20 de junho de 2013

Roland de Vaux - A lei da hospitalidade e de asilo

Como já dissemos, a hospitalidade é uma necessidade da vida no deserto, necessidade que veio a ser uma virtude, e uma das mais estimadas entre os nômades. O hóspede é sagrado: recebê-lo é uma honra disputada, mas normal¬mente ela é do sheikh. O forasteiro pode desfrutar dessa hospitalidade durante tres dias e, quando vai embora, ainda lhe é devida proteção, cuja duração é variável: em algumas tribos “até que tenha saído de seu ventre o sal que comeu”, nas grandes tribos como os Rwala da Síria, por mais outros três dias e em um raio de 150 quilômetros.

Logo vêm à memória os paralelos do Antigo Testamento: Abraão recebe esplendidamente os três “homens” em Manre, Gn 18.1-8; Labão apressa-se a acolher o servo de Abraão, Gn 24.28-32. Dois relatos, o dos anjos recebidos por Ló em Sodoma, Gn 19.1-8, e o do crime de Gibeá, Jz 19.16-24, mostram até que extremos podia chegar o sentimento da hospitalidade. Ló e o ancião de Gibeá estão dispostos a sacrificar a honra de suas filhas pela proteção de seus hóspedes, e dá-se a razão disto: é só porque esses estavam sob a proteção de seus tetos, Gn 19.8 e Jz 19.23.


Outra conseqüência da vida nômade é a lei de asilo. Nesse estado social é impossível e inconcebível a existência de um indivíduo isolado, que não pertença a nenhuma tribo. Se um homem é excluído de sua tribo por causa de um homicídio ou de uma ofensa grave ou se ele mesmo retira-se dela por qualquer razão, ele deve buscar a proteção de alguma outra tribo. Ele se torna o que os árabes modernos chamam de dahil, “o que entrou”, e o que os árabes antigos denominavam um djâr. A tribo o toma sob sua proteção, o defende de seus inimigos e pratica a seu favor a vingança de sangue. No Antigo Testa¬mento encontramos o eco desses costumes na instituição do ger, que é o mes¬mo que o árabe djâr, assim como na das cidades de refúgio . 

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.