26 de julho de 2013

Mauro Meister - Deus tornou o mal em bem? Uma avaliação da tradução de Gênesis 50.20?

Mauro Fernando Meister
FIDES REFORMATA XVII, Nº 1 (2012): 79-87

RESUMO

Este artigo faz uma análise da tradução do texto de Gênesis 50.20 e pro-cura mostrar como muitas traduções têm uma forte orientação teológica que prepondera sobre o sentido natural do texto. O fato é que as traduções seguem tendências teológicas e não podem ser consideradas teologicamente neutras. Além da teoria de tradução adotada, é importante conhecer a influência da teologia no processo de tradução. A questão é que a tradução do texto bíblico, seja por um indivíduo ou por uma equipe de tradutores, sempre vai carregar uma tendência teológica. A intenção deste artigo é mostrar como essa influência operou na tradução de Gênesis 50.20.



1. TEORIAS DE TRADUÇÃO

Toda tradução envolve interpretação. A afirmação parece ser por demais contundente, mas o fato é que é impossível ao tradutor ter um conhecimento pleno de toda a intencionalidade do autor original de um texto, nem conhecer de maneira absoluta as línguas envolvidas nos níveis fonético-fonológico, morfossintático, semântico, retórico, discursivo, pragmático, ortográfico e estilístico. Consequentemente é impossível apresentar um resultado que seja exato em todos esses aspectos.  Assim, a interpretação sempre acontecerá. Mesmo a tradução simples de uma palavra para outra língua, com a consulta no dicionário, envolverá uma decisão do tradutor quanto a qual sentido dentre os listados no dicionário ele irá usar. Com isso quero dizer que a tradução é uma arte e não uma ciência exata. Por outro lado, isso não significa que a arte da tradução não envolva conhecimento científico, ferramentas científicas e diferentes teorias de tradução. Ou seja, uma tradução não é, necessariamen¬te, a falsificação do produto original e nem impossibilita de maneira final a compreensão da intenção do autor, ainda que possa prejudicá-la sériamente. 
As duas teorias mais antigas e discutidas a respeito de tradução são as que envolvem a “tradução literal” e a “tradução livre”, sendo que a primeira tenta “imitar” o texto e a segunda busca explicar o texto. A primeira pretende ser “fiel, neutra, objetiva” enquanto que a segunda, por consequência, é tida como o oposto (“infiel, parcial, subjetiva”).  Segundo a obra Os Tradutores na História* essa controvérsia segue a história da própria tradução da Bíblia na era cristã. Começa com a controversa tradução de Jerônimo, que a princípio traduziu o Antigo Testamento do hebraico para a língua latina, tradução essa conhecida como Vulgata,  e se estende até os dias de hoje, quando percebemos uma grande pluralidade de traduções para várias línguas e também na língua portuguesa. A origem dessas traduções se dá em função de alguns fatores, mormente a crítica textual (a escolha do texto base para a tradução) e a teoria de tradução adotada (o que se deve levar em conta na hora de traduzir).

Mas a questão não se resume tão facilmente entre o “literal” e o “livre”. Ainda que as teorias contemporâneas de tradução continuem a abordar a dis-cussão sobre literalidade versus liberdade, o foco sai da forma e volta-se para a questão do sentido, ou seja, a tradução deve procurar ser “o mais literal pos-sível”, mantendo o significado do texto, ou deve ter liberdade suficiente para expressar o sentido do texto, conforme compreendido pelo intérprete/tradutor, facilitando a compreensão do leitor? É em função da resposta a essa pergunta que surgem as diferentes traduções da Bíblia, que são feitas segundo diferentes teorias, desde as mais literalistas (equivalência formal), que buscam manter a ordem das palavras no texto original, marcando os elementos morfossintáticos acrescentados na tradução (para que o leitor tenha consciência de que aquela palavra não se encontra no texto das línguas bíblicas), passando pelas traduções que usam dos princípios de equivalência funcional (anteriormente conhecida como equivalência dinâmica ), até as chamadas paráfrases, que são profunda-mente interpretativas, tentando traduzir as ideias do texto em vez das palavras. 

