20 de agosto de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Êxodo - A violação e renovação do concerto

Antes mesmo de Moisés descer do monte para compartilhar os segredos
maravilhosos da aproximação dos seus compatriotas ao Santo, eles já tinham
se entregado em atitude e ação que anulavam a possibilidade deste tipo de co-
munhão. O Criador que, em virtude do poder soberano, pusera a nação em
concerto com Ele, foi substituído por um deus criado pelo povo. Se o bezerro
de ouro era uma representação do Senhor ou meramente um pedestal no qual
Ele ficava invisivelmente, não é o importante. O ponto é que os primeiros dois
mandamentos foram odiosa e abertamente violados e essa violação arruinou a
base do arranjo do concerto.


O pecado de Arão e do povo era equivalente a repudiar o concerto, confor-
me está claro na narrativa da fabricação do bezerro. A saudação dada ao bezerro
foi os deuses “que te tiraram da terra do Egito” (Ex 32.4), o linguajar exato
do prólogo histórico do concerto sinaítico, no qual o Senhor descreveu a base
de autoridade para ser o Deus de Israel (20.2). Arão construiu um altar com
a finalidade de afirmação e cerimônia do concerto (32.5), precisamente como
Moisés, tempos antes, fizera no compromisso do povo ao arranjo do concerto
(24.4). A proclamação de Arão acerca de uma festa e a realização no dia seguinte
(32.5,6) eram novamente idênticas à celebração que assistiu à aceitação mútua
dos termos do concerto sob a orientação de Moisés (24.11).

Com o repúdio de Israel ao concerto há a declaração de resposta dada pelo
Senhor: Ele também romperia o compromisso e recomeçaria com uma nova
nação procriada pelo próprio Moisés (32.10). Porém Moisés lembrou ao Senhor
da natureza incondicional da promessa do concerto dada aos patriarcas (v. 13).
Pois o Senhor quebrar a Palavra jurada ao povo perverteria a sua própria integri-
dade divina e revelaria que Ele era, de certa maneira, menos que Deus.

O concerto com os pais permaneceu intacto, mas a sua expressão em Israel
como a semente e, mais particularmente, como o meio pelo qual toda a terra
seria abençoada, foi seriamente prejudicado. Para impressionar o povo com a
atrocidade da infidelidade ao concerto, Moisés quebrou as tábuas que conti-
nham as estipulações básicas do concerto. Isto demonstrou visualmente a rup-
tura da aliança que unira o Senhor e o povo. Ele destruiu o bezerro de ouro, ato
não tanto de raiva violenta que, através dele, a nova e ilícita relação do concerto
foi quebrada e realmente aniquilada.

A fidelidade do concerto de Deus permaneceu incólume, sendo confirmada
quando Ele chamou Moisés para empreender a viagem à terra que Ele prome-
tera aos pais (Êx 33.1-3). Mas até o próprio Israel reconheceu a confiança firme do Senhor e reagiu com arrependimento e reafirmação do concerto, a promessa
poderia nunca achar cumprimento. Desta maneira, reapareceu a tensão entre os
concertos patriarcais como promessa incompetente e o concerto sinaítico como
promessa condicional. A nação de Israel permaneceu ligada ao concerto com o
Senhor baseada na irrefutável promessa divina, mas a experiência das bênçãos
nesse concerto dependia do grau em que Israel reagia com fé e obediência.

Embora o povo se arrependesse deste ato de violação do concerto (Êx, Moisés pediu um sinal, alguma evidência tangível de que tudo estava
bem entre o Senhor e Israel (w. 12-16). Para atender a esta necessidade compre-
ensível, o Senhor prometeu revelar-se a Moisés em teofania, para mostrar-lhe a
glória (w. 17-23).

Este mesmo tipo de encontro teofânico entre o Senhor e Moisés, o media-
dor do concerto, acontecera na hora do ato inicial em que se fez o concerto no
Sinai (Êx 19.9-25). Deus comparecera no meio de trovões, relâmpagos e nuvem
espessa, advertindo o povo a evitar a cena de tal glória temerosa para que eles
não perecessem (v. 21). Moisés, Arão, os filhos de Arão e os setenta anciãos
poderiam subir, parte do caminho, junto (v. 24; cf. 24.1), mas só Moisés podia
chegar à própria presença do Senhor (24.2,15-18). Lá, vestido com nuvem e
fogo de glória, o Senhor declarou a Moisés a palavra do concerto.

