13 de agosto de 2013

Gleason L. Archer - A Autoria Mosaica de Deuteronômio

Considerável discussão já tem sido dedicada à alta crítica de
Deuteronômio no capítulo sete deste livro (páginas 108-112). Ali
foi mencionado que a data de 621 a.C. atribuída a este Livro na
sua forma escrita, pelos documentaristas, foi reconhecida como sen-
do insatisfatória por muitos críticos racionalistas desde a época de
Wellhausen. Estes estudiosos do século vinte chegaram à conclusão
que a teoria de De Wette, colocando a origem de Deuteronômio
no reinado de Josias, simplesmente não condiz com a evidência in-
terna oferecida pelo próprio texto. A legislação ali existente nunca
poderia ter surgido como fruto das condições existentes no fim do
sétimo século a.C. A situação social, econômica e histórica refletida
neste livro é totalmente diferente da que existia no tempo de
Josias. Embora nenhum destes estudiosos pudesse, por causa
das suas pressuposições filosóficas, levar em conta a posibilidade
de autoria mosaica literalmente falando, sua crítica da posição
dogmática de Wellhausen realmente deixou em aberto a data da
composição de Deuteronômio. Alguns têm argumentado em prol
dum período após o Exílio, e outros em prol duma data muito an-

terior. (Welch sugeriu o reinado de Salomão, e Robertson o reinado
de Davi). Mas pelo menos concordaram em condenar a data de
621 a.C. como sendo impossível para a composição deste último
IÍVTO do Pentateuco.

Baseado em pressuposições conservadoras, é possível estabele-
cer um argumento muito forte em prol da autoria mosaica de Deu-
teronômio. Pelo teste de concordância com conhecidas condições
históricas, e através duma análise literária cuidadosa, não é difícil
demonstrar que só o período pré-Davídico pode ser reconciliado com
o texto hebraico. Pode ser demonstrado através dum tratamento
justo da evidência: a) que Deuteronômio foi escrito antes do apa-
recimento dos profetas que escreviam, no oitavo século a.C.; b) que
precede igualmente a divisão da monarquia hebraica em Israel e
Judá em 931 a.C.; c) que acorda melhor com um período perto da
Conquista encabeçada por Josué. Um reexame muito cuidadoso 
desta evidência foi feito por G. T. Manley   durante os últimos anos,
demonstrando, com a lógica mais irresistível, que os dados do
próprio texto eliminam a possibilidade duma origem pós-mosaica.
Alguns dos argumentos mais significates que levanta, serão breve-
mente resumidos, nos próximos parágrafos deste livro.

Antes de examinarmos esta evidência positiva, seria impor-
tante refutar algumas das alegadas “provas” clássicas da autoria
pós-mosaica, baseadas em certas frases ou expressões no próprio
texto que, segundo certas teorias, “revelam” isto. A primeira delas
é “conforme hoje se vê (kayyõwm hazzeh), que aparece por exem-
plo em 2:30. Esta frase tem sido interpretada para indicar que
um grande período de tempo decorreu desde a época de Moisés,
talvez vários séculos. Mas em que base temos que pressupor
esta passagem de tempo? Em praticamente cada caso onde sur-
ge esta frase, enquadra-se perfeitamente a situação que deve
ter existido durante os últimos dias de Moisés, enquanto falava
para as hostes israelitas reunidas nas planícies de Moabe. Pas-
sando em revista o período de quarenta anos de peregrinação no
deserto, seria totalmente apropriado para ele mencionar que as
conseqüências do episódio ou transação, perduravam até aquele
último ano da sua vida. Nenhuma dificuldade real é apresentada
por qualquer uma das seis ocorrências desta frase: 2:30, a perma-
nência da conquista de Seom; 4:20, a continuação da situação de
Israel como nação da aliança; 4:38, “como hoje se vê” refere-se à
iminência da conquista de Canaã como sua herança; 8:18 repre-
senta a esperança que a graça divina continue no futuro como
foi então na época de Moisés; 10:15 refere-se à situação permanente
da escolha que Deus fez de Israel como sendo Seu povo; 29:28 tem
uma perspectiva profética, prevendo julgamentos futuros contra
a nação desobediente.