As traduções da Bíblia mais usadas em português ainda seguem os princípios da equivalência formal, principalmente as versões da tradução de Almeida.  Representando uma busca de equilíbrio entre a equivalência formal e equivalência funcional, temos em português a Nova Versão Internacional (NVI - Sociedade Bíblica Internacional), que segue os princípios da New In¬ternational Version (NIV) e que nos Estados Unidos tornou-se uma das versões mais populares para a língua inglesa desde a década de 1980. Esse conceito envolve a busca de uma tradução que permaneça fiel ao texto original e ao mesmo tempo seja compreensível ao leitor de capacidade média na língua em que foi traduzido.

Algumas traduções em língua portuguesa adotaram inteiramente os princípios da equivalência funcional, como a Bíblia na Linguagem de Hoje, substituída pela Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), ambas da Sociedade Bíblica do Brasil, bem como a Nova Bíblia Viva, revisão da Bíblia Viva lançada em 1981 pela Sociedade Bíblica Internacional e agora publicada em parceria com a Editora Mundo Cristão.

O fato é que os leitores da Bíblia, tenham eles domínio das línguas ori-ginais ou apenas estejam acostumados a ouvir explicações sobre o texto em português, conseguem ler as versões feitas sob o princípio da equivalência formal. Todavia, em geral, o leitor mediano, sem contato com a forma e o vo-cabulário bíblico, encontra grande dificuldade de compreensão da mensagem em função da forma e vocabulário usados. 

Nos dias atuais alguns assuntos dominam a discussão sobre a tradução das Escrituras para diferentes línguas. Os mais acalorados giram em torno da “inclusão de gênero” (a substituição do masculino por expressões neutras, quando, por exemplo, “homem” significa “humanidade”) e até leituras femi-nistas que querem abolir o domínio masculino no campo religioso e substituem o nome de Deus por um equivalente feminino. Outros se referem a questões contextuais de tradução para línguas e culturas nas quais existem nomes pró¬prios para Deus e o nome bíblico é substituído por esses nomes (por exemplo, a palavra Deus substituída por Alá em traduções para a língua árabe). 

2. TRADUÇÃO E TEOLOGIA

Além das teorias de tradução, um aspecto a ser mencionado é a influência da teologia no processo de tradução, seja usando a equivalência formal seja a funcional. A questão é que a tradução do texto bíblico, por um indivíduo ou uma equipe de tradutores, sempre vai carregar uma tendência teológica. Passo a fazer um estudo de caso para averiguar esse tipo de escolha teológica.

E muito comum que alguns textos da Escritura sejam frequentemente ci-tados, seja pelo seu destaque teológico, pela facilidade de memorização ou por permitir uma aplicabilidade rápida a alguma situação cotidiana, principalmente quando há um problema ou crise a ser enfrentada. Textos como o Salmo 23, Romanos 8.28 e tantos outros são usados como uma resposta rápida a respeito do cuidado e da providência de Deus sobre seus filhos. Esse também é o caso frequente do uso do texto de Gênesis 50.20, na narrativa de José, quando, após a morte de Jacó, seus irmãos, temerosos de que se vingue pelo mal que lhe fizeram ainda na mocidade, vendendo-o como escravo, imploram que não lhes faça mal. A reação de José é assim narrada:

Respondeu-lhes José: Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus? Vós, na
verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer,
como vedes agora, que se conserve muita gente em vida (Gn 50.19-20, ARA).

Ainda que o texto seja narrativo, e não prescritivo, a lição teológica sim¬ples e prática que se extrai é que Deus pode tomar uma situação ruim, no caso intentada por homens, e fazer dela uma situação boa, de vitória, ou seja, tomar o mal em bem. Sendo José um servo temente a Deus e compreendendo o que ele faz, deixa a questão nas mãos de Deus e continua a sustentar seus irmãos. 

Quando comparamos a maioria das versões portuguesas do texto, per-cebemos que seguem na mesma linha da ARA e a conclusão teológica pode ser a mesma:

Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar em vida a um povo grande (Gn 50.20, ARC).

Certamente planejastes o mal contra mim. Porém Deus o transformou em bem, para fazer o que se vê neste dia, ou seja, conservar muita gente com vida. (Gn 50.20, A21).

É verdade que vocês planejaram aquela maldade contra mim, mas Deus mudou o mal em bem para fazer o que hoje estamos vendo, isto é, salvar a vida de muita gente (Gn 50.20, NTLH).

Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tomou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos (Gn 50.20, NVI).

O mal que tínheis intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem, a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida de um povo numeroso (Gn 50.20, BJ - Bíblia de Jerusalém).

