21 de agosto de 2013

Gleason L. Archer - Josué: Autoria e Data

É razoável deduzir que este livro tenha sido basicamente com-
posto pelo próprio Josué. Desde o primeiro capítulo surgem deta-
lhes biográficos íntimos que só Josué poderia ter sabido (embora
é claro, Josué pudesse posteriormente ter contado isto a outras
pessoas). Josué 24:26 registra que o próprio general escreveu de
próprio punho seu discurso de despedida, citado nos primeiros 25
versículos do capítulo. Antes disto, em 5:1, 6, achamos passagensJosu
na primeira pessoa do plural, tais como “o SENHOR tinha secado
as águas do Jordão, de diante dos filhos de Israel, até que passa-
mos. ..” Tal linguagem certamente indica a obra duma testemu-
nha ocular que pessoalmente participou dos acontecimentos.

Outras referências indicam uma data bem recuada de com-
posição, mesmo se não comprovadamente dentro da vida de Josué.
As cidades de Canaã recebem seus nomes arcaicos; por exemplo,
Baalá como nome de Quiriate-Jearim (15:9), Quiriate-Sana, de
Debir (15:49) e Quiriate-Arba, de Hebrom (15:13). Além disto,

segundo 13:4-6 e 19:28, Sidom era a cidade mais importante da
Fenícia, indicando assim um período antes do século 12 a.C. (quan-
do Tiro começou a atingir a posição de ascendência). Segundo
9:27, os gibeonitas ainda, “até ao dia de hoje” eram “rachadores
de lenha e tiradores de água para a congregação e para o altar do
SENHOR”, assim como Josué ordenara. Isto já não seria possível
dizer no reinado de Saul, se podemos confiar na narrativa de 2
Samuel 21:1-9, que os gibeonitas tinham sido massacrados por Saul,
e os sobreviventes tinham perdido seu direito de trabalhar con-
forme se verifica acima. Certamente as referências a Jerusalém
(tais como 18:16, 28) demonstram claramente que na época da sua 
composição a cidade era habitada pelos jebuseus, e que não tinha
sido capturada por Davi até então.

Do outro lado, há evidências de acréscimos editoriais posterio-
res, na inclusão de acontecimentos que não poderiam ter ocorrido
antes da morte de Josué. Não somente temos a notícia da sua
morte (24:29, 30), e a generalização que “Serviu Israel ao SENHOR
todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda so-
breviveram por muito tempo depois de Josué” (24:31), mas também
há uma referência à tomada de Quiriate-Arba por Otoniel (15:13-17;
Jz 1:9-13) e à migração de uma parte da tribo de Dã até ao extremo
norte de Israel (19:47; cf. Jz 18:27-29). Toda esta evidência em con-
junto, parece indicar que uma boa proporção do livro de Josué ti-
vesse sido composto pelo homem que deu seu nome ao livro, e acrés-
cimos suplementares (igualmente inspirados) muito provavelmente
por Eleazar ou por seu filho Finéias.

Conforme ficou dito no Capítulo 6 deste livro (pág. 93), crí-
ticos racionalistas da escola Wellhausen têm procurado incluir
Josué com os cinco livros do Pentateuco, dando à coletânea inteira
o nome de Hexateuco. Consideram que a matéria básica pertença
a J e E, mas com bastante trabalho editorial e redação da parte
da escola deuteronômica. Pensa-se que posteriormente tenha havi-
do contribuições feitas por um redator da escola sacerdotal, cujas
inserções principais se acham nos capítulos 13 — 21. Mas deve
ser indicado que a evidência bíblica torna difícil sustentar que o
Pentateuco nunca teve uma existência separada de Josué.

A evidência mais significativa neste sentido se encontra no fato
de que a seita samaritana considerava só o Pentateuco como sendo
canônico. A forma samaritana do texto do Pentateuco nos informa
que estes sectários do norte, mesmo na época pós-exílica, considera-
vam-se herdeiros das dez tribos de Israel. Muitas das alterações do
Texto Massorético dos cinco livros de Moisés consistem em adições
que declaram explicitamente que Deus escolheu o Monte Gerizim
no território de Efraim, para ser o lugar do Seu santuário, e não
o centro religioso no sul, em Jerusalém. Obviamente, a motivação
para isto é a propaganda nacionalista, mas o Livro de Josué con-
tém muitos elementos que o recomendariam ao nacionalismo sama-
ritano. Por exemplo, dá destaque a Siquém em Efraim como im-
portante centro e cidade de refúgio. Seu herói principal é um
general da tribo de Efraim, Josué, o filho de Num. Contém o
registro da leitura solene da Lei, feita pela congregação inteira de
Israel entre o Monte Ebal e o Monte Gerizim. A única explicação 
da falta dos samaritanos em incluir Josué no seu cânon autorizado,
é que não era realmente parte da Torá mosaica. A Torá, portanto,
deve ter existido na forma dum Pentateuco já na época do cisma
samaritano.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.