A manifestação desta mesma glória logo em seguida à apostasia de Israel
foi, por sua vez, seguida pelo restabelecimento do concerto (Êx 34.1-9). Moisés
tinha de preparar mais duas tábuas, subir solitariamente ao cume do Sinai e re-
ceber a promessa de perdão e de relação renovada. Era a fidelidade do Se-
nhor que garantia a continuação apesar da desobediência de Israel (w. 34.6,7).
A renovação do concerto exigia a mesma resposta que teve a declaração
original da obrigação do concerto. E estava baseada no mesmo compromisso
do Senhor, a obrigação de demonstrar a soberania sobre Israel e entre as nações
através dos seus atos poderosos na natureza e na história (Êx 34.10). Isto seria
particularmente visível no que tange à conquista e ocupação de Canaã, pois foi
lá que o papel de Israel como povo do concerto seria desempenhado.

Deus, como Senhor da Terra e o Único que a dividiu e distribuiu suas par-
tes às nações, expulsaria os habitantes de Canaã e, desta forma, tornaria possível
que Israel habitasse aquela terra. Israel tinha de abster-se de fazer concerto com
estas nações e os seus deuses, pois isto contradiria o propósito do Senhor em
declarar a sua singularidade e a singularidade do desígnio do concerto para o
seu povo redimido (Êx 34.10b, 14-16). Isto significava que os deuses de Canaã
tinham de ser irrestritamente repudiados (v. 14) e as estruturas físicas da adora-
ção ritual teriam de ser erradicadas da terra (w. 13,17).

Êxodo 34.10-17 constitui uma elaboração dos dois primeiros mandamen-
tos, a proibição de adorar outros deuses e de fabricar imagens para representá-
los (ou até mesmo representar o próprio Deus). Isto era necessário, porque foi
com relação a estes dois mandamentos que ocorrera a apostasia de Israel sob a
orientação de Arão. O bezerro de ouro foi a rejeição da singularidade do Senhor como libertador e a violação do princípio anicónico de que Deus Criador não
pode ser representado por criação de mãos humanas.

O restante da redeclaração do regulamento do concerto (Ex 34.18-26) está
claramente ligado aos grandes princípios subjacentes dos dois primeiros man-
damentos elaborados. O reconhecimento do Senhor como grande Rei tras con-
sigo atos apropriados de resposta, atos a ser empreendidos em tempos e lugares
declarados. O centro da atenção é as festas e os dias santos, pois estes proporcio-
navam a ocasião por meio da qual o Israel vassalo poderia prestar homenagens
ao Soberano, cuja incomparabilidade já fora tratada.

O primeiro é a Festa dos Pães Asmos (e o seu concomitante, a Páscoa), que
chama a atenção ao ato redentor de o Senhor salvar o filho Israel da escravidão
cruel e desesperadora (Ex 34.18-20). Isto requer a oferta, a Ele, dos primogêni-
tos de todo o Israel ou em sacrifício ou em redenção.

O segundo é o sábado, aqui ordenado sem uma cláusula de motivo, mas
na expectativa da vida agrícola de Canaã, onde plantar e colher seriam empre-
gos regulares (Ex 34.21). Mesmo nesses tempos ocupados, o sétimo dia deveria
estar livre para a adoração ao Senhor.

O terceiro e quarto eram a Festa das Primicias e a Festa dos Taberná-
culos, respectivamente, que também tinham de ser separadas para permitir
a peregrinação ao palácio do Senhor, Deus de Israel (Ex 34.22-24). Nova-
mente o propósito está claro: O Deus que escolhera os filhos de Israel como
propriedade peculiar e que os resgatou com poder grandioso tem de receber
da mão deles o tributo proporcional à majestade divina e apropriado à vida
deles na terra. Deste modo, o concerto que os une pode achar expressão
tangível.

O material do tributo, embora não detalhado aqui, tem significação pró-
pria (Êx 34.25,26). Positivamente, tinha de seguir prescrição própria como par-
te de um rito inerente de Israel como membro do concerto (w. 25,26a). Mas
negativamente, tinha de evitar qualquer coisa que tivesse laivos do paganismo
cananeu (v. 26b). Israel como povo adorador exclusivo de um Deus incompará-
vel tinha de aderir estritamente a um culto que enfatizasse e derivasse significa-
do dessa relação especial.

Tendo recebido os Dez Mandamentos outra vez, Moisés desceu do
monte Sinai para compartilhar a comunicação divina com o povo (Êx
. A fosforescencia do brilho da glória divina, uma luminescência
também sugerida no seu encontro anterior com o Senhor (24.17), bri-
lhava tão intensamente no rosto de Moisés que ele era forçado a usar um
véu quando estava diante do povo. A natureza física deste fenômeno deve
permanecer um mistério, mas o significado teológico é cristalinamente
claro. Moisés, como mediador do concerto, foi autenticado como tal pela
sua semelhança com o Deus da glória, a quem ele representava. E preci-
samente por isto que Moisés e Elias tomavam parte no brilho do Jesus
transfigurado (Lc 9.31,32).


EUGENE H. MERRILL

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.