29 de julho de 2013

Roland de Vaux - Evolução dos costumes familiares

Essa forte constituição da família é uma herança da organização tribal. A passagem à vida sedentária e, sobretudo, o desenvolvimento da vida urbana introduziram transformações sociais que afetaram os costumes familiares.

A família deixa de bastar-se a si mesma, pois as exigências do bem-estar material aumentam e o desenvolvimento das indústrias conduz a uma espe¬cialização das atividades.

Contudo, os vínculos de sangue tiveram sua revanche. Provavelmente, como no Egito, os ofícios eram transmitidos de pai para filho. O sacerdócio, reservado às famílias da tribo de Levi, não era sem dúvida mais que um caso limite de uma prática comum. A verdade é que algumas aldeias eram habitadas 
InstituiçAi * i" I-SRAtu. no Antioo Ti stamunto

pelos que trabalhavam com madeira e ferro, I Cr 4.14; cf. Ne 11.35; outras, pelos produtores de bisso I Cr 4.21; outras, pelos oleiros, I Cr 4.23. Tais corporações de artesãos são dirigidas por um “pai”, denominam-se mishpahôt, isto é, seus membros são unidos pelo parentesco ou, ao menos, agrupam-se como famílias".

Já não há, ou são poucas, aquelas grandes famílias patriarcais que reuniam muitas gerações em torno de um antepassado. As condições de moradia nas cidades restringem o número de membros que vivem sob um mesmo teto: as escavações nos revelam que as casas eram pequenas. Ao redor do pai quase que só se vêem os filhos não-casados. Quando um filho se casa e funda uma nova família, diz-se que “edifica uma casa” Ne 7.4. O prólogo do livro de Jó mesmo que pretenda imitar um relato patriarcal, revela sua época ao apresen- lar-nos os filhos de Jó em festas, sucessivamente, na casa de cada irmão, Jó 1.4,13,18. Amnom e Absalão têm casa própria, diferente do palácio onde vivem seu pai Davi e sua irmã Tamar, não casada, II Sm 13.7,8,20.

Mesmo que os escravos continuem pertencendo à família, são pouco numerosos. Aparece uma nova classe social, os mercenários assalariados. Já não existem somente grupos familiares, em que os servos vivem com o senhor da casa; agora há um rei e seus súditos, patrões e trabalhadores, pobres e ricos. E uma transformação que se realizou, tanto em Israel como em Judá, no século VIII antes de nossa era.

O chefe de família já não exerce sua autoridade de forma ilimitada. Um pai não pode mais mandar matar seu filho; mesmo que se trate de faltas cometidas por um filho contra seu pai ou sua mãe, o julgamento pertence aos Anciãos da cidade, Dt 21.18-21. Já nos tempos de Davi, podia-se apelar para o rei de uma condenação pronunciada pelo clã contra um de seus membros, II Sm 14.4-11.

O sentimento de solidariedade decresce e a pessoa se desliga cada vez mais do grupo familiar. O princípio da responsabilidade pessoal é estabeleci¬do em Dt 24.16, é aplicado em II Rs 14.6, é afirmado em Jr 31.29,30, e é desenvolvido em Ez 14.12-20; 18.10-20. Por outro lado, o dever de mútua assistência entre parentes cai no esquecimento e os profetas se vêem obriga¬dos a defender a causa da viúva e do órfão, Is 1.17; Jr 7.6; 22.3. A obrigação do levirato já não é tão constrangedora como na história de Judá e Tamar, (in 38, e a lei de Dt 25.5-10 admite que a pessoa possa esquivar-se dela. O exercício da vingança de sangue fica limitado pela existência de uma justi¬ça estatal e a legislação sobre as cidades de refúgio, Nm 35.9-29; Dt 19.1-13.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.