9 de agosto de 2013

Roland de Vaux - A escolha da esposa

A Bíblia não dá nenhuma informação acerca da idade em que as moças se casavam. A prática de casar primeiro a filha mais velha não era universal, Gn 29.26. Parece certo que se casavam as filhas muito jovens, como se fez durante muito tempo e se faz ainda freqüentemente no Oriente, e o mesmo devia suceder com os moços. Segundo as indicações dos livros dos Reis, que ordinariamente dão a idade de cada rei de Judá no momento de sua chegada ao trono, assim como a duração de seu reinado e a idade do filho que lhe sucede, que é normalmente o primogênito, pode-se calcular que Joaquim se casou aos 16 anos, Amom e Josias já aos 14; mas esses cálculos se baseiam em números que não são de todo seguros. Mais tarde, os rabinos determinaram a idade mínima do casamento para as moças aos 12 anos, e aos 13 para os moços.

Em tais condições compreende-se que a intervenção dos pais seja decisiva para a conclusão do casamento. Não se consulta a jovem nem, freqüentemente, o jovem. Para escolher uma mulher para Isaque, Abraão envia seu criado, que trata do assunto com Labão, irmão de Rebeca, Gn 24.33-53 .
Somente depois pede-se o consentimento a Rebeca, vv. 57-58, que, segundo o paralelo de cer¬tos textos da Mesopotâmia, só é necessário porque Rebeca havia perdido seu pai e está sob a autoridade de seu irmão. Hagar, expulsa por Abraão, escolhe uma esposa para Ismael, Gn 21.21, Judá casa seu primogênito, Gn 38.6. Ocor¬re também que o pai oriente a escolha de seu filho: Isaque envia Jacó para casar-se com uma de suas primas, Gn 28.1-2. E Hamor que pede a mão de Diná para seu filho Siquém, Gn 34.4,6. Sansão pede a seus pais a filistéia por quem está apaixonado, Jz 14.2-3. Esaú, por independente que seja, leva em conta a vontade de seu pai, Gn 28.8-9. Calebe, Js 15.16, e Saul, I Sm 18.17, 19,21,27; 25.44, decidem sobre o casamento de suas filhas. No final do Anti¬go Testamento, o velho Tobit aconselha seu filho sobre a escolha de uma esposa, Tb 4.12-13, e o casamento de Tobias conclui-se com o pai de Sara, na ausência da jovem, Tb 7.9-12.

Como o pedido de casamento é feito aos pais da moça, com eles é que se discutem as condições, especialmente a quantia do mohar, Gn 29.15s; 34.12. Em resumo, como hoje, as filhas casadeiras proporcionavam a seus pais inquietações, o cuidado por elas tira-lhes o sono, Eclo 42.9.

Não obstante, essa autoridade dos pais não era tal que não deixasse lugar em absoluto aos sentimentos dos jovens. Havia em Israel casamentos por afe¬to. O jovem podia manifestar suas preferências, Gn 34.4; Jz 14.2. Ele podia decidir por si mesmo sem consultar seus pais e até contra a vontade deles, ( ín 26.34-35. Mais raro é que a jovem tome a iniciativa, como a filha de Saul, Mical, que se apaixona por Davi, I Sm 18.20.

De fato, esses sentimentos tinham muitas ocasiões de nascer e de exterionzar-se, pois as jovens eram muito livres. E verdade que II Mb 3.19 fala das jovens de Jerusalém confinadas em suas casas, mas essa informação refere-se à época grega e a uma circunstância extraordinária. O véu com que se cobriam as mulheres é uma prática ainda mais tardia. Em épocas antigas as jovens não ficavam enclausuradas e saíam sem véu. Elas apascentavam os rebanhos, Gn 29.6, iam buscar água, Gn 24.13; I Sm 9.11, também apanhavam as espigas deixadas pelos segadores, Rt 2.2s, faziam visitas, Gn 34.1. Podiam sem dificuldade falar com os homens, Gn 24.15-21; 29.11-12; I Sm 9.11-13.

Essa liberdade expunha, às vezes, as moças às violências dos rapazes, Gn 34.1-2, mas o sedutor era obrigado a casar-se com a vítima pagando um elevado mohare não tinha direito de repudiá-la depois, Êx 22.15; Dt 22.28,29.

Era costume casar-se com uma parente: isso era uma herança da vida tribal. Abraão envia seu servo para buscar uma esposa para Isaque da sua família na Mesopotâmia, Gn 24.4; Isaque, por sua vez, também envia para lá Jacó para que se case, Gn 28.2. Labão declara que prefere dar sua filha a Jacó que a um estrangeiro, Gn 29.19. O pai de Sansão lamenta que este não tome por mulher uma moça de seu clã, Jz 14.3. Tobit aconselha seu filho que esco¬lha uma mulher de sua tribo, Tb 4.12.

