15 de agosto de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Êxodo - Uma aproximação ao Santo

O estabelecimento de uma relação do concerto demandava recursos por
meio dos quais a parte vassala comparecia regularmente diante do grande Rei
para prestar-lhe contas. Nas relações históricas normais deste tipo entre meros
homens, um tipo de intercessão era obrigatório e, em todo caso, um protocolo
rígido tinha de ser seguido.  Quão maior devia ser a exigência no caso de um
povo pecador como Israel que tinha de comunicar-se e prestar contas a um
Deus infinitamente transcendente e santo.

O lugar de reunião. O Senhor já prometera condescender aos israelitas deter-
minando a localização da sua presença entre eles para que se reunissem com Ele (Ex
23.17). Agora, no monte, Ele descreveu em detalhes a Moisés a forma que esse lugar
de reunião deveria ter (Ex 25-27; 30-31) e o aparato sacerdotal que tinha de estar
em uso para propiciar a intercessão entre o Santo e o seu povo (Ex 28-29). 


É impossível que o santuário seja produto da imaginação de Moisés ou
de Israel, pois cada uma de suas peças e mobília deveria tipificar um aspecto da
Pessoa e propósitos do Senhor. Portanto, tinha de seguir o padrão e especifica-
ções reveladas pelo próprio Senhor (Ex 25.9), um edifício na terra modelado de
acordo com um protótipo divino (cf. 1 Cr 28.12,19; At 7.44; Hb 8.2,5).

A Arca do Concerto (Ex 25.10-22), o objeto solitário no Lugar Santíssi-
mo, tinha de funcionar como o repositório do texto do concerto (w. 9,21) e o
trono, no qual o Senhor se assentava invisivelmente entre o seu povo (v. 22). O
Tabernáculo era o palácio do Rei, e o Lugar Santíssimo era a sala do trono.
No Lugar Santo ficava a mesa do pão da proposição (Ex 25.23-30) e o
castiçal de seis braços (w. 31-40). A mesa tinha o objetivo de receber as doações
regulares de Pães Asmos como tributo à generosidade do Senhor que supriu as
necessidades diárias, enquanto que o castiçal representava a iluminação da reve-
lação e orientação divina (cf. 27.20,21). O Tabernáculo, com as cortinas (26.1-
14), as tábuas (w. 15-25), as varas (w. 26-30), o véu (w. 31-35) e o reposteiro
(w. 36,37), tinha de ser erguido em conformidade rígida ao padrão da revelação
divina (v. 30), pois seus materiais e medidas atendiam o propósito mais sublime
da instrução tipológica e teológica.

Além do Tabernáculo, o principal objeto no pátio exterior (27.9-19) era
o grande altar de bronze ou altar do holocausto (27.1-8), no qual as ofertas de
expiação e comunhão de Israel eram apresentadas ao seu Senhor (cf. 29.38-46).
Trataremos agora da sua função no contexto do concerto.

O sacerdócio. Tendo descrito o lugar de reunião, o Senhor tratou da ques-
tão da intercessão, um assunto que pressupunha e dava origem à ordem sacer-
dotal. A aproximação ao Santo, tanto dentro quanto fora da tradição bíblica,
sempre inclui certo tipo de ministério mediador, pois isto é inerente em todo
tipo de “alta religião” na qual existe um abismo intransponível entre a deidade
inefável e a humanidade finita.

Claro que, em tempos mais antigos, o Senhor se encontrava diretamente
com a criação que, por sua vez, se comunicava com Ele em palavras e atos. Com
o transcurso do tempo e o surgimento das estruturas familiares patriarcais e tri-
bais, o pai da casa atuava também como sacerdote, o ministro que ficava entre a
família e o seu Deus. Por fim, e até antes do concerto do Sinai, desenvolveu-se
certo tipo de ordem sacerdotal, como Exodo 19.22 expressamente declara. Não
podemos determinar como esse ministério se originou e como funcionava, mas
está claro que surgiu quase que coincidentemente com a transição de Israel de
clã patriarcal para milhares de indivíduos que se multiplicaram e prosperaram
na terra de Gósen. O desejo do Senhor que o povo fosse livre para celebrar e
cultuá-Lo no deserto testifica um aparato relacionado ao culto que exige ne-
cessariamente certo tipo de oficiantes sacerdotais (cf. Ex 3.18; 5.1,3,8; 7.16;
8.25-29).

Um decisivo ponto significativo foi alcançado, entretanto, com a conso-
lidação do povo israelita em um corpo comum em concerto com o Senhor. A
adoração particular ou até familial já não bastaria para expressar o significado
teológico da nova relação. Um povo corporativo precisava, como povo, de um
meio de achegar-se ao Senhor do concerto, um meio de achar o foco espacial
no Tabernáculo, mas isso também exigia um nível de intercessão apropriado
ao caráter mudado do povo como uma unidade que, como entidade, deveria
comparecer diante do seu Deus.

