17 de julho de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Êxodo: Êxodo 19.4-6 e o conserto da servidão

Não há dúvida de que Êxodo 19.4-6 é o texto mais teologicamente sig-
nificativo no livro do Êxodo, pois é a chave entre as promessas patriarcais de
filiação de Israel e o concerto sinaítico por meio do qual Israel se tornou a nação
serva do Senhor.  Abrange o evento do êxodo, que marcou a eleição de Israel, e
oferece ao povo eleito a oportunidade do papel privilegiado de mediação entre o
Deus soberano e todo o reino da criação. É importante que demos, aqui, aten-
ção a mais do que os detalhes habituais.


A passagem começa com uma revisão do processo histórico pelo qual Israel
foi trazido a este momento de decisão. O Senhor afirmou que Ele derrotara o 
Egito, o antigo soberano de Israel, e nas asas de águias levara o seu povo para si.
Isto apóia a argumentação já proposta que foi o próprio milagre do êxodo que
efetuou a relação do concerto, pelo menos do ponto de vista divino, e não as ne-
gociações no Sinai. E aumenta ainda mais a distinção entre a filiação de Israel,
que existia em virtude de Israel descender de Abraão, e o estado de Israel como
povo-servo. A filiação já fora afirmada, pois era Israel como filho que estava sen-
do resgatado. Quando o Senhor disse: “[Eu] vos trouxe a mim” (Ex 19.4), tem
de ser em referência a outra relação, a explicada nesta mesma passagem.
Antes de tratarmos disso, é importante observar brevemente (por ora) o
instrumento pelo qual a nova relação será efetuada, isto é, o denominado con-
certo sinaítico (ou mosaico). O Senhor revelou a Moisés e ao povo que “se dili-
gentemente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu concerto, então, sereis a
minha propriedade peculiar dentre todos os povos” (19.5). Esta é uma declara-
ção extremamente notável por muitas razões. Primeiro, está claro que o concer-
to em vista era condicional ou pelo menos tinha certos elementos condicionais.
Isto estava em nítida contraposição com os concertos de Gênesis, que eram
genérica e teologicamente concessões incondicionais, e com o estabelecimento
de Israel como povo do Senhor em virtude da redenção do êxodo, em si, um
ato incondicional da graça soberana. Que Israel era (e ainda é) o povo de Deus
é questão de iniciativa divina absoluta; que Israel tinha de funcionar de modo
especial como povo de Deus agora dependeria da livre escolha de Israel.
Segundo, Israel, tendo se submetido aos termos do concerto, seria acima
de todas as nações a “propriedade peculiar” do Senhor. Este termo, segullah em
hebraico, refere-se à propriedade pessoal.  O Senhor é o soberano de todas as
nações, mas Ele mantém Israel entre as suas possessões escolhidas, aquela que
atende um propósito especial no desígnio principal divino.

Esse propósito surge em Êxodo 19.6: “Vós me sereis reino sacerdotal e
povo santo”. Como muitos estudiosos já observaram, há um equilíbrio poético
na passagem,  na qual “sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os po-
vos” (segullah mikkol-haammim), “um reino sacerdotal” (mamleket kohanim)
e um “povo santo” (goy qados) são praticamente sinônimos e mutuamente in-
terpretativos. Quer dizer, o valor de Israel como a propriedade de Deus, acha-se
exatamente na função de reino santo de sacerdotes.

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.