Uma segunda frase “reveladora” seria “além do Jordão” quan-
do se refere à região ao leste do Vale do Jordão (como por exem-
plo em 1:1). Insiste-se que se esta obra tivesse realmente sido
composta em Moabe, “além do Jordão” só poderia se referir à
Canaã propriamente dita. O fato que demonstravelmente se refere
à região do leste, de Gileade, pertencendo a Ruben e Gade, com-
prova, segundo a teoria, que o autor vivia em Judá, ou Israel, pro-
priamente dito. Mas esta não é de modo algum a única inferência
possível. O fato é que a. expressão ,êber hayyardên ocasionalmente
 se refere à região ao oeste do Jordão também, pelo menos em três
passagens (3:20, 25; 11:30). Isto indicaria um autor residindo no
leste, tal como Moisés nas planícies de Moabe. Como se pode re-
conciliar as variações nas aplicações da frase? Devemos tomar a
expressão “além do Jordão” (’êber hayyardên) como sendo um
nome próprio, como “Transjordânia” — nome dado à terra na época
dos patriarcas, ou até antes, pelas populações palestinas, e ado-
tado até pelos próprios habitantes da região. Observa-se que du-
rante o mandato britânico sobre a região (depois da Primeira Guer-
ra Mundial) a área foi chamada “Transjordânia” mesmo pelas
pessoas que ali habitavam, apesar de “Transjordânia” significar
“No outro lado do Jordão”. Na época do Novo Testamento, a parte
mais baixa desta região (pelo menos) foi chamada “Peréia” (“A
Terra do Outro Lado”), até pelos próprios habitantes. É razoável
supor que o termo ’êber hayyardên tivesse se tomado o termo nor-
mativo para designar o território ao leste de Jericó, sem levar em
consideração a posição de quem falava. Nos três casos, porém,
onde a frase se refere à terra de Canaã ao oeste do Jordão, devemos
entender a expressão no seu sentido literal e óbvio, e não como
nome geográfico.

O quanto sabe este autor, não existe nenhuma expressão no
texto de Deuteronômio que não se reconcilie perfeitamente com
a autoria mosaica. Só o capítulo 34 é demonstravelmente pós-
mosaico, visto que contém um breve relato da morte de Moisés.
Mas isto não constitui a mínima objeção contra a autenticidade
mosaica dos outros trinta e três capítulos, pois o capítulo final
simplesmente fornece aquele tipo de obituário que tão freqüen-
temente se acrescenta à obra final de grandes homens letrados. A
obra final dum autor freqüentemente se publica postumamente
(se escrevia até a época da sua morte). Sendo que Josué tem sido
registrado como sendo guardião fiel e zeloso do Torá, obra literária
de Moisés, não é possível que pudesse ter feito sua publicação sem
acrescentar uma notícia deste tipo, da morte do seu grande pre-
cursor.

Evidências pela Data Anterior de Deuteronômio Comparada
com a dos Profetas do Oitavo Século

O título mais característico referente a Deus empregado em
Deuteronômio é “o SENHOR teu Deus”. Se o Livro tivesse sido
composto no século sete, ou posteriormente, teria naturalmente que
refletir a terminologia teológica dos grandes profetas tais como 
Amós, Oséias, Isaías e Miquéias, que formularam a teologia clássica
hebraica no século anterior. Uma obra da época de Josias deveria,
no mínimo, refletir os títulos divinos mais empregados durante o
ministério de Jeremias, contemporâneo de Josias. Mas as estatísti-
cas são bem diferentes: 1) Oséias emprega “o SENHOR teu Deus"
só quatro vezes, contrastando-se só as quinze ocorrências de Elohim
(Deus), e somente 35 vezes há a palavra “Senhor” (Yahweh). 2)
Isaías, caps. 1-35, emprega “O SENHOR teu Deus” só três vezes,
contrastando-se as ocorrências muito freqüentes de “SENHOR dos
Exércitos” e “o Santo de Israel”. 3) Jeremias caracteristicamente
emprega o título “SENHOR dos Exércitos” ou “Yahweh dos Exér-
citos”) e raras vezes cita a fórmula de Peuteronômio. O mesmo
se pode dizer dos profetas pós-exílicos, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Se, portanto, Deuteronômio tivesse sido composto na época de
Josias, pouco antes do Exílio, ou na época de Esdras, pouco depois
do Exílio (conforme sustentavam Hoelscher e Kennett), é muito
difícil esclarecer o emprego dum título divino que não era usado
correntemente em qualquer destes dois períodos. Isto é verdade
especialmente no que diz respeito ao título “O SENHOR Deus dos
seus pais”, que ocorre freqüentemente em Deuteronômio mas que
nunca aparece nem nos profetas pré-exílicos nem nos pós-exüicos;
acha-se, porém, em Êxodo 3:6 (“Eu sou o Deus de teu pai, o Deus
de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó”) e uma adaptação
do título se acha em Êxodo 15:2 e 18:4.

