19 de julho de 2013

Roland de Vaux - O tipo de família Israelita

Os etnógrafos distinguem diversos tipos de família. No fratriarcado, a autoridade é exercida pelo irmão mais velho e é transmitida, do mesmo modo que o patrimônio, de irmão para irmão. Foram reconhecidos indícios dessa forma social entre os hititas e hurritas, na Assíria e em Elam. Pensou-se encontrar vestígios dela no Antigo Testamento: a instituição do levirato, da qual se falará tratando do casamento , a iniciativa tomada pelos filhos de Jacó para vingar o ultraje feito à sua irmã Diná, Gn 34, o papel desempenhado por Labão no acordo de casamento de sua irmã Rebeca, Gn 24. Nenhum desses exem¬plos parece convincente. Contudo, é necessário reconhecer que, no caso do levirato e em alguns traços da história de Rebeca, pode haver influência de costumes assírios e hurritas, já que admite-se, pelo menos como hipótese, a existência entre os assírios e hurritas de um fratriarcado primitivo.


O matriarcado é um tipo de família muito mais comum nas sociedades primitivas. Sua característica não é que a mãe exerça a autoridade, caso raro, mas que a determinação do parentesco seja por ela. A criança pertence à famí¬lia e ao grupo social da mãe, não pertence à família dos parentes de seu pai, e os direitos à herança se fixam pela descendência materna. Segundo a escola etnográfica de Graebnere de Schmidt, o matriarcado é uma forma vinculada à civilização de cultivo de baixa escala, enquanto que a civilização pastoril é patriarcal.

Seguindo Robertson Smith, muitos autores pensam que o regime matriar¬cal foi a primeira forma da família entre os semitas. Para Israel, buscam-se vestígios em certos costumes e relatos do Antigo Testamento. Em Gn 20.12, Abraão se desculpa por ter feito Sara passar por sua irmã, já que efetivamente era sua meio-irmã e a tinha desposado. Da mesma maneira II Sm 13.13 dá a entender que Amnom e Tamar podiam se casar: eram filhos de Davi, mas não  da mesma mulher. O casamento com uma meio-irmã, tanto por parle da mãe quanto por parte do pai, é proibido pelas leis de Lv 18.9; 20.17; Dt 27.22; cf. Ez22.11. Os dois textos citados indicam que nem sempre havia sido assim, e disto se conclui que, primitivamente, o parentesco era determinado pela mãe. Os autores citados lembram também que a mãe era quem escolhia o nome para o recém-nascido , e que os dois filhos de José, nascidos de mulheres egípcias, não foram reconhecidos como filhos de Israel até terem sido adotados por Jacó, Gn 48.5.

Esses argumentos são insuficientes: o texto relativo aos filhos de José não tem o sentido que lhe é atribuído, como mostra o versículo seguinte, Gn 48.6. Os textos relativos a Sara e a Tamar provam somente que o casamento com uma meio-irmã não era ainda proibido. Por outro lado, não é sempre a mãe que dá nome ao filho, Gn 16.15; 17.19; 38.29-30.

Pensou-se também encontrar na Bíblia, em particular no casamento de Sansão em Timna, Jz 14, um tipo raro de união, em que a mulher não abando¬naria seu próprio clã, atraindo a ele o marido. Seria uin vestígio do matriarcado primitivo. A questão será tratada quando estudarmos o casamento .

De qualquer forma e qualquer que tenha sido a pré-história de Israel, que não podemos conhecer, a família israelita é claramente patriarcal desde nos¬sos documentos mais antigos. O termo próprio para designá-la é “casa pater¬na”, bêt ’ab, as genealogias sempre são dadas seguindo a linha paterna e as mulheres só são mencionadas excepcionalmente; o parente mais próximo por linha colateral é o tio paterno, cf. Lv 25.49. No tipo normal do casamento israelita, o marido é o “senhor”, o ba‘al de sua esposa. O pai tem sobre os filhos, inclusive os casados, se vivem com ele, e sobre suas mulheres, uma autoridade total, que antigamente chegava até o direito de vida ou morte: Judá condena sua nora Tamar, acusada de imoralidade, Gn 38.24.

A família compõe-se daqueles elementos unidos ao mesmo tempo pela comunidade de sangue e pela comunidade de habitação. A “família” é uma “casa”, e “fundar uma família” se diz “edificar uma casa”, Ne 7.4. A família de Noé compreende sua esposa, os filhos e as esposas dos filhos, Gn 7.1 e 7. A família de Jacó agrupa três gerações, Gn 46.8-26. A família pertencem tam¬bém os servos, os residentes estrangeiros ou gerim , os apátridas, as viúvas e órfãos, que vivem sob a proteção do chefe de família. Jefté, filho ilegítimo e expulso de casa por seus irmãos, considera-se ainda pertencente à “casa de seu pai”, Jz 11.1-7.

Como o termo “família” em nossas línguas modernas, o termo bêt, “casa”, i- suficientemente elástico para abranger inclusive o povo inteiro, a “casa de Jacó” ou a “casa de Israel”, ou uma fração importante do povo, a “casa de José”, a “casa de Judá”. Pode designar o parentesco em sentido lato: Jazanias, o descendente de Recabe, seus irmãos e todos os seus filhos formam a bêt Kckab, Jr 35.3; os chefes de “famílias” das listas do livro de Crônicas estão à frente de grupos às vezes numerosos, I Cr 5.15,24; 7.7-40; 8.6,10,13; 9.9; .’-3.24; 24.6...; os chefes de “famílias” que voltam de Babilônia com Esdras trazem consigo entre vinte e oito e trezentos homens, Ed 8.1-14.

Em sentido amplo, família se confunde com clã, a mishpahah. Esta habita em um mesmo lugar, ocupa uma ou várias aldeias segundo sua importância. Assim, a mispahah dos danitas ocupa Zorá e Estaol, Jz 18.11: ou então várias mislipahot se encontram no interior de uma mesma cidade, como os grupos judeus e benjamitas registrados em Jerusalém por Neemias, Ne 11.4-8, e pelo Cronista, I Cr 9.4-9. O clã tem interesses e deveres comuns e os membros têm consciência dos laços de sangue que os unem: se chamam “irmãos”, I Sm 20.29.

A unidade social que constitui a família se manifesta também no plano religioso. A Páscoa é uma festa de família celebrada em cada casa, Êx 12.3,4 e 46. Cada ano, o pai de Samuel conduzia toda sua família em peregrinação a Silo, I Sm 1.3s.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.