11 de julho de 2013

Roland de Vaux - O ideal nômade dos profetas

Apesar dessas sobrevivências, os textos mais antigos demonstram pouca estima pela vida nômade. A história de Caim, Gn 4.11-16, é uma condenação do nomadismo puro: Caim é expulso para o deserto como castigo do homicí¬dio de Abel, andará errante e fugitivo, marcado com um sinal, o wasm dos nômades do deserto. É evidente que Abel, que era pastor, Gn 4.2, tem todas as simpatias do narrador, mas o texto deixa claro que ele era pastor de gado miúdo, ou seja, considerava-se que levasse a mesma vida que os patriarcas hebreus, nos limites do verdadeiro deserto. Caim, antes de seu crime, era agri¬cultor, Gn 4.2. Assim, nessa história, o deserto aparece como o refúgio dos sedentários decaídos, dos fora-da-lei, como o era efetivamente antes da che¬gada das grandes tribos cameleiras, que criaram uma civilização do deserto, que teve sua grandeza mas que não foi conhecida pelos antepassados dos israelitas.


A mesma nota desfavorável aparece na história de Ismael: “A sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele; e habitará diante da face de todos os seus irmãos”, Gn 16.12. O deserto é a morada dos animais selvagens, dos monstros e dos demônios, Is 13.21, 22; 34.11-15. Ao deserto envia-se o bode emissário carregado còm todas as faltas do povo, Lv 16.

Contudo, existe também algo que foi chamado o “ideal nômade” do Anti¬go Testamento. Os profetas voltam os olhos ao passado, aos tempos da juven¬tude de Israel no deserto, de suas promessas de casamento com Iahvé, Jr 2.2; Os 13.5; Am 2.10. No que diz respeito ao presente, condenam o luxo e as facilidades da vida urbana, Am 3.15; 6.8. Com relação ao futuro, vêem a sal¬vação em um retorno à vida no deserto, considerada como uma idade de ouro, Os 2.16,17; 12.10.

Nessa atitude há uma reação contra a civilização sedentária de Canaã, com todos seus riscos de perversão moral e religiosa. Há também a recorda¬ção e a nostalgia do tempo em que Deus havia feito aliança com Israel no deserto e em que Israel estava ligado com seu Deus. Seu ideal não é o nomadismo, mas aquela pureza da vida religiosa e aquela fidelidade à aliança. 

Se eles falam de retorno ao deserto, não é porque recordem uma gloriosa vida nômade que tivessem levado seus antepassados, mas como meio de evadir-se de uma civilização corruptora. Voltaremos a encontrar essa mística do deserto nos últimos dias do judaísmo entre os sectários de Qumran e, mais tarde, no monacato cristão. 

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.