Alegava-se na escola de Wellhausen  que Deuteronômio revela
um conhecimento da história e da legislação contidas em J e E,
mas não das de P. Manley demonstra através de tabelas compa-
rativas que esta suposta ignorância de P não é um fato que se possa
sustentar. Levanta a pergunta (p. 80), “Se o código de Deute-
ronômio fosse uma ‘expansão’ do de JE, por que três quartos
dele foram omitidos? Será que no ínterim, o furto e o roubo dei-
xaram de existir? Será que as leis que protegiam os escravos
(Ex 21:22 e segs., 26 e segs.) não teriam tido uma atração especial
para um autor que, em outros trechos, revela tanta preocupação
em proteger os fracos? Além disto, por que estas antigas leis na
Tabela B (o autor se refere aqui a uma coletânea de leis sobre a
idolatria, o falso testemunho, os direitos do primogênito, etc., que
se assemelham até certo ponto a provisões no Código de Hamurabi,
mas que não se acham de modo nenhum em JE), semelhantes às
outras quanto ao seu tipo, permaneceram tanto tempo sem ser 
registradas? ... Somos forçados a concluir que a legislação de
Deuteronômio não é uma ‘expansão’ do código da aliança. Não
pode ser atribuída à antiga lei civil cananita, que é o que alguns
estudiosos postulam. Há diferenças marcantes entre as leis de
Deuteronômio e as que se acham nas placas de Ras Shamra; ...
isto sugere que o código deuteronômico deve ter sido definido antes
da colonização de Canaã, e há sinais de reação forte contra a in-
fluência cananita”. Também, no caso da lepra, Deuteronômio 24:8
segs. diz ao povo “tem diligente cuidado de fazer segundo a tudo o
que te ensinaram os sacerdotes levitas; como lhes tenho ordenado,
terás cuidado de o fazer”. É claro que estas palavras pressupõem
que a lei Sacerdotal já existia, mas, afinal, ela só se acha em P
(Lv 13.14). Como pois, pode-se dizer que o autor de Deutero-
nômio nada sabia acerca de P?

É claro que poderia ser argumentado que P simplesmente
tomou emprestado de D, mas, não deve ser esquecido que uma
boa parte dos motivos de se atribuir a D uma data anterior a P
se baseava no argumento que D não continha nada de distinti-
vamente sacerdotal. Se portanto, foi demonstrado que D de fato
contém material considerável que, noutras circunstâncias se con-
sidera peculiar a P, o argumento de se datar D antes de P cai por
terra. (Isto, naturalmente, já foi reconhecido pelos que insistem
que D também é posterior ao Exílio; mas deixa então em aberto
a pergunta sobre qual livro da Lei, afinal, foi achado por Hilquias
no templo em 621 a.C., se nem D existia naquela época).

Além das objeções contra a data da época de Josias, levanta-
das pelos críticos mencionados no Cap. 7 (págs. 108-109), devemos
observar como Deuteronômio 16:21,22 não condiz com as condições
existentes durante o reinado de Josias. Temos aqui uma lei que con-
templa a possibilidade de se fazer mais do que um altar ao Senhor,
(possibilidade natural antes da construção do templo), e, portan-
to, como Deuteronômio 27:1-8 cria uma verdadeira dificuldade
para os que acham que D foi composto com a finalidade de pro-
mover a programação de Josias (isto é, que o único culto válido
seria realizado em Jerusalém, como o centro único) Nota-se tam-
bém que os objetos que a reforma de Josias visava: os Kemãrím (sa-
cerdotes idólatras), as bãmot (lugares altos com templos ou orató-
rios), e os cavalos de bronze dedicados ao deus-sol — nenhum
deles é mencionado em Deuteronômio. O estado de coisas contem-
plado no Livro de Moisés simplesmente não pode ser enquadrado
naquilo que se sabe das condições históricas do sétimo século a.C. 

