15 de julho de 2013

Gleason L. Archer - Os Princípios Subjacentes à Legislação Levítica

A Bíblia Hebraica dá ao Livro de Levítico o nome Wayyiqrã’
(“E Ele chamou”), a primeira palavra de 1:1. O título da LXX,
Leuitikon significa “Aquilo que é dos Levitas”, indicando assim o
tema central do Livro. A ênfase principal deste compêndio de re-
gulamentos sacerdotais é a santidade de Israel como nação sepa-
rada para o serviço e a glória de Deus. Trata especialmente da
apresentação certa de sacrifícios, e da conservação duma nítida
distinção entre aquilo que é puro e aquilo que é impuro.

Esboço de Levítico

I. A Lei dos Sacrifícios, 1:1 — 7:38.
A. O holocausto, 1:1-17.
B. As ofertas de manjares, 2:1-16.
C. Os sacrifícios pacíficos, 3:1-17.
D. O sacrifício pelos pecados por ignorância, 4:1 — 5:13.
E. O sacrifício pelo sacrilégio, 5:14 — 6:7.
F. O holocausto contínuo e as ofertas dos sacerdotes,

6:8-23.
G. A disposição das vítimas, na oferta pelo pecado, na
oferta pela culpa, e na oferta pacífica. 6:24 — 7:27.
H. A oferta movida e a oferta levantada, 7:28-38. 
I. Separação das Coisas Impuras, 11:1 — 15:33.
A. Comidas puras e impuras, 11:1-47.
B. Purificação das mães depois de darem à luz, 12:1-8.
C. Regulamentos no que diz respeito à lepra, 13:1 — 14:57.
D. A purificação dos corrimentos corporais, 15:1-33.
II. O Dia da Expiação, 16:1-34.
III. O Lugar do Sacrifício, e a Inviolabilidade do Sangue, 17:1-16.
IV. A Santidade Prática: Leis contra a Impudícia, a Impureza
e a Idolatria, 18:1 — 20:27.
VII. A Santidade e os Deveres dos Sacerdotes, 21:1 — 22:33.
VIII. As Santas Convocações: Sábado, Páscoa, Pães Asmos, Pente-
coste, Trombetas, Expiação, Tabernáculos, 23:1-44.
IX. Símbolos da Consagração; Penalidades pela Profanação,
24:1-23.
X. O Ano de Descanso e o Ano do Jubileu, 25:1-55.
XI. As Bem-Aventuranças da Obediência, as Maldições da De-
sobediência, 26:1-46.
XII. O Pagamento de Votos e Dízimos, 27:1-34.

Os Princípios Subjacentes à Legislação Levítica

Nenhum outro Livro da Bíblia reivindica tão freqüentemente
sua inspiração divina como o faz Levítico. Só uma olhada na con-
cordância sob o verbo “falar” (dibber) revela nada menos do que
38 casos da ocorrência da declaração de que o Senhor falou a
Moisés ou a Arão. Nada poderia ser mais claro do que o fato de que
o sistema sacrificial inteiro não tenha sido invenção do povo he-
breu (seja na época de Moisés, seja no decurso dos séculos que se
seguiram), sendo uma revelação direta de Deus. Se não aceitarmos
esse fato, não temos o direito de alegar que cremos nas afirmações
da sua origem divina que se acham em outras declarações nas Es-
crituras. Por maiores semelhanças ou analogias gerais que possam
ser indicadas entre estas regras levíticas e os cultos praticados por
outros semitas antigos, há nelas uma ausência total dos elementos
supersticiosos ou degradantes que caracterizam o culto das nações
idólatras na época do Antigo Testamento.

Uma autenticação marcante da origem divina deste Código
Mosaico acha-se no semiprofético capítulo 26, que dá uma visão
prévia do Exílio na Babilônia, (w. 32-39) e da restauração subse-
qüente (w. 40-45). Não é de se estranhar que os críticos anti-sobre-
naturalistas tenham sentido uma obrigação compulsiva de datar a
origem de Levítico durante o Exílio (Documento H) e após o Exílio 
(Documento P). Não há outra alternativa para quem, por motivos
filosóficos, negue a possibilidade da predição divina sobrenatural.
Há pelo menos cinco princípios básicos que operam em todas
as partes do livro.

1. Como povo singular de Deus, o Israel redimido deve: a)
conservar-se puro, isto é, separado do mundo para servir e prestar
culto ao único Deus verdadeiro; b) conservar aberto o acesso a
Deus, através da propiciação substantiva, através do derramamento
do sangue duma vida inocente no lugar da vida do culpado, à qual
já perdeu o direito.