Talvez somente em virtude de ser irmão de Moisés — que já fora desig-
nado como mediador do concerto —, Arão e seus filhos foram escolhidos para
fundar a ordem sacerdotal (Ex 28.1). Nessa função, eles já tinham participado
de modo preliminar quando, juntamente com setenta anciãos, acompanharam
Moisés ao monte Sinai no ato de reunir-se com o Senhor na cerimônia do con-
certo (24.1,9). Este encontro em si definiu o que significava ser sacerdote, a
saber, representar o povo diante do seu Deus.

Por incrível que pareça, talvez, a primeira exigência depois da escolha de
Arão e seus filhos foi a confecção de roupas apropriadas com as quais eles minis-
trariam, tendo cada peça um significado. Compunham-se primeiro de um éfode
(28.6-14) feito dos mesmos tecidos que as cortinas do Tabernáculo (26.1). O
principal propósito desta peça de roupa que se assemelhava a um avental era
fornecer, na alça, sobre os ombros, um engaste para duas pedras preciosas nas
quais estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel, seis em cada pedra.
O significado de tudo isso é claro: o sumo sacerdote tem de levar diante do
Senhor todas as pessoas de todas as tribos para que Ele se lembre delas com
benevolência (28.12).

A frente do éfode (Ex 28.15-30) era anexado um peitoral (ou bolso), no
qual se fixavam doze pedras preciosas em fileiras de três. Em cada uma destas
também se inscrevia o nome de uma tribo. Em virtude de o peitoral ser usa-
do em cima do coração (v. 29) falava da intercessão compassiva empreendida
pelo sacerdote quando ele entrava na presença do Senhor a favor de cada tribo.

Um aspecto importante deste papel mediador era a comunicação da vontade de
Deus às pessoas, especialmente antes do surgimento do movimento profético
formal. O peitoral também continha o Urim e o Tumim, dois objetos pelos
quais o sacerdote discernia as respostas “sim e não” do Senhor às perguntas
dirigidas de maneira apropriada.

Outra parte do traje sacerdotal era o manto azul, feito todo de uma peça
inteira (Ex 28.31-35). O sumo sacerdote o usava no Lugar Santo no trabalho
de intercessão. Semelhantemente, ele se adornava com uma mitra na qual havia
uma lâmina de ouro inscrito com os dizeres: “Santidade ao SENHOR” (V. 36).

Simbolizava a atitude santa que o povo de Deus tinha de exibir ao fazer-lhe as
ofertas de tributo. Arão, como “homem santo”, se consagrava de forma que
nele, como o representante da nação, esta comparecesse sem culpa e irrepreen-
sível diante de Deus.

Por fim, consta as roupas de baixo confeccionadas em linho, cujo pro-
pósito era proteger o recato dos sacerdotes (Ex 28.42,43). Esta lembrança da
vergonha da nudez associada com a Queda estava em nítido contraste com o
comportamento dos sacerdotes pagãos que executavam seus deveres nus. Todas
as peças de roupa dos sacerdotes israelitas foram projetadas para comunicar dois
dos atributos do próprio Deus — glória e beleza (29.2,40). Eles falavam simul-
taneamente do distanciamento e, ao mesmo tempo, da proximidade divina.

A seguir, consta a cerimônia de consagração (Êx 29.1-37) que exigiu a con-
fecção das roupas santas há pouco descritas. Primeiramente, havia a apresenta-
ção de animais e cereais, a lavagem cerimonial dos candidatos, o adorno com
as insígnias sacerdotais e a unção com óleo. Depois, era a matança do novilho
no qual Arão e seus filhos tinham colocado as mãos, transferindo a culpa para o
animal inocente (v. 14). De acordo com o protocolo do concerto, sacrificava-se
um carneiro como holocausto, “oferta queimada” ao Senhor (w. 15-18). Mata-
va-se um segundo carneiro e aplicava-se o sangue na orelha direita, no polegar
da mão direita e no dedo grande do pé direito dos sacerdotes. O propósito era
obviamente consagrar estes ao serviço do Senhor, de forma que os sacerdotes
ouvissem e fizessem a vontade de Deus e andassem fielmente segundo foram
chamados. Em seguida, a oferta das partes escolhidas do animal era dada ao
Senhor e as partes designadas desta oferta eram consumidas por Arão e seus fi-
lhos. Esta oferta de comunhão fala da obtenção de um estado de concerto entre
o Senhor e a ordem sacerdotal, um tipo de concerto dentro do concerto. Israel
recebera o privilégio de ser um povo especial; agora, Arão e seus filhos recebem
o privilégio de serem um instrumento especial, mediador entre esse povo e o
Senhor, o seu Deus. Uma refeição do concerto sempre era parte de tal arranjo
(cf. 24.11; 32.6), e é isso que está exatamente implícito no compartilhamento
do carneiro da consagração pelo Senhor e pelos sacerdotes.