Evidências em Prol da Data de Deuteronômio ser Anterior
à Divisão da Monarquia

O texto de Deuteronômio contém muitas referências à natureza
sinistra da influência cananita sobre a pureza da religião de Israel.
Todos os santuários cananitas têm que ser completamente demoli-
dos, e não deve ficar o menor sinal de altares, aseras ou pilares.
Todas as práticas religiosas vinculadas à fé pagã precisam ser me-
ticulosamente evitadas, tais como ferver o cabrito no leite da sua
mãe, raspar a barba ou cortar a própria carne como sinal de
devoção a alguma divindade pagã. Estas numerosas provisões con-
tra a sobrevivência de costumes ou santuários pagãos sugerem um
perigo que ainda ameaça a geração do autor. Certamente parece
ser uma ameaça futura a ser considerada, mais do que um elemento
de corrupção que já tem sobrevivido por séculos.

É de crucial significação a maneira pela qual as tribos de
Israel são referidas. Se Deuteronômio tivesse sido composto depois
da divisão de 931 a.C., é quase inconcebível que nenhuma referência
ou alusão a este rompimento tivesse achado guarida no texto, mas
o fato é que quando se mencionam as tribos, são representadas como
sendo entidades separadas mas todas incluídas na nação única de
Israel (cf. 1:13,15; 5:23; 12:5, 14; 29:10; 31:28). O autor destas
passagens não revela a mínima consciência de haver uma sepa-
ração entre Judá e Efraim.

Evidências da Composição de Deuteronômio
Anterior à Conquista

Especialmente nos primeiros capítulos de Deuteronômio, há
numerosos apelos aos ouvintes no sentido de se lembrarem de epi-
sódios e condições que ainda permanecem na memória das pessoas
às quais se faziam os apelos. A memória da escravidão no Egito é
especialmente vívida. Seis vezes surge a frase, “da casa de servi-
dão”; cinco vezes lemos, “Lembrar־te־ás de que foste servo na terra
do Egito, e de que o SENHOR teu Deus te remiu”; cinco vezes há
a fórmula, “Por mão poderosa e por braço erguido”. Esta expres-
são, aliás, ocorre também em Êxodo 6:1 (passagem JE) e Êxodo
6:6 (passagem P), e tem analogia com uma expressão que ocorre
freqüentemente em textos egípcios antigos que descrevem cenas
de batalhas.  

Qualquer teoría da origem de Deuteronômio precisa ser levada
em conta pelo fato de que a terra de Canaã ao oeste do Jordão é
sempre considerada do lado de fora, quanto ao ponto de vista do
autor. Olhando da parte da fronteira sul, ou da parte do oriente,
das montanhas de Moabe, sempre se contempla a térra como atra-
vés da visão dum recém-chegado pensando em invadir, nunca atra-
vés da visão de quem já habita dentro do territorio. Cidades da
fronteira, tais como Escol (1:24) e Gaza (2:23) são mencionadas
de preferência às localidades centrais como Hebrom; e quando os
limites da terra da promessa são indicados, sempre se descrevem
com termos tais como “o monte dos amorreus”, e “Líbano” (1:7),
e não com a terminologia posterior, “de Dã até Beer-Seba”.