Os casamentos entre primos irmãos eram freqüentes, como por exemplo o casamento de Isaque com Rebeca, o de Jacó com Lia e Raquel. Atualmente, ainda é assim entre os árabes da Palestina, onde o jovem tem direito garantido à mão de sua prima. Segundo Tb 6.12-13; 7.10, Sara não pode ser recusada a Tobias porque esse é seu parente mais próximo; nos é dito ser esta uma “lei de Moisés”, Tb 6.13; 7.11 -12. Não obstante, no Pentateuco não há nenhuma pres¬crição legislativa desse tipo; o texto se refere aos relatos de Gênesis sobre os casamentos de Isaque e Jacó, cf. especialmente Gn 24.50-51, ou talvez à lei que obriga as filhas herdeiras a casarem-se no clã de seu pai para evitar que se transfiram bens da família, Nm 36.5-9. Sara é, efetivamente, filha única de Ragüel, Tb 6.12. A mesma consideração do patrimônio e dos vínculos de san¬gue funda a obrigação do levir para com a cunhada que ficou viúva . 

Havia, contudo, casamentos fora da parentela, e inclusive casamentos com mulheres estrangeiras. Esaú tem duas mulheres hititas, Gn 26.34; José, uma egípcia, Gn 41.45; Moisés, uma midianita, Ex 2.21; as duas noras de Noemi são moabitas, Rt 1.4; Davi tem entre suas mulheres uma calebita e uma araméia, II Sm 3.3; o harém de Salomão compreende “além da filha do faraó, moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hititas”, I Rs 11.1; cf. 14.21. Acabe toma por esposa a sidônia Jezabel, I Rs 16.31. E por outro lado, moças de Israel se casavam com estrangeiros, Bate-Seba com um hitita, II Sm 11.3, a mãe do bronzista Hirão, com um homem de Tiro, I Rs 7.13,14.

Esses casamentos mistos que a política aconselhava aos reis, tornaram- se freqüentes entre o povo comum desde a instalação em Canaã, Jz 3.6. Não só eram um atentado à pureza de sangue, mas também punham em perigo a fé religiosa, 1 Rs 11.4, e eram proibidos pela lei, Êx 34.15-16; Dt 7.3-4. Às cati¬vas de guerra abria-se uma exceção: podiam ser desposadas após uma cerimô¬nia que simbolizava o abandono de seu lugar de origem, Dt 21.10-14. Essas proibições não foram muito respeitadas: a comunidade que voltou do Exílio, cotinuou realizando casamentos mistos, Ml 2.11-12; Esdras e Neemias tive¬ram que tomar medidas severas, que não parecem ter sido muito eficazes, Ed 9.10; Ne 10.31; 13.23-27.

Entretanto, no interior da família estão proibidos os casamentos com parentes imediatos pelo sangue ou por aliança, pois o indivíduo não deve se unir a “sua própria carne”, Lv 18.6, a afinidade era considerada como um laço igual ao da consangüinidade, cf. 18.17. Essas proibições se referem, pois, à proibição do incesto. Algumas são primitivas, outras foram acrescentadas mais tarde; estão reunidas sobretudo em Lv 18. Há impedimentos de consangüinidade em linha direta entre pai e filha, mãe e filho, Lv 18.7, entre pai e neta, Lv 18.10, em linha colateral entre irmão e irmã, Lv 18.9; Dt 27.22. O casamento com uma meia-irmã, aceito na época patriarcal, Gn 20.12, e ainda sob Davi,Sm 13.13, é proibido pelas leis de Lv 18.11; 20.17; o casamento entre sobri¬nho e tia, como o casamento do qual nasceu Moisés, Êx 6.20, Nm 26.59, é proibido por Lv 18.12-13; 20.19. Há impedimento de afinidade entre um filho e sua madrasta, Lv 18.8, entre sogro e nora, Lv 18.15; 20.12; cf. Gn 38.26, entre sogra e genro, Lv 20.14; Dt 27.23, entre um homem e a filha ou a neta de uma mulher com quem ele tenha se casado, Lv 18.17, entre um homem e a mulher de seu lio, Lv 18.14; 20.20, entre cunhado e cunhada, Lv 18.16; 20.21.

O casamento com duas irmãs, que poderia ser autorizado pelo exemplo de Jacó, é proibido por Lv 18.18. Os membros da linhagem sacerdotal estavam sujeitos a restrições espe¬ciais. Segundo Lv 21.7, não podiam tomar por esposa uma mulher que tivesse se prostituído ou que tivesse sido repudiada por seu marido. Ez 44.22 acres¬centa ainda as viúvas, a não ser que elas fossem viúvas de um sacerdote. Para o sumo sacerdote havia regras ainda mais estritas: só podia tomar como espo¬sa uma virgem de Israel.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.