28 de agosto de 2013

Eugene H. Merrill - Uma teologia do Levítico: Comunhão com o Santo

Ainda que o arranjo do concerto até este ponto especificasse claramente
a necessidade de Israel, o vassalo, comparecer diante do Senhor em ocasiões
declaradas e escolheu primeiro Moisés e depois o sacerdócio como mediadores
neste encontro. Por esse motivo, havia a necessidade de descrever a natureza do
tributo a ser apresentado, o significado preciso e a função do sacerdócio, a defi-
nição de santidade e profanação, e um esclarecimento mais rígido dos lugares e
épocas de peregrinação ao lugar da habitação do grande Rei. Este é o propósito
do livro de Levítico.
O próprio cerne da relação do concerto — comunhão entre o Senhor e o
povo — e o meio da sua realização já estão detalhados na declaração inicial de

Levítico, onde, com respeito aos holocaustos, o Senhor diz: “A porta da tenda da
congregação [a oferta] trará, para que o homem seja aceito perante o SENHOR”
(Lv 1.3, ARA). O servo tinha de aproximar-se do Soberano no seu lugar de ha-
bitação apresentando um símbolo apropriado de submissão obediente.
Em condições políticas comuns era inevitável que o príncipe vassalo ofen-
desse pelo menos ocasionalmente o senhor supremo e, então, precisasse fazer ges-
tos de boa vontade para pedir paz e normalização das relações. Mesmo que não
se tratasse disso, era sua incumbência comparecer regularmente ao palácio para
reafirmar a lealdade e amizade, uma reafirmação que tem de expressar-se na oferta
voluntária de tributo além da tributação obrigatória inerente na vassalagem.
O fato de o concerto entre o Senhor e Israel ter sido modelado segundo
os pactos do antigo Oriente Próximo em forma e função, permite-nos entender
com clareza incomum, a miríade de detalhes relacionados a culto no Pentateu-
co. Os sacrifícios e as ofertas tinham o objetivo de demonstrar a subserviência
de Israel, expiar as ofensas contra o Soberano, o Senhor, e refletir a harmonia e
índole pacífica da relação estabelecida ou restabelecida.
O holocausto e a oferta de manjares (Lv 1-2) serviam para identificar o
ofertante como servo do rei, servo que não ousava chegar diante dele de mãos
vazias. As ofertas pelo pecado e pela culpa (Lv 4-5) serviam para restabelecer
uma relação que fora rompida por causa da desobediência do servo. Elas eram
a sua recompensa a um senhor ofendido. As ofertas pacíficas (ou de comunhão,
Lv 3) constituíam expressão de ação de graças pelo vassalo a um estado de comu-
nhão que atualmente existia. Eram testemunhos voluntários e não-obrigatórios
de um coração cheio de ação de graças e louvor pela bondade do Senhor.
O papel do sacerdote em mediar estas ofertas também é significativo. Sen-
do também um vassalo, ele tinha de seguir protocolo apropriado no ministério
em prol do povo. Ele fazia o ritual relativo às muitas ofertas da nação acabadas
de serem descritas (Lv 6-7), e, como servo especial do Senhor, ele desfrutava
para si certa porção do tributo (7.28-30).
Como servo especial, o sacerdote seria nomeado e consagrado (Lv 8) para
aprender os métodos adequados da intercessão sacrificatória (9.1-10.7), e en-
tender que ofício e ministério privilegiados requeriam cânones inigualáveis de
integridade e conduta (10.8-15). Em outras palavras, o sacerdote era um ho-
mem santo que servia a um Deus santo em prol de um povo santo.
A essência do ministério sacerdotal está enunciada enfaticamente em Leví-
tico 10.10,11: “Para fazer diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e
o limpo, e para ensinar aos filhos de Israel todos os estatutos que o SENHOR lhes
tem falado pela mão de Moisés”. Israel era um povo separado para o Senhor de
todas as nações da Terra. O estilo de vida e o caráter têm de anunciar a todos os
povos o significado dessa identidade e missão.
Isto explica as restrições e prescrições elaboradas concernentes a certas coi-
sas: a oferta e comida de animais (Lv 11.1-23); a impureza de carcaças (w. 24-28); 
a contaminação de recipientes e artigos contaminados por criaturas imundas (w.
29-46); a impureza sugerida pela menstruação (12.1-8), a lepra (Lv 13-14) e a
emissão de líquidos corporais (Lv 15). Na maioria dos casos, estes não eram consi-
derados imundos por causa de alguma corrupção inerente, mas o próprio Senhor
que identificou como imundos para fornecer pontos de referência pedagógicos. Um
povo (como Israel) é santo por causa dos decretos eletivos e salvíficos do Senhor.
Tudo o mais é santo ou não-santo em virtude da deliberação e mandato divinos.
Não é assim por natureza, mas se torna assim pela vontade de Deus.
O povo santo tinha de manter este estado na conduta como também no
