24 de julho de 2013

Roland de Vaux - A solidariedade familiar: o Go'el

Os membros da família em sentido amplo devem uns aos outros ajuda e proteção. A prática particular desse dever é regulada por uma instituição da qual se encontram formas análogas em outros povos, por exemplo, entre os árabes, mas que, em Israel, toma uma forma particular, com um vocabulário especial. E a instituição do go 'el, palavra procedente de uma raiz que significa “resgatar, reivindicar”, e, mais fundamentalmente, “proteger”.
O go ’el é um redentor, um defensor, um protetor dos interesses do indiví¬duo e do grupo. Ele intervém em certo número de casos.
Se um israelita precisou se vender como escravo para pagar uma dívida, deverá ser resgatado por um de seus parentes próximos, Lv 25.47-49.

Quando um israelita precisa vender seu patrimônio, o go'el tem direito preferencial na compra, pois é muito importante evitar a alienação dos bens da família. A lei está codificada em Lv 25.25. E como go’el que Jeremias adquire o campo de seu primo Hanameel, Jr 32.6s.
O costume é ilustrado também na história de Rute, mesmo que aí a com¬pra da terra se complique por um caso de levirato. Noemi tem uma posse que a pobreza a obriga a vender; sua nora Rute é viúva e sem filhos. Boaz é um go ’el de Noemi e de Rute, Rt 2.20; mas há um parente mais próximo que pode exercer o direito de go’el antes que Boaz, Rt 3.12; 4.4. Esse primeiro go'el estaria disposto a comprar a terra, mas não aceita a dupla obrigação de com¬prar a terra e casar com Rute, pois o filho que nascesse dessa união levaria o nome do defunto e herdaria a terra, Rt 4.4-6. Boaz adquire então a posse da família e se casa com Rute, Rt 4.9,10.

O relato mostra que o direito do go’el era exercido segundo certa ordem de parentesco; esta é detalhada em Lv 25.49: primeiro o tio paterno, depois o filho deste, finalmente os outros parentes. Além disso, o go’el pode, sem ser por isto censurado, renunciar a seu direito ou fugir de seu dever: o ato de descalçar-se, Rt 4.7,8, significa o abandono de um direito, como o gesto aná¬logo na lei do levirato, Dt 25.9. Contudo, nesse último caso, o procedimento tem um caráter infamante. A comparação dessa lei com a história de Rute parece indicar que a obrigação do levirato era assumida, no início, pelo clã, assim como o resgate do patrimônio, e que foi mais tarde restrito ao cunhado .

Uma das obrigações mais graves do go ’el era a vingança de sangue, estu¬dada com a organização tribal por causa de sua relação com os costumes do deserto .

O termo go’el passou à linguagem religiosa. Assim, Iahvé, vingador dos oprimidos e salvador de seu povo, é chamado go’el em Jó 19.25; SI 19.15; 78.35; Jr 50.34, etc., e frequentemente na segunda parte de Isaías: 41.14; 43.14; 44.6,24; 49.7; 59.20, etc.