Quanto à legislação, já mencionamos um certo substrato de
lei fundamental que as provisões mosaicas tinham em comum com
o Código de Hamurabi, apesar do fato de que os contrastes são ain-
da mais significantes do que as semelhanças. Por exemplo, o código
babilónico faz uma nítida distinção entre o livre (awelum) e o
semilivre (mushkenum), além do escravo (wardum). Em Deu-
teronômio, não há quase nenhuma distinção de classes, e as con-
dições sociais correspondem a uma comunidade muito mais rural
e agrícola do que era o caso de Babilônia (ou de Israel na época de
Davi). Mais significativo ainda: a legislação mosaica tinha um
estofo profundamente religioso. Os estatutos de julgamento foram
descritos como sendo os de Yahweh seu Deus, e por este motivo
os Israelitas os observariam de corpo e alma. Dos 346 versículos
que compõem Deuteronômio caps. 12 até 26, mais do que metade
são morais e religiosos em qualidade, e 93 deles referem-se a man-
damentos específicos sobre a iminente colonização da terra. Deve
ser notado que as exortações, advertências e promessas de bem-
aventurança que são tão comuns em Deuteronômio faltam total-
mente no código babilónico. Nota-se também que no texto de
Hamurabi achamos um estilo estritamente impessoal, tal como se
poderia esperar dum sistema legal sofisticado pertencendo a mwa.
sociedade mais urbanizada. Em Deuteronômio, porém, parece-nos
que estamos escutando um líder velho e honrado, falando às pes-
soas que pessoalmente guiou através de muitos anos, lembrando-as
das experiências que juntamente compartilharam.

Sabemos suficientemente acerca de Babilônia na época de Ha-
murabi para reconhecer que estas eram de fato as condições da
época, depois de vários séculos de governo monárquico. Nos anos
posteriores da monarquia hebraica, as condições na Palestina de- 
vem ter sido semelhantes às de Babilónia, pois até então, o comércio
e a indústria estavam bem estabelecidos e as distinções entre as
classes vieram a ser marcantes. Indústrias e artesanatos se regula-
mentavam em bases comerciais, com multas em dinheiro para inde-
nizar donos de propriedades que sofriam perdas ou danos. Em Deu-
teronômio, porém, não há leis que tratem da compensação pelas
perdas causadas por construtores descuidosos, ou por danos à saúde
causados por médicos incompetentes. Esta legislação condiz me-
lhor com um povo simples e agrícola, profundamente interessado
no seu gado; a comida e as vestimentas são as preocupações prin-
cipais.

Finalmente, voltamos ao assunto da incompatibilidade da épo-
ca de Josias com o tipo de legislação que se acha em Deuteronômio
no que diz respeito à preservação da fé israelita. Deuteronômio
13:1-18; 17:2-5 decretam a pena de morte pela apostasia, ou por
incitar outros a abandonar a aliança da nação com Yahweh. Difi-
cilmente pode-se conceber, planejar ou reavivar tais leis durante a
época de Manassés (avô de Josias). Nem sequer são mencionadas
tais ameaças em conexão com a reforma de Josias. Até Driver é
forçado à conclusão de que “a época na qual poderiam ser postas em
prática já tinha passado havia muito; conseqüentemente, só tinham
um valor ideal” (Deuteronomy, ICC, p. xxxii). Mas, conforme in-
dicou H. M. Wiener, os idealistas podem talvez propor um padrão
alto em bases gerais, mas raras vezes chegam ao ponto de definir
um procedimento prático para se tratar das violações do ideal.

Porém, em ambas estas passagens, prescreve-se um procedimento
bem definido, e isto, no capítulo 13, pressupõe condições primitivas.
O legislador aqui está patentemente confiando na cooperação da
nação na sua totalidade, para impor as sanções desta lei, mesmo
que isto signifique a guerra civil. Deuteronômio 12:2-4 exige a des-
truição de todos os santuários cananitas “em cada colina, em cima
e debaixo de cada árvore verde”, com todos os “pilares” e “aserim”.
Aparentemente o autor considera esta destruição como sendo pra-
ticável e possível dentro da sua época. Por este motivo, insistia que
a terra precisava ser purificada destes símbolos de idolatria antes
que se pudesse prestar um culto aceitável a Deus. Tal atitude seria
incompatível com o sétimo século a.C., ou, realmente, com qualquer
século subseqüente à época de Salomão, quando os cultos idólatras
já tinham penetrado em todos os níveis da sociedade israelita. Até
o registro do Livro de Juizes, pertencendo a uma época anterior à
instalação da monarquia, indica a existência destas provisões deu-
teronômicas. Assim, o ato de Gideão (Jz 6:25-32) ao destruir o 
altar e a área dedicados a Baal, indicaria que ele sabia que tais
injunções existiam, e a defesa que seu pai faz deste ato indica
que há suposição de que seu filho tivesse feito a coisa certa.