O tributo. A consagração dos sacerdotes, que caracterizava sacrifício apro-
priado, leva naturalmente à função de sacrifício nos cultos, assunto exaustiva-
mente descrito no livro de Levítico. Mas é aqui, em Êxodo 29.28-46, que pela
primeira vez vemos a ligação entre sacerdote e Tabernáculo. O Senhor indicou
que Ele, o grande Rei, se reuniria com o povo do concerto de modo especial e
inigualável no santuário portátil do Tabernáculo. Ele o faria pelo ministério
mediador dos sacerdotes. Agora temos de elaborar a expressão visível por meio
da qual a aproximação do povo ao seu Deus se torna possível.

Fundamentalmente, aproximação e permanência aceitável diante de Deus
são a essência do sacrifício religioso, ou, talvez, do propósito. Quer dizer, o
adorador ousa não ir à deidade de mãos vazias, pois certo tipo de oferta vicária
tem de estabelecer o direito de agir assim e algum tipo de gesto devocional tem
de significar o reconhecimento do status do adorador. Nos termos do concerto
(e era o que governa todas as relações de Israel com o Senhor), o sacrifício era
sinônimo de tributo, um ponto cristalinamente claro na passagem em estudo.

Os holocaustos de cordeiros oferecidos duas vezes durante o dia tinham
de ser feitos à porta do Tabernáculo onde, diz o Senhor, “vos encontrarei para
falar contigo” (Êx 29.42). Era no Tabernáculo que o Senhor habitaria e onde 
Ele manifestaria a soberania entre o seu povo e sobre o seu povo (v. 45). Tudo
isso e historicamente baseado no ato redentor de libertação do Êxodo. Ele ti-
rou os israelitas do Egito a fim de habitar entre eles e exercer as prerrogativas
reais i v. 46). O reconhecimento do domínio e residência divina entre eles seria
expresso por Israel, seu povo, através da apresentação devota de ofertar, de tri-
butar, a Ele.

A exigência do sacrifício no Tabernáculo e a função dos sacerdotes em
dizer a apresentação regular das ofertas requeriam a santidade tanto dos sacer-
dotes quanto do povo para que tivessem validade. Embora a fé do concerto fosse
expressa corporativamente e por intercessão sacerdotal, cada pessoa tinha acesso
ao Senhor individualmente e em comunhão pessoal. Por isso se fez provisão
para a expiação e oração.

Imediatamente à frente do véu que separava o Lugar Santíssimo estava o
altar do incenso, cuja função era queimar as especiarias que simbolizam a do-
çura das orações do povo do concerto, enquanto as orações subiam até o trono
da glória (Êx 30.1-9; cf. Ap 5.8 ; 8.3). Claro que havia sacrifício de oração como
também sacrifício de propriedade.

Parte do ritual da expiação anual era a purificação deste altar (Êx 30.10)
e por conseguinte, do próprio povo. Todos os adultos tinham de pagar anual-
mente o tributo igual ao de meio siclo para sustentar este ministério e expressar
com a oferta a verdadeira essência dessa expiação — que fora feito um resgate
pelas vidas (w. 11-16). Moisés tinha de fazer misturas de perfumes e óleos com
os quais ele ungiria o Tabernáculo e todos os pertences, como também Arão e
seus filhos, uma tradição a ser seguida em todas as gerações vindouras. Nova-
mente o propósito era designar estes como santos, separados ao Senhor para o
seu próprio uso e glória (w. 29,32). Estes ingredientes, como também o incenso
para o altar de ouro (altar do incenso), tinham de ser fabricados de acordo com a
prescrição rígida e inigualável, porque falavam da santidade e mérito exclusivos
do Deus de Israel (w. 32,38).

A aproximação de Israel ao Senhor, o grande Rei, era claramente multi-
sensorial. O povo via a glória no fogo e na nuvem, ouvia Deus no trovão e no
terremoto, e cheirava algo da doçura divina na fragrância dos perfumes. O Deus
fora da percepção sensorial se revelava metaforicamente de modo que os seres
humanos sensíveis pudessem entender.

Êxodo 31 resume a aproximação ao Santo. Há uma lista de todo aparato
físico necessário para essa aproximação — o Tabernáculo com as mobílias e
equipamentos (w. 7-11), a escolha divina de trabalhadores, qualificados por
terem sido selecionados pelo Senhor e capacitados com o próprio Espírito de
Deus (w. 1-6). A seção conclui com o Senhor reafirmando o concerto a Moisés,
concerto sujo cerne está gravado nas tábuas de pedra (v. 18). Mas se estas tábuas
testemunham da fidelidade e compromisso de Deus, a resposta de Israel tinha
de tomar forma na devoção ao sinal do concerto sinaítico: a observância cuida-
dosa do sábado (w. 12-17). A firmeza da obra redentora do Senhor na história
e na promessa fundamentava-se no trabalho poderoso na criação. Era adequado
que a celebração do término desta obra criativa no sétimo dia fosse traduzida
em comemoração da nova obra criativa pela qual o Senhor fez de Israel o seu
povo na redenção e no concerto.

EUGENE H. MERRILL

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.