27 de agosto de 2013

Roland de Vaux - O adultério e a fornicação

O Decálogo condena o adultério, Ex 20.14; Dt 5.18, junto com o homicídio e o furto como atos que prejudicam ao próximo. Em Lv 18.20, o adultério inclui-se entre os interditos matrimoniais, é algo que toma “impuro”. Como em todo o Oriente antigo, o adultério é, pois, um delito privado, mas o texto de
Lv 18.20 lhe acrescenta uma consideração religiosa e os relatos de Gn 20.1-13; 26.7-11, apresentam o adultério como uma falta castigada por Deus.
O adultério de um homem com uma mulher casada é severamente puni¬do: os dois cúmplices são condenados à morte, Lv 20; 10; Dt 22.22; nesse caso, a noiva é comparada à esposa, Dt 22;23s: efetivamente a noiva pertence a seu noivo como a mulher a seu marido. A pena se executa mediante apedrejamento, segundo Dt 22.23s; Ez 16;40; cf. Jo 8.5; entretanto, é possível que, antigamente, se aplicasse a pena do fogo: Judá condenou sua nora Tamar a ser queimada viva, Gn 38.24, porque suspeitou que ela havia se entregado a um homem sendo viúva de seu filho Er, estando prometida, pela lei do levirato, a outro filho seu, Selá.

A coleção mais recente dos Provérbios, Pv 1.9, põe repetidas vezes em alerta os jovens contra as seduções de uma mulher infiel a seu marido. A mulher é chamada “estrangeira”, isto é, simplesmente, a mulher de outro, Pv 2.16-19; 5.2-14; 6.23-7.27. Tal amor conduz à morte, 2.18; 5.5; 7.26,27, mas essa “morte” é geralmente sinônimo de perdição morâl; uma vez aparece como a vingança do marido ofendido, 6.34, mas jamais como castigo legal do adultério.
As partes antigas de Provérbios fazem poucas alusões ao adultério, Pv 30.18-20, e comparam-no à prostituição, 23.27. O homem que freqüenta as prostitutas dissipa seus bens e perde seu vigor, Pv 29.3; 31.3, mas não comete um delito punível pela lei. Nenhuma censura recai sobre Judá por ter agido com Tamar como uma prostituta, Gn 38.15-19; sua única falta consiste em não ter observado, a respeito de sua nora, a lei do levirato, Gn 38.26.
A fidelidade conjugal é recomendada ao marido em Pv 5.15-19, mas sua infidelidade não é castigada, a não ser no caso em que prejudique o direito alheio e tenha por cúmplice uma mulher casada.
Em contraste com essa indulgência de que usufrui o marido, a imoralida¬de da mulher casada está sujeita a duros castigos; o marido pode, sem dúvida, perdoar sua mulher, mas pode também repudiá-la e ela sofre uma pena difamatória, Os 2.5,11-12; Ez 16.37-38; 23.29. É a “grande falta” de que falam alguns textos do Egito e Ugarit, a “grande falta” que ia cometer o rei de Gerar com Sara, Gn 20.9; cf., metaforicamente, aplicado à idolatria Êx 32.21,30-31. Nos faltam informações sobre as mulheres não casadas; só se sabe que se a filha de um sacerdote se prostituísse devia ser queimada viva, Lv 21.9.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.