31 de julho de 2013

Gleason L. Archer - A Credibilidade das Cifras do Censo no livro de Números

Os críticos racionalistas sempre rejeitaram as estatísticas de
Números como não sendo plausivelmente altas, e geralmente as
rejeitaram como sendo fabricações da escola Sacerdotal. Isto, na-
turalmente, é baseado na suposição duvidosa de que aquilo que é
fora do comum é impossível. Tem havido uma tendência entre
os estudiosos mais recentes em explicar as estatísticas do texto
hebraico ao interpretar a palavra ’eleph “mil” como sendo o equi-
valente de “família” ou “clã”, (Jz 6:15; 1 Sm 10:19, etc.); mas é
muito claro, nos capítulos sobre os recenseamentos, (Nm 1-4; 26)
que ’eleph significa milhares mesmo, sendo que a unidade inferior
depois de ’eleph é mê’õt, “centenas” (assim em Nm 1:21, 23, 25
etc.). A maior contribuição que uma “família” poderia fazer para
o exército nacional seria uma média de quatro ou cinco homens,
e seria absurdo supor que as “centenas” seriam mencionadas como
sendo uma unidade numericamente inferior ao contingente de
cinco homens cada.


Realmente, os que apóiam este ponto de vista que ’eleph signi-
fica “contingente familiar”  supõem que estas passagens de Nú-
meros tenham sido tiradas de registros antigos e fragmentários
dum recenseamento antigo (talvez da época de Davi ou até antes
desta época), mal entendidos e refeitos por tradicionalistas poste-
riores, ou pelos próprios redatores sacerdotais. Estas contribuições
posteriores, portanto, teriam acrescentado os números menores
(centenas, dezenas e unidades) às numerações de “famílias”. Mas
mesmo esta hipótese improvável não é plausível à luz das circuns-
tâncias. Supondo que o total de 603.550 citado em Números 1:46
represente uma cifra original de 603 famílias, com uma média de
cinco homens cada, como é que tal população de 3.015 homens;
pudesse ter amedrontado o rei do Egito por causa do seu grande 
número? Mas Faraó declara, segundo Êxodo 1:9, “Eis que o povo
dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós”.
Mas, geralmente, os defensores deste ponto de vista (inclusive
Mendenhall) entedem ’eleph no sentido de “complexo familiar”
ou clã, incrementando-se a contribuição de cada “família” a cin-
qüenta e não apenas cinco. Mesmo assim, só haveria uma força
de 30.150 homens para a guerra, que não seria um exército formi-
dável no meio da grande população do Delta do Egito.  Além disto,
até uma passagem J como Êxodo 12:37 dá o mesmo total, arre-
dondado, que aparece em Números 1:46, isto é, 600.000, e o mesmo
acontece em Números 11:21, uma seção JE. Mais confirmação da
cifra se descobre na soma total do dinheiro dado em resgate —
meio siclo por pessoa — registrada em Êxodo 38:25 como sendo
100 talentos, 1775 siclos. Visto que o talento era de 3.000 siclos,
isto dá um total de 603.550 contribuintes. Pode-se dizer com cer-
teza, portanto, que nenhuma maneira objetiva de tratar da evi-
dência textual tem a mínima possibilidade de sustentar a tese de
que a palavra ,eleph no livro de Números possa significar qualquer
coisa, exceto, literalmente, “mil”. 

Foi levantada a objeção que Êxodo 1:15 menciona só duas
parteiras, Sifrá e Puá, servindo as necessidades de toda a co-
munidade hebraica em Gósen, na época antes do nascimento
de Moisés. Mesmo se a população total não tivesse atingido a cifra
de dois milhões naquela época, decerto seria necessário haver mais
do que duas parteiras para uma população de acima de um milhão
e meio. Sendo válida a objeção dentro do seu alcance, como poderia
alguém supor que um eloísta vivendo cerca de 750 a.C. tivesse ima-
ginado que duas parteiras serviriam para a multidão em Gósen?
Obviamente, o papel das duas mulheres mencionadas em Êxodo
1:15 era de supervisionar toda a corporação obstétrica. Os do-
cumentos egípcios daquele período indicam que quase cada obra
de artesanato, perícia ou profissão era regida por um supervisor 
(imy-r) que era responsável perante o governo. Há todos os mo-
tivos para se supor que o regime burocrático da 18.a Dinastia teria
investido uma ou duas parteiras com a responsabilidade pelas
restantes.

