17 de junho de 2013

Roland de Vaux - Território da tribo: guerra e razia

Cada tribo tem um território que lhe é reconhecido como próprio e den­tro do qual as terras cultivadas estão geralmente sob o regime de propriedade privada, mas os pastos são comuns. Os limites são, às vezes, flutuantes e se dá o caso de que grupos que pertencem a tribos diferentes se compenetrem nas regiões favorecidas, quando tais tribos vivem em harmonia. Mas a tribo a que pertence o território pode impor condições e exigir direitos de pastagem.
Essas liberdades dão facilmente lugar a disputas, principalmente a res­peito do uso dos poços ou das cisternas. No deserto, todo mundo deve saber que tal aguada pertence a tal grupo, mas acontece que às vezes os títulos são questionados e surgem assim contendas entre os pastores. Isso ocorreu em todos os tempos: os pastores de Abraão disputam com os de Ló, Gn 13.7; os servos de Abimeleque usurpam um poço cavado por Abraão, Gn 21.25; Isaque teve dificuldade para fazer valer seus direitos sobre os poços que ele mesmo havia perfurado entre Gerar e Berseba, Gn 26.19-22.

Se os conflitos relativos às transumâncias, aos pastos ou às aguadas não se resolvem amistosamente, como nos exemplos bíblicos que acabamos de citar, dão lugar a guerras. A guerra é decidida pelo sheihk, e todos os homens devem segui-lo. Ordinariamente, o despojo é repartido entre os combatentes, mas o chefe tem direito a uma parte especial, que antigamente era a quarta parte do recolhido e que mais recentemente deixou-se ao arbítrio do chefe. Em Israel, na época de Davi, o saque era repartido pela metade com os comba­tentes e os que ficavam na retaguarda, ficando sempre uma parte reservada ao chefe, I Sm 30.20-25. Em Nm 31.25-30, remonta-se essa instituição à estada no deserto e a parte do chefe torna-se um tributo para Iahvé e para os levitas.
Cada tribo árabe tem seu grito de guerra e seu estandarte. Além disso, leva ao combate uma liteira adornada chamada 'utfa, e mais recentemente, merkab ou abit-Dhur. Em tempos modernos esta liteira é levada vazia, mas em outros tempos ia nela a moça mais bonita da tribo para encorajar os combaten­tes. Israel também tinha seu grito de guerra, terú'ah, Nm 10.5,9; 31.6; Js 6.5,20; Jz 7.20,21; 1 Sm 17.20,52; cf. Am 1.14; 2.2; Sf 1.14,16, etc. Esse grito de guerra forma parte do ritual da arca da aliança, I Sm 4.5; II Sm 6.15, que é o palladium de Israel e cuja presença no combate, I Sm 4.3-11; II Sm 11.11, recorda a liteira sagrada dos árabes. As tribos no deserto, em seus acampa­mentos e em suas caminhadas, agrupavam-se possivelmente sob estandartes, ver, Nm 2.2.
Quando várias tribos confederam-se, adotam um estandarte comum, como a bandeira do Profeta, içada em Meca e em Medina. Com isto podem-se com­parar ainda a arca da aliança e o nome Iahvé-Nissi, “O Senhor é minha ban­deira”, dado ao altar erigido por Moisés depois da vitória sobre os amalequitas, Êx 17.15.

A razia é diferente da guerra: nela não se trata de matar, mas de saquear e fugir sem sofrer danos. E o espoite nobre do deserto; supõe o uso de camelos de corrida e de éguas de raça, e tem regras fixas. A antigüidade israelita não conheceu nada especificamente análogo. O que mais se parece a ela são as incursões dos midianitas e dos filhos do Oriente, montados em seus camelos, na época dos juizes, Jz 6.3-6; de menor envergadura são as expedições de Davi ao Neguebe durante sua estada entre os filisteus, I Sm 27.8-11.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.