12 de junho de 2013

Roland de Vaux - Organização e governo da tribo

Mesmo que forme um todo, a tribo tem uma organização interna, funda¬da também nos vínculos de sangue. Entre os árabes nômades ficam flutuantes os limites e os nomes desses subgrupos. A unidade de base é naturalmente a família, 'ahel, que é um conceito bastante amplo. Diversas famílias aparenta¬das constituem uma fração ou um clã, que se chama hamüleh ou 4àshireh, conforme a região. A tribo mesmo se denomina qabileh, antigamente batn ou hayyt dois vocábulos que expressam a unidade de sangue em que ela é fundada.

Os israelitas conheceram uma organização muito semelhante. A bêí 'ab, a “casa paterna”, é a família, que compreende não só o pai, sua esposa ou esposas e seus filhos não casados, mas também os filhos casados, com suas esposas e filhos, e a criadagem. Várias famílias compõem um clã, a mispahah. Esta vive ordinariamente no mesmo lugar ou, pelo menos, se reúne para festas religiosas comuns e refeições sacrificiais, I Sm 20.6,29, e assume especial¬mente a vingança de sangue. Ela é regida pelos chefes de família, os zeqením ou “Anciãos”. Finalmente, em tempo de
guerra, fornece um contingente, ava¬liado teoricamente em mil homens, que fica às ordens de um chefe, o sar. Em Jz 8.14, os “chefes” de Sucote se distinguem dos “Anciãos”; em Gn 36.40-43 são enumerados os chefes dos clãs de Edom, que têm o nome particular de *allüp, possivelmente relacionado com *elep, “mil”. O conjunto dos clãs, das mishapahôt, constitui a tribo, shebet ou matteh, duas palavras de emprego equivalente e que designam também o bastão de comando e o cetro real: a tribo congrega todos os que obedecem a um mesmo chefe.

A hierarquia dos três termos: bêt ’ab, mishpahah e shebet, é expressa cla¬ramente em Js 7.14-18. Mas ocorre também que se empregue, às vezes, um (ermo por outro, como em Nm 4.18; Jz 20.12 (no texto hebraico). Maquir e Gileade, que são dois clãs de Efraim, são mencionados no mesmo plano que outras tribos no cântico de Débora, Jz 5.14-17.

Entre os árabes, o governo da tribo está nas mãos do sheikh, em união com os principais chefes de família. Essa autoridade se mantém geralmente na mesma família, mas nem sempre passa ao filho mais velho, porque valori¬za-se muito o caráter e exige-se que o sheikh seja prudente, valoroso, genero¬so ... e rico.

Não é fácil dizer qual era o equivalente do sheikh entre os israelitas nem com que nome era designado. E possível que fosse o nasi. Esse é o nome que se dá aos chefes das tribos durante a estada no deserto, Nm 7.2, onde informa- se que eram “os chefes das famílias, os líderes das tribos”, cf. Nm 1.16, etc. A mesma palavra designa os chefes de Ismael, Gn 17.20; 25.16, e os ismaelitas têm doze nasi* correspondentes a outras tantas tribos (é evidente o paralelo com Israel). O mesmo se diga dos midianitas, Nm 25.18; Js 13.21. Pode-se objetar que esses textos pertencem à tradição sacerdotal, considerada a mais recente, e que o mesmo termo aparece com frequência em Ezequiel, mas ele também aparece em textos certamente antigos, Gn 34.2; Êx 22.27. Supôs-se também que esse termo designava os representantes das tribos na anfictionia israelita, mas nesse caso lhe é dado um sentido religioso, que não aparece nos textos que acabamos de citar. Além disso, se existia tal organização e era regida por uma espécie de conselho, seria normal que as tribos fossem repre¬sentadas nele nas pessoas de seus chefes. Deve-se notar, porém, que a palavra não foi sempre reservada aos chefes das tribos, mas que se aplicava também aos dirigentes de frações menores; com a mesma liberdade empregam os ára¬bes o termo sheikh.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.