3 de julho de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Gênesis - O concerto abraâmico

A tendência da narrativa bíblica sugere que a chamada de Abrão para o serviço
do concerto foi tanto um ato da graça eletiva divina quanto foi a criação de Adão e a
escolha de Noé, os seus dois mais ilustres antepassados do concerto. Foi-lhe dito que
deixasse Ur, a sua pátria, e fosse para uma terra que Deus lhe mostraria. A obediên-
cia a esta chamada resultaria em ele ser sócio com o Senhor no processo de abençoar
o mundo e trazê-lo de volta de acordo com as intenções do Criador.

Embora a oportunidade de Abrão participar nos privilégios do concerto
fosse obviamente condicionada à sua partida de Ur e ida para Canaã, o próprio

concerto subsequente era incondicional. Como a maioria dos estudiosos hoje
em dia reconhece, o concerto e suas circunstâncias estavam na forma de con-
cessão (de terras), um acordo legal bem atestado no antigo Oriente Próximo. 
Este tipo de instrumento era iniciado por um benfeitor, por exemplo um rei,
que, por qualquer razão, desejava conferir um benefício a um súdito. Era consi-
derado como recompensa por serviços prestados pelo súdito, mas muitas vezes
não havia razão expressa. A concessão era um favor explicável por nada mais
que o prazer soberano do benfeitor. E da mesma maneira que a concessão era
incondicional, assim era a manutenção. O concerto permaneceria em vigor a
despeito do comportamento de quem o recebesse. Tudo que pudesse ser afetado
positiva ou negativamente pela reação do beneficiado era o prazer dos benefícios
da concessão e a sua continuação.

Deste modo, o concerto abraâmico, junto com os antecessores adâmico e
noéico, deve ser visto como concessão incondicional feita pelo Senhor ao seu
servo Abrão, uma concessão que tinha de servir uma função específica e irre-
vogável. Muito mais expansiva e diversificada que as outras duas declarações, a
abraâmica, todavia, é elaborada diretamente nelas em todos os elementos es-
senciais. Ainda, há uma dimensão que vai além do mandato do concerto mais
antigo, pois o concerto abraâmico não só reitera, a seu modo, a determinação
de Gênesis: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a” (Gn
1.28 - ARA), mas também incorpora a estratégia pela qual esse propósito seja
atingido.

Isto é imediatamente visível em Gênesis 12.1-3, a declaração inicial e pro-
gramática do concerto. De Abrão seria feito uma grande nação que se tornaria
o meio pelo qual o Senhor abençoaria todos os povos da terra. O interesse de
Deus ainda era claramente universalista, mas o meio de tratar esse interesse era
mais específico — a nação de Abrão.

Subsequentemente, Abrão aprendeu que a terra na qual e da qual o povo
reconciliado ministraria ao mundo era a própria Canaã (Gn 12.7; 13.14-17).
Em uma segunda expressão da promessa do concerto, Abrão aprendeu que a pro-
messa de descendentes é válida mesmo que ele não tivesse filhos (Gn 15.2-5), e
que a terra seria dele, mesmo que na ocasião ainda estivesse povoada por outros
(w. 7-21). Abrão confiou no Senhor em tudo isso, então o Senhor considerou o
seu servo em perfeita compatibilidade ao concerto (v. 6).

Quando depois do transcurso de muitos anos, a promessa da semente ain-
da não tinha se cumprido, o Senhor apareceu mais uma vez a Abrão com uma
exposição e amplificação extraordinária da promessa original. Ele seria o pai
não apenas de uma nação, mas de muitas nações (por conseguinte, a mudança
de nome para Abraão) e reis (Gn 17.4,-6). O concerto, mais uma vez firmado
como eterno, seria certificado pelo sinal da circuncisão, uma lembrança física
do estado especial do povo do concerto.

A atenção cuidadosa aos temas principais destas diversas expressões do
concerto com Abraão revela que elas afirmam em todos os aspectos o mandato
do concerto de Gênesis 1.26-28, com a condição especial de que Abraão e os
seus descendentes tinham de servir de modelos, como também de testemunhas
da implementação na terra. Quer dizer, a nação abraâmica tornar-se-ia um mi-
crocosmo do Reino de Deus e funcionaria nessa posição como agência pela qual
Deus reconciliaria consigo a criação inteira.

A primeira parte desta promessa — que a descendência de Abraão tornar-
se-ia uma grande nação (Gn 12.2; 15.5; 17.4,5) — é um reflexo do manda-
mento para a humanidade registrado em Gênesis 1.28: “Sede fecundos, mul-
tiplicai-vos”. O aspecto da soberania é visto claramente em referências aos reis
que surgiriam na linhagem de Abraão (17.6,16). Estes reis exerceriam domínio
sobre essa nação (e outras) que Deus levantaria como modelo dos propósitos da
sua criação. Portanto, temos de admitir uma conexão direta com Gênesis 1.28:
“Enchei a terra, e sujeitai-a; [e] dominai”.