Apesar dos esforços de Kennett e Hoelscher por encontrar um
ponto básico apropriado para o Livro no período pós-exílico de Es-
dras e de Neemias, reconhece-se ser muito mais fácil harmonizar as
condições históricas e sociais pressupostas em Deuteronômio com a
situação que deve ter havido na época da conquista original de Ca-
naã, do que com o período da Restauração. Na época de Esdras, os
cananitas e os amorreus eram pouco mais do que uma lembrança
do passado distante, e a nova nação israelita estava sendo ameaçada
por estrangeiros tais como os amonitas, os filisteus, e vários outros
povos que pouca coisa tinham a ver com os habitantes originais de
Canaã, no que diz respeito à origem étnica. Além disto, o tom con-
fiante do autor de Deuteronômio, que pensa na conquista irresis-
tível do território inteiro de Dã até Beerseba, não se pode conciliar
com as circunstâncias desencorajadoras e limitadas que se confron-
tavam com a minúscula província persa de Judéia depois da volta
da Babilônia. Em Deuteronômio vemos uma atitude de otimismo
brilhante, que acha sua expressão na série de bem-aventuranças
apropriadas ao povo de Deus que estava pronto a colonizar uma
nova terra na qual nenhuma oposição poderia se lhe fazer. É uma
terra que tem sido bem cultivada, produzindo bons frutos, e capaci-
tada a sustentar seus habitantes de maneira bem generosa. Isto
dificilmente se poderia reconciliar com a terra arruinada, desolada,
sem fortalezas, desnudada de videiras e de pomares, que era a si-
tuação enfrentada pelos imigrantes que voltavam da Babilônia.
Mais uma vez, o teste da evidência interna indica, sem erro, a época
da Conquista, cerca de 1400 a.C., e não qualquer uma das datas
sugeridas pela crítica moderna.

Antes de nos despedirmos de Deuteronômio, um comentário
final deve ser feito quanto às profecias maravilhosas que aparecem
no capítulo 28, começando com o v. 49. Segundo as interpretações
dos documentaristas, estas são referências às invasões dos opresso-
res assírios e caldeus, e, portanto, insistem que a passagem não
poderia ter sido composta antes da época de Josias ou do Exílio.
Mas, um. exame mais pormenorizado dos detalhes revela a insufi-
ciência desta explicação, mesmo do ponto de vista dos reacionalis-
tas. É bem claro, à luz da história subseqüente, que só as invasões
romanas de 70 d.C. e 135 d.C. satisfazem os termos desta profecia.
Os seguintes fatores devem ser levados em consideração: 1) Os 
invasores chegarão “dos confins da terra” (v. 49) — uma descrição
mais apropriada a Roma do que a Babilônia. 2) Sua linguagem
será totalmente estrangeira — isto se aplica muito mais ao Latim
do que à língua babilónica, língua semítica aparentada da hebrai-
ca (v. 49). 3) Os judeus vão ser espalhados por todas as nações,
duma extremidade da terra até à outra (v. 64) — o que não acon-
teceu na conquista realizada pelos caldeus, de modo nenhum. 4)
Não há a mínima sugestão de que haveria um retorno dum rema-
nescente à Palestina — como de fato houve dentro de poucas dé-
cadas após a morte de Nabucodonosor. 5) Os judeus cativos serão
levados ao Egito em grandes quantidades, por navio, até chegarem
a ser uma sobrecarga no mercado dos escravos — algo que nunca
aconteceu em conexão com a conquista babilónica, mas que chegou
a acontecer literalmente depois da queda de Jerusalém perante as
legiões de Tito em 70 d.C. Josefo indica que 97.000 prisioneiros
foram tomados na queda de Jerusalém, e que muitos deles acabaram
ficando nas minas egípcias (Guerras dos Judeus, VI, 9). Chegamos
à irresistível conclusão que esta profecia somente poderia ter che-
gado a existir através da revelação sobrenatural, e que seu cumpri-
mento concretizou-se séculos mais tarde do que indica a data wel-
lhausiana do último estrato do Pentateuco. 


Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.