havia um intervalo mais ou menos longo, durante o qual cada uma das partes podia voltar atrás, mas recebia uma penalidade. As leis hititas contêm disposições análogas.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.