A segunda parte da promessa não encontra antecedente no mandato de
Gênesis 1, mas, apesar disso, é para ser entendido em referência a ele. Este é o
papel que a nação abraâmica tinha de desempenhar como critério em referência
ao qual, os povos da terra seriam abençoados ou amaldiçoados: “Abençoarei os
que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas
todas as famílias da terra”  (Gn 12.3; 18.18; cf. G13.8). Isso sugere uma função
mediadora para esta nação escolhida, uma responsabilidade de levantar-se entre
o Senhor soberano do céu e da terra e a criação caída para ministrar a graça
salvífica divina.

Este duplo aspecto do concerto abraâmico deve ser mantido cuidadosa-
mente em vista se a centralidade do mandato da criação para a Teologia Bíblica é para encontrar validação consistente ao longo da revelação bíblica. Entender
o concerto apenas como uma continuação do concerto adâmico-noéico é negar
a Israel o seu lugar crucialmente importante como povo para servir. Por outro
lado, só entendê-lo como uma preparação para o concerto sinaítico é negar os
interesses trans-históricos e universalistas que transcendem os estreitos limites
de um povo escolhido. Esta dualidade continuará informando esta discussão e
apropriadamente situará Israel nos propósitos teológicos como também histó-
ricos de Deus.

A transmissão do concerto abraâmico continuou como começara, por gra-
ça eletiva divina. Isaque, filho da velhice de Abraão e Sara, foi escolhido em
lugar de Ismael (Gn 17.18,19). Foi-lhe dado quase que literalmente as mesmas
promessas e privilégios desfrutados pelo seu pai (26.3,4,24). E também lhe seria
dado um filho que herdaria a responsabilidade do concerto.

Este filho era Jacó, o filho mais novo de Isaque e Rebeca. E Jacó também,
como Isaque, foi escolhido em contradição às normas de sucessão filial. Antes
do nascimento, foi anunciado que Jacó dominaria sobre o irmão mais velho
(Gn 25.23), uma promessa que acabou se realizando com a dominação de Israel
sobre Edom. O texto central do concerto é Gênesis 27.27-29, que reconta a
Jacó a bênção do seu pai moribundo. Nesse encontro, Isaque orou para que Jacó
exercesse poder governamental sobre as nações e até sobre os próprios irmãos.
Anunciando no estilo de bênção, ele afirmou que os que amaldiçoarem Jacó se-
rão amaldiçoados e os que o abençoarem serão abençoados (v. 29). Em ocasiões
subsequentes, a garantia do concerto foi confirmada por Isaque (28.3,4) e pelo
próprio Senhor (28.13,14; 35.9-15; 46.2-4). A linhagem permanentemente ir-
rompível é a promessa de nacionalidade, reis, terra e, mais importante, o minis-
tério de Jacó (que é Israel) como o meio de abençoar toda a terra.

Símbolos da natureza e função do concerto abraâmico, cuja plena expres-
são só ocorreu depois da libertação do êxodo e do concerto sinaítico, achamos
ao longo das narrativas patriarcais de Gênesis e talvez sejam a principal tônica
dessas narrativas. Temos de dar atenção, primeiro, à significação da terra.
A terra é essencial à definição significativa de domínio e nacionalidade. A
própria criação dos céus e da terra visava fornecer um lugar exato no qual os
propósitos reinantes de Deus para o gênero humano fossem executados. O jar-
dim do Éden tornou-se a expressão microcósmica do território do reino, o lugar
onde Deus habitava na Terra de modo inigualável e onde Ele tinha comunhão
com a sua imagem, o seu vice-regente. Este é seguramente o pano de fundo no
qual têm origem as descrições escatológicas do Reino eterno como um jardim
paradisíaco.

O forte rompimento e alienação ocasionados pelo pecado resultaram na
expulsão do homem do jardim, mas não acabou nem com o mandato adâmico
nem com a sua necessidade de uma arena geográfica na qual atuar. Fora dito
para Adão que embora o centro da atividade do concerto com ele fosse o jardim,
ele tinha de sair desse lugar estreito e encher a terra com os seus descendentes.
O jardim era o centro, mas não o reino exclusivo da existência do homem. Isto
mostrava a intenção divina de habitar certos lugares que, pela sua presença,
seria então santo, mas não indicava que Ele estivesse limitado por isso.

Pensando nisto, fica mais fácil entender a importância das promessas de
terra ligadas ao concerto abraâmico. O patriarca recebeu a ordem: “Sai-te da
tua terra [...] para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12.1). Tendo chegado a
Canaã, ele ficou sabendo de mais coisas ainda: “A tua semente darei esta terra”
(12.7). As fronteiras da terra: “Desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates”
(15.18) , são mais especificações da sua realidade histórica e geográfica e da sua
extensão.