2. Visto que este acesso a Deus é possibilitado unicamente
pela graça, o fiel pode comparecer perante Deus exclusivamente
pelo meio que o próprio Deus definiu. Portanto, todos os regula-
mentos quanto ao rito e ao sacrifício têm que surgir da parte de
Deus, e não do homem. (Qualquer coisa inventada pelo homem se-
ria considerada uma tentativa de estabelecer algum tipo de mérito
pelo qual o homem se justifique a si mesmo).

3) Como povo santo, espiritualmente “casado” com o Senhor,
Israel deve abster-se de qualquer falta de castidade sexual, de qual-
quer -violação dos vínculos nupciais. Precisa afastar-se de qualquer
contato com a corrupção e a deterioração (inclusive cadáveres e
doenças imundas). Estas instruções devem ser entendidas como
sendo uma expressão da atitude fundamental de amor, para com
Deus e para com o homem. O segundo grande mandamento, se-
gundo a definição do Senhor Jesus (Mt 22:39), é derivado de Le-
vítico 19:18: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O princípio
básico que subjaz a monogamia encontra-se em Levítico 18:18, 
sendo que o termo “irmã” naquele versículo pode também indicar
“uma outra mulher”.

4) Nada de corrupto, ou passível de rápida deterioração pode
ser oferecido como oferta a Deus. Isto exclui a levedura, o leite (que
rapidamente azeda), o mel (que fermenta), porcos (associados pelos
pagãos com o culto às divindades do inferno), roupas feitas de
materiais diferentes (tais como a lã com o linho) que tipificam
uma mistura entre o santo e o profano.

5) O ano religioso é denominado pelo número sagrado sete
(simbolizando a obra perfeita de Deus). Portanto, a) cada sétimo
ano é um ano de descanso para a terra lavrada; b) depois de sete 
vezes sete anos, o qüinquagésimo ano é santificado como jubileu,
no qual as terras hipotecadas tinham que ser devolvidas aos seus
donos originais (sua família); d) a Páscoa é celebrada no fim do
segundo período de sete dias do mês de Abibe, isto é, no fim do dia
quatorze; e) a Festa de Pães Asmos se celebra por sete dias depois
do dia 14; f) a Festa do Pentecostes é celebrada depois de sete pe-
ríodos de sete dias que se seguem à oferta do molho movido (no
qüinquagésimo dia, portanto); g) o sétimo mês, Tisri, é especial-
mente santificado por três observâncias sagradas: a Festa das
Trombetas, o Dia da Expiação, a Festa dos Tabernáculos; h) a
Festa dos Tabernáculos se celebra durante sete dias (dia 15 até
22 de Tisri), mais um oitavo dia para a convocação final.

Com a descoberta de outros códigos legais antigos, tais como
o Código de Hamurabi, os fragmentos das leis sumerianas de Lipit-
Istar de Isin (cerca de 1875 a.C., segundo Kramer em ANET 159),
os de Bilalama de Esuná (cerca de 1940 a.C., segundo ANET 161,
217), torna-se sempre mais evidente que algumas das assim-cha-
madas Leis־P eram marcantemente semelhantes às provisões que
já existiam no começo do segundo milênio, muito antes da época
de Moisés, Driver procurou salvaguardar esta data que os crí-
ticos atribuem a P, de após o Exílio, dizendo que estas semelhanças
pertencem exclusivamente a H (a maioria delas aparece em Leví-
tico caps. 17-26), e sugerindo que Ezequiel tivesse incluído alguns
elementos muito antigos ao compor seu “Código de Santidade”.
Naturalmente, isto tende a abalar a base inteira de se datar H
na época de Ezequiel.

Com a publicação de documentos, nestes últimos tempos, da
cidade de Ugarite, no norte de Canaã, mais semelhanças estão
vindo a lume, mesmo no assunto de terminologia técnica. J. J.

Rabinowitz notou que nas transferências das terras, cuja documen-
tação estava escrita em acadiano, há a fórmula samid adi dariti
(“vinculada perpetuamente”), e mencionou que isto equivale de
maneira notável à expressão técnica hebraica em Levítico 25:23,
30 lisemítüt (“perpetuamente”) ou lassemitfit... ledõrõtãyw (“per-
petuamente... através de todas as suas gerações”). As palavras
envolvidas são cognatas em ambas as línguas, a não ser que o
hebraico tivesse conservado o termo acadiano antigo. Rabinowitz
observa:  “Não posso pretender saber o significado do paralelismo
mencionado. Parece-me, porém, que isto fala enormemente contra
aqueles que queriam atribuir uma data avançada às seções de Le- 
vítico que tratam do ano do Jubileu (e.g. Pfeiffer, IOT 240)”. (A
descoberta de termos característicos “P” para sacrifícios, nas pla-
cas ugaríticas do século 15 a.C., já foi debatida no cap. 13, págs.
186-187).

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.