16 de julho de 2013

Roland de Vaux - Os Recabitas

O que os profetas exaltavam como um ideal, mas que não procuraram nunca praticar, foi realizado por um grupo de extremistas, os recabitas.

Nós os conhecemos principalmente por Jeremias: para dar uma lição ao povo, o profeta convoca ao Templo os membros da família de Recabe e lhes oferece vinho. Eles se negam a beber alegando que seu antepassado Jonadabe, filho de Recabe, lhes havia dado esta ordem: “Nunca bebereis vinho, nem vós nem vossos filhos; não edificareis casas, não fareis sementeiras, não plantareis nem possuireis vinha alguma; mas habitareis em tendas todos os vossos dias, para que vivais muitos dias sobre a terra em que peregrinais (gerim).” Essa fidelidade duradoura às prescrições de seu antepassado é apresentada como exemplo aos judeus que não seguiam a palavra de lahvé, Jr 35.



É interessante comparar com esse texto uma indicação de Jerônimo de Cardia, relativa aos nabateus de fins do século IV a.C.: “É lei entre eles não semear trigo, nem plantar árvores frutíferas, nem beber vinho, nem construir casas; qualquer um que proceder de outra maneira é condenado à morte” (em Diodoro de Sicília XIX, 94). Nestes dois textos, de semelhança tão surpreen¬dente, há o essencial do que opõe a vida dos nômades à dos agricultores sedentários. Os recabitas mantinham-se voluntariamente à margem da civili¬zação urbana. Se encontram-se em Jerusalém, é porque foram impelidos por circunstâncias excepcionais: haviam se refugiado fugindo dos caldeus, Jr 35.11.

Eles vivem normalmente como nômades, sem vínculos com o solo. Mas, ao mesmo tempo, são javistas fervorosos; todos os nomes recabitas que conhecemos são nomes javistas, Jr 35.3. Jeremias apresenta-os como exem¬plo, e lahvé lhes promete sua bênção, Jr 35.19. Como os nômades, formam um clã: são os benê Rekab, formam a bêt Rekcilr, mas, ao mesmo tempo, consti¬tuem uma seita religiosa, e seu antepassado Jonadabe é um legislador religioso.

Conhecemos esse Jonadabe, filho de Recabe, por ter participado na revo¬lução de Jeú, II Rs 10.15-24. Quando este foi a Samaria para exterminar o culto de Baal, tomou consigo Jonadabe com a intenção de fazê-lo admirar seu “zelo para com o Senhor”, v. 16. Jonadabe era, pois, um javista convicto e
todos conheciam sua intransigência. Este episódio permite situar a origem dos recabitas por volta do ano 840 a.C. Segundo o testemunho de Jeremias, 250 anos mais tarde continuavam fiéis ao mesmo tipo de vida.
Tentou-se, voltando ainda mais no passado, relacionar os recabitas com os quenitas, aquele grupo de origem não-israelita que levava uma vida semi- nômade nos confins ou no interior de Israel, Jz 1.16; 4.11; 5.24; I Sm 15.4-6; 27.10, e por meio de quem, segundo alguns autores, os israelitas teriam toma¬do conhecimento do nome Iahvé. Essa relação entre os recabitas e os quenitas apóia-se em dois textos das Crônicas, I Cr 2.55 e 4.12. Esses textos são critica¬mente duvidosos, e é estranho que mencionem Recabe ou a bêt Rekab e não façam alusão a Jonadabe. No máximo, significam que o Cronista reuniu, com a ficção de um laço genealógico, agrupamentos humanos que levavam mais ou menos o mesmo tipo de vida.
A história dos recabitas começa para nós com Jeú e termina nos tempos dc Jeremias. Não podemos considerá-los como sobreviventes da época em que Israel levava vida nômade, e a Bíblia diz explicitamente que sua regra só foi estabelecida por Jonadabe no nono século antes de nossa era. Não é uma sobrevivência, mas um movimento de reação.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.