19 de agosto de 2013

Roland de Vaux - As cerimônias de casamento

É interessante observar que em Israel, como na Mesopotâmia, o casa¬mento é um assunto puramente civil e não é sancionado por nenhum ato reli¬gioso. É certo que Malaquias chama a esposa “a mulher de tua aliança”, berít, Ml 2.14, e que com freqüência berít se refere a um pacto religioso, mas aqui este pacto não é senão o contrato de casamento. Em Pv 2.17, o casamento é chamado “a aliança de Deus” e, na alegoria de Ez 16.8, a aliança do Sinai toma-se o contrato de casamento entre Iahvé e Israel.

Fora estas prováveis alusões, o Antigo Testamento não menciona contra¬to escrito de casamento a não ser na história de Tobias, Tb 7.13. Possuímos muitos contratos de casamento procedentes da colônia judaica de Elefantina, que datam do século V antes de nossa era, e na época greco-romana o costume estava bem estabelecido entre os judeus. (É difícil dizer até onde ele remon¬ta.) Existia há
muito tempo na Mesopotâmia, e o Código de Hamurabi declara inválido um casamento concluído sem que um contrato tenha sido estabeleci¬do. Em Israel redigiam-se documentos de divórcio desde antes do Exílio, Dt 24.1,3; Jr 3.8: seria, pois, estranho se naquele tempo não houvesse contra¬tos de casamento, e o silêncio dos textos é, talvez, acidental.

A fórmula determinante do casamento é dada nos contratos de Elefantina, que são redigidos em nome do marido: “Ela é minha esposa e eu seu marido a partir de hoje, para sempre”; a mulher não faz nenhuma declaração. Pode-se encontrar um equivalente em Tb 7.11, onde o pai de Sara diz a Tobías: “Desde agora és seu irmão e ela é tua irmã.” Em um contrato do século II d.C., desco¬berto no deserto de Judá, a fórmula é: “Tu serás minha mulher.”

O casamento era ocasião de alegria. A cerimônia principal era a entrada da noiva na casa do esposo. O noivo, com a cabeça adornada com um diadema, Ct 3.11; Is 61,10, acompanhado por seus amigos com tamborins e músicas, I Mb 9.39, dirigia-se à casa da noiva. Esta estava ricamente vestida e adornada com jóias, SI 45.14-15; Is 61.10, mas, coberta com um véu, Ct 4.1,3; 6.7, e só se descobria no aposento nupcial. Por isso Rebeca se cobriu com um véu ao avistar seu noivo Isaque, Gn 24.65, e esse costume permitiu a Labão substituir Raquel por Lia no primeiro casamento de Jacó, Gn 29.23-25. A moça, acom¬panhada de suas amigas, SI 45.15, é conduzida à casa do esposo, SI 45.16; cf. Gn 24.67. Cantam-se cantos de amor, Jr 16.9, nos quais se celebram as qualidades do casal, dos quais temos exemplos no SI 45 e no Cântico dos Cânticos, seja qual for a interpretação que lhes seja dada, alegórica ou literal.

Os árabes da Palestina e da Síria conservaram costumes análogos: o cor¬tejo, os cantos nupciais, o véu da noiva. Às vezes, durante o trajeto, uma espada & levada pela noiva ou diante dela, e às vezes ela executa, avançando e retro¬cedendo, a dança do sabre. Relacionou-se a isso a dança da sulamita em Ct 7.1. Em algumas tribos a noiva tenta, por brincadeira, escapar de seu noivo que deve simular conquistá-la à força. Foi proposto ver nessas brincadeiras uma sobrevivência do casamento por rapto, do qual haveria igualmente um vestígio no Antigo Testamento: o rapto pelos benjamitas das moças que dan¬çavam nas vinhas de Silo, Jz 21.19-23. Essas comparações não parecem ter fundamento. O gesto de brandir a espada tem valor profilático: corta a má sorte e afugenta os demônios. Nada indica que a dança da sulamita seja uma dança do sabre, e o episódio de Siló se explica pelas circunstâncias extraordi¬nárias mencionadas no relato.

Em seguida, celebrava-se o grande banquete, Gn 29.22; Jz 14.10; Tb 7.14. Nesses três casos a ceia acontece na casa dos pais da noiva, mas por con¬dições incomuns. Pela regra geral dava-se, certamente, na casa do noivo, cf. Mt 22.2. A festa durava normalmente sete dias, Gn 29.27; Jz 14.12, e podia se prolongar por até duas semanas, Tb 8.20; 10.7. Contudo, o casamento se consumava já na primeira noite, Gn 29.23; Tb 8.1. Dessa noite nupcial se conservava o tecido manchado de sangue que provava a virgindade da noiva e que servia de prova em caso de calúnia do marido, Dt 22.13-21. O mesmo costume ingênuo existe ainda na Palestina e em outros países muçulmanos.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.