decreto. Por isso, era essencial haver provisão para a nação como um todo, a
fim de que se restabelecesse regularmente a posição de pureza. Isto era feito por
meio do ato congregacional de arrependimento e perdão expresso no ritual do
Dia da Expiação (Lv 16). Mas este evento anual de restauração ao estado origi-
nal de pureza da relação do concerto tem de ser vivenciado todos os dias na es-
trutura de um código de comportamento nacional e individual. Os estudiosos,
em sua maioria, descrevem Levítico 17 a 26 como “o código da santidade”.
O tema subjacente deste grande tratado sobre santidade está resumi-
do na frase “eu sou o SENHOR” (por exemplo, Lv 18.2,5,6,21,30; 19.2-4-
.10,12,14,16,18,26,28,30,31).  O caráter e comportamento humano (particu-
larmente de Israel neste contexto) têm de, a fim de que sejam chamado “santos”,
refletir o caráter e comportamento do próprio Deus. Ele é o padrão de santidade
pelo qual todos os outros devem ser medidos. Ele é, ao mesmo tempo, o moti-
vo e o motivador para a realização humana de santidade. Fundamentalmente,
Deus é santo, porque Ele é inigualável e incomparável. Aqueles a quem o Se-
nhor chama à servidão têm de entender a santidade não principalmente como
um tipo de “espiritualidade”, mas como a singularidade e o distanciamento
como eleitos e chamados de Deus. Mas a santidade também tem de expressar-se
na vida, apegando-se a princípios e práticas éticas que demonstrem a semelhan-
ça de Deus. Este é o significado subjacente de ser a “imagem de Deus”.
A chamada à santidade envolvia regulamentos relativos à santidade do
sangue (Lv 17), à proibição de incesto (18.1-18) e de outras perversões sexuais
(w.19-23); ao cumprimento do Decálogo (Lv 19.1-18) e de leis relacionadas
(19.19-20.27); e ao comportamento apropriado dos sacerdotes na vida particu-
lar e pública (Lv 21-22).
O povo de Israel, como nação santa, também tinha de entender que santidade
requeria aderência rígida a dias santos, a tempos declarados de convocação à presença do Senhor. Estamos falando do sábado semanal (Lv 23.3), a Páscoa e a Festa dos Pães
Asmos (w. 4-8), a Festa das Primícias (w. 9-14), a Festa das Semanas (w. 15-22), a
Festa das Trombetas (w. 23-25), o Dia da Expiação (w. 26-32), a Festa dos Taberná-
culos (w. 33.4), o ano sabático (25.1-7) e o ano do jubileu (25.8-55). O propósito
destas ocasiões era múltiplo, mas na estrutura da santidade era para lembrar o povo de
Deus de que não só pessoas, lugares e ações são santos, mas o tempo também é santo.
Tem de haver dias separados do calendário de atividades “seculares” e de interesse
próprio para que o povo-servo pondere sobre o significado da sua existência e da tarefa
santa à qual eles foram chamados. Os dias e tempos especiais os punham em contato
de modo singular com a Pessoa e propósitos do Deus da eternidade, que transcende a
vida a nível cíclico e calendárico, e que chama o povo outra vez à servidão na Terra.
A linguagem do concerto com a qual a seção finaliza deixa claro que este é o
significado subjacente da santidade e do código da santidade.  Em termos rememo-
rativos da inauguração do concerto no Sinai (Êx 21.1 -4), o Senhor fala da sua singu-
laridade e exclusividade (Lv 26.1), fato que exigia lealdade inquestionável (26.2).
A obediência ao Soberano que quebrou os laços da escravidão egípcia no
ato redentor do êxodo (Lv 26.13) resultaria, para Israel, na prosperidade mate-
rial (26.4,5), no sucesso militar (w. 6-8) e na garantia da presença continuada
e compromisso de concerto por parte de Deus (w. 9-12). A desobediência, po-
rém, resultaria em derrota (w. 14-17), empobrecimento (w. 18-20), praga (w.
21-26) e banimento da terra (w. 27-33).
Até no exílio haveria esperança, embora a bênção do concerto dependesse
da obediência, o concerto em si permaneceria intacto, pois estava baseado nas
promessas incondicionais de Deus, que pré-datavam o feitio do concerto no Si-
nai.  Tinha raízes nas garantias dadas aos pais patriarcais da nação de centenas
de anos antes da existência da própria nação (Lv 26.42). A restauração estaria
relacionada ao arrependimento do povo de Deus, mas até esse espírito de con-
fissão seria algo iniciado pelo favor gracioso de Deus (26.40,44,45).
A comunhão com o Santo exige uma santidade de disposição e comporta-
mento por parte do povo de Deus, cujas estruturas Ele mesmo estipula. A ade-
são a esses padrões assegura a continuação da comunhão e favor, mas a desobe-
diência traz julgamento inexorável. A natureza do compromisso do concerto é
tal, porém, que os propósitos do Senhor têm de prevalecer e o seu povo tem de,
cedo ou tarde, cumprir os propósitos para os quais Ele os elegeu e os resgatou.