4 de julho de 2013

Gleason L. Archer - A Aliança e o Decálogo (Êxodo 19 e 20)

Em Êxodo 19:3-8, a aliança com Abraão e sua descendência
(Gn 12,15 e 17) foi renovada com seus descendentes, já que se ti-
nham transformado em grande nação. No sopé do monte santo
Israel se dedicou para sempre, como povo do Senhor, santo (sepa-
rado para Deus) cujo alvo nacional — diferentemente da auto-
exaltação das demais nações — seria sincera e completa obediência
à vontade divina, andando em comunhão com Deus, e fazendo-O
o objeto da sua mais alta lealdade e amor. “Tudo o que o SENHOR
falou, faremos” (v. 8). Qualquer coisa menos que isto teria sido ne-
gar a completa obediência. Certamente não era a intenção (como al-
guns supuseram) que houvesse uma escolha em favor da autojustifi-
cação pela prática das obras da Lei. A graça reinava suprema na
aliança de Sinai assim como também na aliança com Abraão. O
corpo inteiro de legislação, conforme foi revelado a Moisés e ao seu
povo daí em diante, era um testamento de graça, apesar de ter

sido mediado através duma economia diferente da do Evangelho
(onde o Antitipo tomou o lugar de todos os tipos veterotestamen-
tários que apontaram para Ele). Por este motivo, os apóstolos
neotestamentários aplicam aquela mesma afirmação de sacerdó-
cio santo aos cristãos neotestamentários que antes se aplicava ao
Israel veterotestamentàrio. (I Pe. 2:9 é uma reafirmação de Êx.
19:5,6). Era só o mau entendimento ou má interpretação da Lei —
como sistema de merecer méritos e de auto justificação — que é
rejeitado em Romanos 3 e Gálatas 3 (e passagens relacionadas).

Quanto ao Decálogo (Êx 20:1-17), a base inteira das suas san-
ções é declaradamente a redenção que Deus opera pela graça (“Eu
sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa
de servidão”). Os mais solenes avisos contra a desobediência (pro-
duto da descrença e da rejeição de Deus) se vinculam às mais
abundantes promessas de graça (“... e faço misericórdia até mil
gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamen-
tos”). Enquanto o elemento distintivo de amor (nenhum pagão,
afinal, professava amar ao seu deus de todo o seu coração) tor-
na-se mais explícito no livro de Deuteronômio do que nos demais 
livros da Torá, não deixa de ser uma pressuposição básica em todos
eles: o amor de Deus para com o crente, e o amor do crente para
com Deus. Mesmo assim, enfatiza-se constantemente uma vida
santificada como sendo o produto necessário e inevitável duma fé
verdadeira e viva, mesmo que uma vida santa não tenha de per si
nenhuma virtude salvadora.

Quanto às palavras exatas do primeiro mandamento (“Não
terás outros deuses diante de mim”), tem sido freqüentemente ale-
gado pela escola de Wellhausen que esta ordem insiste apenas num
culto exclusivo a Jeová (a monolatria), não sendo uma afirmação
direta de monoteísmo. Não há, segundo esta interpretação, ne-
nhuma negação da existência de outros deuses; é que simplesmente
Israel precisa ser exclusivamente leal ao seu próprio Deus nacio-
nal. Mas esta interpretação das palavras não se justifica; não
haveria qualquer outra maneira de exprimir a verdade que Israel
deve adorar somente o Deus único, sem servir às divindades de
fabricação humana (mesmo que, naturalmente, tais divindades
existissem apenas na sua própria imaginação). Como refutação
desta interpretação monólatra, basta a analogia do Salmo 96:4,5:
“Porque grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado, te-
mível mais que todos os deuses” — certamente uma afirmação de
monolatria conforme a interpretação tipo Wellhausen; mas o autor
continua, afirmando o puro monoteísmo: “Porque todos cs deuses
dos povos não passam de ídolos (,elílím •— coisas de nada); o SE-
NHOR, porém, fez os céus”. Só esta passagem (e outras poderiam
ser citadas) demonstra conclusivamente que a menção de “deuses”
no plural não implicava em nenhuma admissão da existência real
dos deuses pagãos no primeiro mandamento.

Há certas variações entre a forma dos Dez Mandamentos em
Êxodo 20 e a de Deuteronômio 5. Em Deuteronômio 5 há um mo-
tivo adicional pela santificação do sábado (a generosidade para
com os escravos, assim como o Senhor Se compadeceu dos israelitas
no cativeiro), e a esposa é mencionada antes da casa, e não depois,
no Décimo Mandamento. Visto que Deut. 5 situa-se no meio duma
exortação feita por Moisés ao povo, enquanto que Êxodo 20
é descrito como sendo uma narração da intervenção divina, é
justo concluir ser este o relatório das palavras exatas e originais.
Em Deuteronômio 5, o pregador acrescenta uma interpolação ex-
plicativa (igualmente com inspiração divina) que reforça a sanção
do quarto mandamento com mais urgência nas consciências dos
ouvintes. Note-se que a variação entre a ordem “esposa” e “casa” 
destrói a base da distinção artificial feita pela Igreja Romana entre
o Nono Mandamento, contra a cobiça da propriedade do próximo, e
o Décimo Mandamento, contra a cobiça da esposa do próximo. O
fato de não haver importância na ordem “casa-esposa” ou “esposa-
casa” — demonstra que a totalidade de Êxodo 20:17 é um Manda-
mento único. (Decorre daí que a tentativa romanista de combinar
o Primeiro Mandamento com o Segundo tenha sido fadada ao
fracasso, sendo que o resultado daria apenas nove Mandamentos).