12 de julho de 2013

Eugene H. Merril - O Êxodo como eleição da realeza

A escolha de Israel como povo-servo já estava implícita nas declarações do
concerto patriarcal (Gn 12.1-3; 15.13-21; 18.18; 22.18; 26.3,4; etc.), mas foi
somente com a libertação ocasionada pelo êxodo que a nação como tal entrou
em existência histórica. O êxodo é de extrema importância teológica como ato
de Deus que destaca um momento decisivo na história de Israel, um evento
que marca a transição de povo para nação. Mas transcende isso em significação,
pois, corretamente compreendido, o êxodo também é precisamente o evento
e o momento que coincide com a expressão histórica da eleição de Israel feita
por Deus. A escolha de Israel como povo especial do Senhor não aconteceu no

monte Sinai, mas na terra de Gósen. O êxodo foi o evento eletivo; o Sinai foi a
formalização do concerto.

Vemos que esta é a intenção da estrutura canônica na leitura compenetra-
da e cuidadosa dos primeiros capítulos de Êxodo que estão repletos de alusões a
esta ordem de eventos. Temos de admitir que até a libertação ocorrida no mar
Vermelho, o povo hebreu era visto como herdeiro das promessas do concerto
patriarcal, mas a eleição à servidão como evento histórico e até teológico só
tomou forma decisiva no próprio ato redentor.

Enquanto Moisés estava no exílio em Midiã, o rei do Egito morreu, dan-
do oportunidade para Moisés voltar. O mais importante foi o movimento
do Senhor, pois “lembrou-se Deus do seu concerto com Abraão, com Isaque
e com Jacó” (Ex 2.24). Esta declaração liga claramente as promessas antigas
com o ato iminente de salvação. Então, em linguagem de concerto formulista,
o Senhor apareceu a Moisés na sarça ardente e identificou-se como “o Deus
de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (3.6). Ele
veio, disse Ele, para livrar o “meu povo” e levá-lo à terra da promessa (3.8).
Quando Moisés perguntou por qual nome Deus preferia revelar-se ao povo,
Ele disse que era o Senhor, “o Deus de vossos pais” (3.15). Mais uma vez, a
linha que liga os patriarcas aos descendentes hebreus é afirmada veemente-
mente e o momento da escolha, fundamentado em um evento decisivo, ainda
permanecia não realizado. 

Na véspera da partida de Moisés para o Egito, o Senhor apareceu nova-
mente e instruiu que Moisés dissesse para Faraó que “Israel é meu filho, meu
primogênito” e que o seu filho tinha de ser libertado do domínio egípcio ou o
próprio Faraó sofreria a perda do seu filho primogênito (Ex 4.22,23). Esta lin-
guagem ousada de parentesco dá a entender uma relação eletiva e adotiva que
transcende a promessa da semente patriarcal, como gloriosa que era.  Israel não
é apenas uma nação entre nações, separada em virtude de descender de Abraão,
mas também uma nação distinta e separada das outras, porque é o primogênito
de Deus. A adoção ainda é só um termo de relação e não de função. Israel é o
filho de Deus como herdeiro da graça eletiva estendida a Abraão, mas a sua
servidão — a sua tarefa funcional — não é tão aparente.

Surgem mais evidências desta bifurcação entre filiação e servidão na se-
gunda grande revelação a Moisés — a de Deus como o Senhor, em Êxodo 6.29.
Aqui o Senhor repetiu os nomes dos patriarcas. Ele disse que a eles ele foi pre-
eminentemente El Shaddai, mas agora era conhecido como Senhor. Ele era a
base da promessa redentora — o Todo-Poderoso; mas agora como o Senhor,
Ele era o executor. A necessidade agora não era de promessa de libertação, mas
do ato propriamente dito.

Deste modo, o Senhor disse: “[Eu] me lembrei do meu concerto”, e como
o Senhor Jeová, Ele disse: “[Eu] vos tirarei”, “[eu] vos livrarei da sua servidão e
vos resgatarei” e “eu vos tomarei por meu povo, e serei vosso Deus” (Ex 6.5-7).
De importância crucial é a linguagem de redenção que faria de Israel “meu
próprio” povo, porque Israel já fora identificado por filho de Deus e herdeiro
nacional das promessas da semente patriarcal. O que é novo aqui é o papel que
Israel tinha de desempenhar, a função de povo-servo. A justificativa completa
desta interpretação deve agora ser empreendida.

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.