Se reconhecermos que as listas do recenseamento em Números
não fornecem evidências para uma cifra menor do que 600.000
homens de idade militar, como é que um número tão grande de
migrantes (sem dúvida totalizando 2.500.000 ao incluir-se as mu-
lheres e as crianças) pode ter sobrevivido quarenta anos no deserto,
que é o que o Livro supõe? Mesmo supondo que a Península de
Sinai tivesse sido menos árida do que em épocas modernas (pois
sustentava tribos grandes e poderosas tais como os amalequitas de
Êx 17:8), seria obviamente impossível que hostes tão enormes pu-
dessem ser sustentadas juntamente com os rebanhos no ermo sem
cultivo. A resposta a esta objeção racionalista é que a narra-
tiva inteira da migração israelita reconhece abertamente que era
uma impossibilidade física, do ponto de vista natural. Em cada
maneira concebível, enfatiza — assim como faz a literatura he-
braica posterior que relembra a história de Moisés (SI 78:24; Ne
9:20 etc.) — que foi uma obra milagrosa e sobrenatural de Deus,
o sustento da grande multidão. O suprimento alimentar veio atra-
vés do maná (Êx 16:35), e a água veio da rocha fendida (Êx 17:6)
em tal abundância que ofereceu suprimentos para a hoste inteira.
Tudo isto se registra como sendo puro milagre, tão claro e total
como qualquer milagre registrado nas Escrituras. Rejeitá-lo por
motivos racionalistas, seria impor sobre a Bíblia um preconceito
filosófico que nunca poderia aceitar a Bíblia como sendo a Pala-
vra de Deus.
Tem sido argumentado que levaria o dia inteiro para uma
multidão de dois milhões e meio colocar-se em formação para a
linha da marcha, e que não poderia progredir um único quilômetro
antes do anoitecer. Desta forma ela não poderia ter feito as via-
gens que lhe são atribuídas em Números cap. 33 e noutros trechos.
Mas, realmente, o tempo despendido para uma coluna formar-se
para a marcha, depende inteiramente da sua largura. Não é ne-
cessário supor que se restringia aos limites duma estrada, por
exemplo, sendo que os israelitas estavam marchando através de
terreno aberto e desabitado. As quatro divisões principais de apro-
ximadamente 500.000 cada (cf. Números 10:14-20) poderiam ter
formado as fileiras simultaneamente, completando as preparações
para a marcha dentro de quatro horas (de 6 até 10 horas da manhã, 
por exemplo), podendo assim ter completado perto de vinte qui-
lômetros a pé antes de estabelecer o novo acampamento (um ser-
viço que, por sua vez, poderia ter levado quatro horas, entre 14 e
18 horas).

Objeções contra a credibilidade da narrativa de Números têm
sido levantadas na base de que o número citado para os primogê-
nitos, em Números 3:43, é muito baixo para uma população de
homens de acima de 600.000. Um grupo tão grande deve ter pro-
duzido um número muito maior do que os 22.273 primogênitos
citados, a não ser que cada família possuísse um número de qua-
renta ou mais homens cada. Mas este argumento, segundo indica
Delitzsch (Pentateuch III, 9-13), é baseado na falsa suposição
que a lei (Nm 3:46,47) que exigia a santificação dos primogê-
nitos, tivesse efeito retroativo. Nada no contexto sugere, além
de uma lista dos filhos primogênitos nascidos entre o Êxodo pro-
priamente dito, e este episódio (treze meses mais tarde) do levan-
tamento do censo. Na base de 603.550 pessoas do sexo masculino,
o número provável de homens entre vinte e trinta anos de idade
seria de 190.000, mais ou menos. Isto daria uma média de 19.000
novos casamentos por ano. Desse número de casamentos, muitos
dos quais permitiriam dois períodos de gestação em dezoito meses,
uma cifra de 22.000 nascimentos não seria excessiva.
Outras pessoas objetaram que o suprimento de codornizes
às hostes israelitas, conforme Números 11:31 é absolutamen-
te incrível. Uma quantia de codornizes, ajuntada em tal área
numa profundidade de dois côvados, daria quase mil tonela-
das de carne de codomiz por refeição, a cada israelita. Isto,
porém, é uma completa má interpretação do texto hebraico. Não
declara que houve uma pilha de dois cúbitos de corpos de codor-
nizes; só indica que os ventos fortes forçaram as codornizes a voar
baixo, cerca de dois côvados (um metro) acima da superfície da
terra, facilmente atingíveis pelos israelitas famintos por carne.

(A preposição ’al antes da frase “a face da terra”, pode ser tanto
“por cima de” como “sobre”, tratando-se no contexto de movimento
horizontal).
Há vários outros argumentos deste tipo que se debatem em
ISBE, IV, 2168 e seg., mas nenhum deles agüenta a análise melhor
do que estes que aqui são citados.  Muitos outros ataques críticos
 dependem inteiramente da aceitação das pressuposições wellhausia-
nas que definem a verossimilhança dos textos. Só por meio de
argumentos em círculo vicioso, é possível fazer dissecções do tipo
que produziram inconsistências na narrativa da rebelião de Coré,
Data e Abirão em Números cap. 16. (Coré é atribuído a P, e Datã
e Abirão a JE).

Finalmente, algo deve ser dito quanto ao texto para o qual
os críticos documentaristas apelam tanto como prova contrária
à autoria mosaica. Argumenta-se que Moisés nunca poderia ter
escrito Números 12:3 acerca de si mesmo (“Era o varão Moisés
mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra”).
Se Moisés fosse tão humilde assim, como poderia ter registrado um
parecer tão louvável quanto à sua própria pessoa? Uma boa res-
posta se acha no Novo Comentário da Bíblia:  “Escrevendo sob a
influência do Espírito Santo, Moisés não hesitava em escrever so-
bre seus próprios pecados e fraquezas, em linguagem bem clara.
Seria contrário à objetividade marcante da Bíblia se ele não re-
gistrasse também seu ponto mais forte, sua humildade... estas
palavras são necessárias para se entender o significado deste ca-
pítulo”. Delitzsch comenta (Pentateuch, III, 77): “É simplesmente
uma declaração que se fazia indispensável à plena e correta com-
preensão de todas as circunstâncias, declaração esta que se fazia
de maneira bem objetiva, no que diz respeito ao caráter de Moisés,
que não foi ele que a si mesmo atribuía estas coisas, mas pelo
contrário, era a graça de Deus que lhe concedia, e ao qual per-
maneceu fiel desde a hora da sua vocação até a hora da sua
morte”. Cita depois o comentário de Calmet: “Da mesma forma
como se louva aqui sem orgulho, assim também se condenará nou-
tras passagens, com humildade”. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.