Vos intentastes fazer-me mal: mas Deos trocou este mal em bem, para me exaltar a mim, como vós presentemente vedes, e para salvar a muitos povos (Gn 50.20, Sancta Bíblia, Padre Antonio Pereira de Figueiredo, 1821).

Outras traduções, entretanto, trazem uma diferença fundamental à com-preensão do texto:

Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida (Gn 50.20, ACF).

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; Deus, porém, o intentou para o bem, para fazer o que se vê neste dia, isto é, conservar muita gente com vida (Gn 50.20, Versão Revisada - Imprensa Bíblica Brasileira).

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o intentou para o bem, para fazer, como é agora, que se conserve muita gente em vida (Gn 50.20, Tradução Brasileira - republicação pela Sociedade Bíblica do Brasil da edição de 1917, com pequenas adaptações).

Vos outros bem pensastes mal contra my; porem Deus pensou aquillo para bem, para que elle faça, como isto está neste dia, para conservar em dia hum povo grande (Gn 50.20, Almeida, impressa em 1819). 

Percebemos nessas traduções portuguesas (como em grande parte das traduções inglesas), uma correspondência direta ao uso dos verbos na língua hebraica, a saber, tanto na primeira sentença (“Vós bem intentastes mal con¬tra mim”) quanto na segunda (“porém Deus o intentou para bem”), o mesmo verbo é usado (intentastes/intentou; pensastes/pensou). Esse não é o caso das traduções citadas no primeiro grupo, em que os verbos são traduzidos de maneira diferente (intentastes/tomou; planejastes/transformou; planejaram/ mudou; planejaram/tomou; tínheis intenção de fazer-me/mudou [neste caso a tradução muda inclusive o sujeito na segunda sentença, que é “Deus”, para “o desígnio de Deus”]). 

A questão pertinente à nossa pesquisa é: o que leva as traduções a tais di-ferenças? Teorias de tradução, diferenças de estilo ou pressupostos teológicos? 

Ora, ao fazer uma tradução, o tradutor ou uma equipe de tradutores carrega para o texto uma grande bagagem de pressupostos teológicos que pesam sobre o resultado da tradução. Entre as peças dessa bagagem estão o seu conheci¬mento prévio de traduções, a leitura teológica do texto, o conhecimento das relações daquele bloco de literatura bíblica (um livro bíblico ou um conjunto de escritos de um autor) e suas próprias convicções confessionais. Além da necessária competência técnica na língua original, pela qual o tradutor deve tomar decisões textuais quando aparecem as variantes dos textos críticos usados como base para a tradução, ele carece de habilidade literária na língua para a qual o texto será traduzido.

Uma pergunta legítima é se um termo, um verbo ou mesmo um substantivo ou adjetivo, pode ser usado pelo autor com significados distintos dentro de um corpo de literatura? A resposta é sim. A dinâmica de uma língua, nos seus mais variados atos de discurso, permite que o escritor em uma determinada língua tenha a expectativa de ser correta e competentemente compreendido pelo leitor usando um mesmo termo, até no mesmo discurso, com dois signi¬ficados distintos. Por exemplo, a palavra “cosmos” é usada pelo apóstolo João em mais de dez sentidos diferentes. O que determina esse sentido é o contexto imediato e a literatura como um todo. Como os tradutores podem/devem fa¬zer essa distinção no uso de um determinado autor/bloco de literatura? Ora, observando a intenção do texto e, obviamente, sua teologia.

No caso do texto de Gênesis 50, devemos levar em consideração não só a extensa narrativa da história de José como também o próprio livro de Gênesis, na qual está inserida. Assim, uma busca do próprio termo usado no corpo literário pode auxiliar na tradução. O verbo em si, bvn, tem um campo semântico amplo no grau em que se encontra no hebraico (qal) e inclui traduções como tecer, avaliar, estimar, considerar, planejar, pretender, imaginar e inventar.  Em Gênesis o termo aparece apenas cinco vezes e os diferentes contextos não nos auxiliam de maneira concreta na busca da resposta sobre a tradução no contexto específico de 50.20. 