Canaã tornou-se o foco da atividade redentora e reinante de Deus na Terra.
Isto explica por que os patriarcas e os seus descendentes israelitas consagraram
a terra e a valorizaram como um sine qua non teológico.  O testemunho disso
foi a construção de altares em locais significativos, lugares que o Senhor investiu
particularmente com a sua presença (Gn 12.7; 13.18; 26.25; 33.20; 35.1,7). O
desejo patriarcal (ainda vivo no judaísmo piedoso de hoje) de ser enterrado na
Terra Santa também atesta a associação especial com o lugar de habitação do
Senhor. O testemunho bíblico é que Israel é inconcebível sem terra, seja em
tempos históricos ou escatológicos.

A promessa da multiplicação dos descendentes também é parte essencial
do concerto abraâmico e está em cumprimento da ordenança original que exara-
va: “Frutificai, e multiplicai-vos” (Gn 1.28). Da mesma maneira que a semente
patriarcal seria tão numerosa quanto às estrelas (Gn 15.5), o pó (13.16) e a areia
da praia (22.17; 32.12), assim a terra inteira seria coberta pela humanidade de
acordo com o propósito de Deus.

A evidência dos problemas (e bênçãos) duplos de terra e população logo
aparece na luta entre Abraão e Ló sobre campos de pastagens. “Não tinha ca-
pacidade a terra para poderem habitar juntos, porque a sua fazenda era muita”
(Gn 13.6). Em consequência disso, eles se separaram e para Abraão foram de-
terminados o comprimento e a largura da terra (13.17). Tempos mais tarde,
Abraão comprou um local para enterros em Macpela (23.18-20), onde a esposa, ele mesmo (25.9), o filho Isaque (49.31) e o neto Jacó (49.29,30) foram
enterrados. A bênção de grande população ocorreu não em Canaã, mas no Egi-
to. Os setenta integrantes de Israel que desceram para o Egito multiplicaram-se
chegando a formar uma grande multidão tão numerosa a ponto de ameaçar a
segurança do próprio Egito poderoso (Ex 1.1-7,9,12,20, etc.). Durante todos os
tempos pré-exílicos, Israel desfrutou o benefício da terra e do povo, e só quando
ficou evidente que ele perdera os privilégios do concerto foi que esses dois bene-
fícios lhe foram arrancados de forma tão violenta e irreparável.

Também podemos identificar no relato histórico o terceiro elemento do
concerto patriarcal, a saber, que a semente de Abraão seria ocasião de bênção ou
maldição para as nações. Como mencionado, este aspecto funcional do concer-
to corresponde ao mandato de encher a terra e sujeitá-la, e dominar sobre todas
as coisas (Gn 1.28). Israel, como a semente, serviu como o agente reinante do
Deus Altíssimo com a finalidade de pelo menos distribuir a sua bênção, por um
lado, ou o seu julgamento, por outro.

O domínio patriarcal e o ministério intercessor estão claros a partir de Gê-
nesis 12. Faraó “fez bem a Abrão por amor dela [Sara]” (Gn 12.16), e o Senhor
infligiu a Faraó todos os tipos de doenças por causa de Sara (v. 17). No relato
dos reis do oriente, Abraão prevaleceu (14.13-16) por causa da intervenção di-
vina (v. 20). No seu encontro com o Senhor em Manre, Abraão intercedeu em
prol de Sodoma e Gomorra (18.16-21), um rogo que Deus ouviu, porque Ele
não esconderia do seu escolhido o que planejava fazer (v. 17).

O filisteu Abimeleque também conheceu a alternação de maldição e ben-
ção a partir do contato que teve com Abraão (Gn 20.3,7,17). Ele reconheceu
que Deus estava com Abraão (21.22), e que ele se beneficiara com a amizade
que os dois solenizaram por meio de concerto (21.27-34). Mais tarde, Abime-
leque conheceu Isaque e o invejou pelo seu sucesso e prosperidade (26.12-17).
Onde quer que Isaque cavasse poços e achasse água, o refrigério também era
desfrutado pelos filisteus.

As histórias de Jacó são ricas em alusões à bênção que era possível por
associação amigável com o patriarca. Labão, desonesto ao extremo, teve de con-
fessar que o Senhor o abençoara por causa de Jacó (Gn 30.27). O próprio Jacó
enriqueceu o seu irmão Esaú, pois o Senhor o abençoara de forma desmedida
(Gn 33.11). José, filho de Jacó, foi claramente a fonte de bênçãos para o Egito
no tempo da fome catastrófica. Mesmo antes de José subir ao poder máximo,
Potifar já tinha percebido que era José a explicação pelo sucesso extraordinário:
“O SENHOR abençoou a casa do egípcio por amor de José” (Gn 39.5).

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.