Logo, resta-nos uma averiguação teológica no texto da narrativa em busca de uma solução para a questão da tradução conforme apresentada na maioria das versões em português. Sabemos que a história de José começa no capítulo 37 de Gênesis (o relato dos descendentes de Jacó) e que os principais fatos da história estão relacionados à salvação da família de seu pai, Jacó, em meio a uma grande fome que se estendeu por toda “a terra”, a saber, o que hoje chamamos de Crescente Fértil. A narrativa começa com a rejeição de José por parte de seus irmãos (37.2-36), a ascensão de José ao governo do Egito (39.1-41.57), a reconciliação com os irmãos (42.1-46.27) e finalmente a família abençoada no Egito (46.28-50.26).  Ora, fica claro na narrativa que a intenção dos irmãos de José, por conta de seus sonhos e da preferência do pai, era se livrarem dele de uma vez por todas, primeiro pensando em matá-lo e, em seguida, vendendo-o como escravo para uma caravana de mercado¬res estrangeiros. Depois do primeiro ato os irmãos de José desaparecem da narrativa, voltando à cena somente no episódio da reconciliação. José, já no poder, recebe os irmãos e os testa, com a finalidade de reconciliar-se com eles. Segundo o narrador, é da boca do próprio José que vem a palavra de consolo, demonstrando a compreensão que ele tem de todo o episódio:

Então, José, não se podendo conter diante de todos os que estavam com ele, bradou: Fazei sair a todos da minha presença! E ninguém ficou com ele, quando José se deu a conhecer a seus irmãos. 2 E levantou a voz em choro, de maneira que os egípcios o ouviam e também a casa de Faraó. 3 E disse a seus irmãos: Eu sou José; vive ainda meu pai? E seus irmãos não lhe puderam responder, porque ficaram atemorizados perante ele. 4 Disse José a seus irmãos: Agora, chegai-vos a mim. E chegaram-se. Então, disse: Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. 5 Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós. 6 Porque já houve dois anos de fome na terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem colheita. 7 Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. 8 Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito (Gn 45.1-8, ARA).

Fica óbvio, a partir da explicação dada por José a seus irmãos, que ele entendia que o ato dos irmãos não precedia nem excluía a soberania, a vontade, o propósito e a providência de Deus em enviá-lo para o Egito antes do tempo da fome e alçá-lo à posição de governador do Egito para que pudesse acolher toda a sua família e livrá-los da morte, possibilitando que a promessa de Deus a seus antepassados fosse cumprida, como tão claramente explica nos versos 7 e 8.

Logo, cabe ao tradutor do texto ser sensível à teologia do texto como um todo e trazer a narrativa para outra língua seguindo com clareza o contexto bíblico-teológico de toda a passagem.

CONCLUSÃO

Logo, não cabe ao tradutor fugir do sentido do todo. A pergunta inicial feita no título do próprio artigo precisa ser respondida de forma negativa: Deus tornou o mal em bem? Não! A providência de Deus encaminhou todos os fa¬tos para que o bem fosse feito, mesmo que a intenção daqueles que foram os agentes da ação (os irmãos de José) fosse má. Assim, a tradução mais antiga de Almeida, que traduziu a palavra hebraica de maneira consistente (pensastes/ pensou), tendo seguido a fluência da teologia do texto, trouxe ao leitor a clareza teológica pretendida pelo autor: Deus é soberano sobre as ações dos homen
s.
Outro exemplo claro desta situação encontra-se no livro de Atos dos Apóstolos:

Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela (Atos 2.22-24, ARA).

Neste discurso diante do povo em Jerusalém, o apóstolo Pedro coloca de maneira bem direta que o agente primário, aquele que tem o “determinado desígnio e presciência”, é Deus, sendo os varões israelitas aqueles que, como agentes secundários, mataram a Cristo por meio da crucificação, usando, ain¬da, um terceiro agente, “por mãos de iníquos”, no caso, os oficiais romanos. 

Não é o caso de um planejamento humano usado por Deus para a redenção, mas um planejamento divino executado por mãos humanas, sendo os agentes os responsáveis pelo próprio ato. O mesmo acontece no caso da narrativa da ação dos irmãos sobre o destino de José, necessitando que a tradução seja clara quanto ao que efetivamente aconteceu: o que os irmãos haviam planejado por sua própria iniciativa e volição, Deus havia planejado para o seu próprio res¬gate futuro. Logo, nossas traduções mais antigas provam ser mais apropriadas, exegética e teologicamente.

Veja o artigo original em:
http://mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/Fides_Reformata/17/17_1artigo5.pdf